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A Mensagem de Ano Novo do Presidente da República foi um exercício de compostura exemplar. Tudo no lugar, tudo certo, tudo muito presidencial. Um discurso passado a ferro: sem vincos, sem arestas, sem perigo. Tão equilibrado que quase perdeu peso político.

 

Cinquenta anos de independência pediam balanço, densidade, algum incómodo. Recebemos uma narrativa polida de virtudes nacionais, votos bem-intencionados e a habitual convocação da união – palavra ampla, generosa e, neste caso, pouco exigente. União, sim. Mas em torno de quê, exactamente?

 

Falou-se de desenvolvimento sem lhe tocar nas entranhas. Como se o modelo não estivesse cansado, dependente, repetitivo. O país concreto – o que estuda mal, vive apertado e espera mais do que promessas – ficou fora da sala. As desigualdades não entraram na fotografia de família. A educação e a cultura passaram em visita de cortesia, quando continuam a ser o chão frágil sobre o qual tudo assenta.

 

As alterações climáticas surgiram como fatalidade natural. Reconhecem-se fragilidades, mas ninguém parece responsável por elas. O Estado observa, constata, lamenta – e promete preparar-se melhor um dia destes, quando houver tempo, consenso e orçamento.

 

É verdade que a função presidencial não é governar nem polemizar. Mas também não é apenas confirmar o óbvio. Num contexto de policrise assumida pelo próprio discurso, talvez se esperasse mais do que prudência bem calibrada.

 

No plano político, o Presidente escolheu o centro exacto da sala: árbitro cuidadoso, de régua e esquadro na mão. Só que o jogo anda feio e o público começa a bocejar. Nesses momentos, apitar pode não chegar.

 

A mensagem tranquiliza. Mas tranquiliza como um sedativo leve: acalma, sem curar. Cinquenta anos depois, Cabo Verde talvez já pudesse suportar um discurso menos asseado e mais exigente. Correcto, impecável, irrepreensível – resta saber se, daqui a um ano, alguém se lembrará do que ali ficou por dizer.

 

 

N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.

 

 

Manuel Brito-Semedo

 

 

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