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Brito-Semedo, 28 Mai 10
Foto do Google, Autor Desconhecido
Sinto-me honrado e grato aos organizadores do II Encontro Nacional de Coordenadores de Português do Ensino Secundário pelo convite para nele participar, o que pode ter vindo naturalmente pelo facto de ser (ou ter sido) docente do Departamento dos Estudos Cabo-verdianos e Portugueses do Instituto Superior de Educação (ISE), promotor desta iniciativa.
Já o que pode não ser tão natural ou inocente é o Antropólogo apresentar um tema que, à primeira vista, é do domínio da Didáctica, envolvendo metodologias do ensino da língua e da literatura. A novidade pode estar precisamente nisso, esperando eu poder trazer um novo olhar e uma nova forma de abordagem sobre o tema, ciente que é do debate que nasce o consenso, até porque desconheço o peso que a literatura tem nos currículos do Ensino Secundário e de como é feita a gestão do programa da Disciplina de Português.
Trago, assim, como tema para debate Novas Formas de Ler e de Ensinar a Literatura Cabo-Verdiana. Para isso, focarei a minha atenção no papel que a etno-história tem (ou pode ter) no estudo e no ensino da literatura, destacando dois aspectos: (i) a relação entre a literatura, a sociedade e a cultura e (ii) o jogo que a literatura estabelece ou pode estabelecer com a História.
A RELAÇÃO ENTRE A LITERATURA, A SOCIEDADE E A CULTURA
Se tomarmos como facto que a literatura reflecte para o leitor a realidade social de uma dada época, como que num jogo de espelho entre a realidade e a imagem, somos a concordar que se um leitor/professor possuir um conhecimento insuficiente dos fenómenos sociais e culturais envolventes da obra, fica gravemente prejudicado no processo de leitura e de ensino do texto literário.
Esta ligação entre a literatura, a sociedade e a cultura tem sido fundamental para os mais diferentes escritores, nas mais diversas produções, da ficção à poesia, passando pelo dramático. E é isso que confere unidade ao conjunto dos diferentes textos dos vários autores.
Nas literaturas novas, como são as africanas e a cabo-verdiana, nosso enfoque, essa relação é particularmente evidente. É que a literatura está ao serviço da sociedade e isso pode ser identificado dos primórdios à modernidade, ou melhor, do Período do Cabo-verdianismo (1842-1936) ao Período da Cabo-verdianidade (1936-1975) ou mesmo do Período do Universalismo (1975-…). Reparem que, de propósito, deixei de usar as expressões Pré-Claridoso, Claridoso e Pós-Claridoso que, segundo meu ver, faz mais sentido, já que de maior equilíbrio entre cada um dos períodos e, sobretudo, porque essa classificação já indexa para o nível de envolvimento que essa literatura estabelece com a sociedade cabo-verdiana.
Vejamos alguns exemplos, sem pretender esgotá-los:
No Período da Cabo-verdianidade
Exemplo 1 – Os romances Chiquinho, de Baltasar Lopes (1947); Chuva Braba (1956) e Flagelados do Vento Leste (1959) de Manuel Lopes; a poesia dita evasionista, de Jorge Barbosa, Arquipélago (1935), Ambiente (1941) e Caderno de um Ilhéu (1956); a poesia dita de combate, de Ovídio Martins, Caminhada (1962) e Gritarei Berrarei Matarei. Não Vou para Pasárgada (1973); de Gabriel Mariano, Doze Poemas de Circunstância (1965); ou de Onésimo Silveira, Hora Grande (1962), produzida na Casa de Estudantes do Império ou nas então colónias, sob a vigência do regime salazarista.
Exemplo 2 – A trilogia de romances de H. Teixeira de Sousa, Ilhéu de Contenda (1978), Xaguate (1987) e Na Ribeira de Deus (1992), sobre a sociedade da ilha do Fogo e do soçobrar dos sobrados ou de uma classe que o tempo destroçou, ou mesmo os romances Capitão de Mar e Terra (1989) e Djunga (1990), onde faz a descrição de uma dada época e pinta o retrato dos hábitos e dos costumes da ilha de S. Vicente.
No Período do Universalismo
Exemplo 3 – O romance Os Dois Irmãos (1995), de Germano de Almeida, sobre os hábitos e costumes e o conceito de honra do interior da ilha de Santiago, o que é, ao fim e ao cabo, um choque entre o peso da tradição e a leveza da modernidade.
O JOGO QUE A LITERATURA ESTABELECE COM A HISTÓRIA
As marcas, os limites, os dilemas, as contingências de cada tempo e sua superação projectam-se nos textos, ainda que sob a capa da ficcionalidade. Foi assim no passado e também o é hoje. O nosso desafio, enquanto professores da literatura é, com base na memória histórica, nos contextos, nos desenhos cifrados, no dito e no não-dito, procurar as linhas d’água que distinguem os textos e os caracterizam.
É assim que o Professor da Literatura Cabo-verdiana sente necessidade de recorrer ao conhecimento da História Universal e de Portugal para saber a História da então Província Ultramarina de Cabo Verde.
Ele precisa conhecer os efeitos e a repercussão do Movimento Liberal de 1820 e das guerras entre os liberais e os absolutistas (1823-1834), factos esses determinantes para a instalação da imprensa e a implantação e a regularização da instrução pública nas Ilhas (primária e secundária) e o surgimento de uma elite letrada; do Estabelecimento da República, em 1910; das políticas do Estado Novo estatuído em 1933; da Casa dos Estudantes do Império, criada em Lisboa, em 1944; só para enumerar alguns.
O conhecimento desses factos históricos é indispensável para uma leitura de obras fundamentais da nossa Literatura.
Vejamos mais alguns exemplos:
No Período do Cabo-verdianismo
Exemplo 4 – Os romances O Escravo, de Evaristo d’Almeida (1856) e Memórias dum Pobre Rapaz, de Guilherme Dantas (2007) ou mesmo alguma poesia de José Lopes, Eugénio Tavares ou Pedro Cardoso, aqueles, plasmados sobre a realidade histórica da Monarquia Liberal, e esta, sobre as disputas políticas trazidas para as Ilhas, com o advento da Primeira República.
No Período da Cabo-verdianidade
Exemplo 5 – O romance Entre Duas Bandeiras (1994), de Henrique Teixeira de Sousa, que tem como pano de fundo uma fase conturbada da nossa História, entre o período a seguir à queda do regime político em Portugal e a independência de Cabo Verde (1974-1975), ou seja, entre as bandeiras das cores rubra e verde e da estrela negra.
Período do Universalismo
Exemplo 6 – o romance O Meu Poeta (1990) ou a Morte do Meu Poeta (1998), de Germano de Almeida, todos relacionados de uma forma directa com a História Política recente do País, do regime do partido único do PAIGC ao sistema do multipartidarismo, com a governação do MpD (1991-2001), ou ainda, Dona Pura e os camaradas de Abril (1999), abordando o período histórico e o processo de negociação que desembocaria na independência de Cabo Verde.
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À laia de conclusão, apenas acrescento que pretendi fazer uma abordagem que pratico nas minhas aulas do Curso de Licenciatura, procurando fugir à abordagem clássica de um professor de literatura típico, que a encara como estanque, pelo que estou disposto a discuti-la convosco.
- M. Brito-Semedo
Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...
Viva Susana, não não é este Valdemar Pereira, eu f...
Corrigido no texto. Grato pela correção. Abraço.
Ele nasceu em 1824.
Grato pela partilha destas informações que enrique...
Devido à oportunidade de realizar pesquisas sobre ...
Gostaria de felicitá-lo pela pertinente reflexão sobre as «Formas de Ler e de Ensinar a Literatura».
Todo o processo deve se estimulado ainda na pré-escola e no ensino básico, através da inter face entre o ensino do Português e de outras disciplinas, como por exemplo, a Expressão Dramática.
O seu texto foi muito útil para mim, porque amanhã devo animar uma formação para professores do EBI da Praia, sobre «Avaliação de Alunos com NEE - Necessidades Educativas Especiais » e uma das actividades chave é o visionamento da peça teatral «Blimundo», realizada na escola portuguesa de Rio Tinto. Tudo é encenado por alunos, na sua maioria com NEE. É emocionante ver as crianças portuguesas dramatizando, com entusiasmo, personagens da literatura caboverdiana, como o Blimundo, a Côdezinha, o Barbeiro, o Rei, a Rainha, o Menino do Katigá, numa belíssima iniciativa da artista Celina Pereira!
Oxalá os nossos meninos cá nas Ilhas tenham muitas oportunidades de aprender a gostar de Literatura desde cedo! E assim se aprende Literatura, «porque é de pequenino que se torce o pepino»! Saudações!