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Universo Criativo de Manuel Figueira

Brito-Semedo, 13 Out 23

 

Manuel Figueira.jpg

 

A URDI – Feira do Artesanato e Design de Cabo Verde 2022, realizado em Mindelo em Dezembro passado, foi organizada sob o signo “Tradição Oral – Cultura Imaterial” em homenagem a Manuel Figueira, artista plástico e um dos fundadores do Centro Nacional de Artesanato.

 

Com a presença do artista, foi examinado o “universo criativo de Manuel Figueira” cujo texto de apresentação foi agora adaptado para o Expresso das Ilhas.

 

Não sendo eu Crítico de Arte ou da História da Arte, mas da Antropologia, especialidade da Etnologia, procurarei, contudo, fazer uma abordagem na perspectiva da Antropologia Visual na análise e interpretação de um recorte das obras do artista Manuel Figueira (São Vicente, 1938 – 2023) decalcadas de contos escritos por Manuel Bonaparte Figueira (1968), baseados na tradição oral das gentes de Santo Antão, estendendo-se a São Vicente (ilha-arquipélago), ou “… de como das histórias do povo se fez arte”.

 

O artista plástico Manuel Figueira socorre-se da memória colectiva abstracta e oralizada das ilhas de Santo Antão e São Vicente e faz dela arte visual em telas e tapeçarias com a qual os cabo-verdianos se sentem identificados. Experiências idênticas são as de Luísa Queirós (Lisboa, 1941 – 2017) e Bela Duarte (Mindelo, 1940 – 2023), artistas plásticas que, juntamente com Manuel Figueira, constituíram o núcleo fundador da Cooperativa de Produção Artesanal Resistência (1976).

 

Os temas trabalhados nessas obras são as narrações ou as histórias infantis do Ti Lobe i Ti Pède/ do Ti Lobe i Chibinho/ do Ti Lobe i Ti Ganga e do Blimundo; e as crenças e os medos do povo projectados nas figuras de Capotôna, Catchorrôna, C’nilinha, Bitcha-Féra, Gongõ, Minguarda.

 

Era uma vez… 7ete! – histórias pintadas…

 

“… de como das histórias do povo se fez arte” é uma mostra de 7 pinturas, acrílico sobre tela, produzidas entre 2003 e 2005.

 

Estóra, estóra,

Fortuna do céu, amém!

 

Era uma vez… 7ete! – histórias pintadas…

 

São sete histórias escolhidas de entre um total de doze publicadas em livro (1968) por Manuel Bonaparte Figueira  para serem pintadas:

 

1. “Feiticeiro de Santo Antão”, 2003 – “Papá Joquim Paris,/ Bocê dé-me licença duma hora e meia…”

 

Embora os conceitos de "bruxa" e "feiticeira" sejam usados entre nós como sinónimo, na essência não são a mesma coisa.

 

Em Santiago usa-se o primeiro termo para se referir à pessoa que nasce com rabo e com poderes, geralmente para fazer o mal, que lança “mau-olhado” que pode causar o definhamento e a morte, principalmente da criança, enquanto o segundo termo é empregue para a pessoa que é dotada de poderes mágicos, quer para fins benéficos quer maléficos.

 

Em Santo Antão e, por extensão, São Vicente, o termo usado é feiticeira, com o mesmo sentido de bruxa em Santiago. Para Manuel Bonaparte Figueira (1968), “o bruxo é uma classe evoluída de feiticeiros”, inclusivamente com o dom de adivinhação.

 

A história que deu origem à morna "Papá Joquim Paris” – Futchera de Rbêra de Janela/ Tá c'mê na got/ Tá c'mé na catchorre/ Cantamá que pás cá c'mé/ Nha Fernandinho di meu, nha primero amor – contada por Bonaparte Figueira, é que dá conteúdo à pintura de Manuel Figueira.

 

No creo en brujas, pero que las hay, las hay.

 

Bom mesmo é conhecer o esconjuro às bruxas, que é feito da seguinte forma colocando o polegar entre o dedo indicador e o dedo médio: "Fisga canhota, tosca marosca, mar de Espanha, bordolega, barba de góte prete. Cabéça pa mar, róbe pa terra. Bá fundiá na Stótcha pa mo ei bô N t' entrá!"

 

2. “Pacto para além da morte”, 2003

 

História com grupo de jovens brincalhões, festanças e assombrações que acabou em morte.

 

“Um dia, parodiando solenidades, (cinco foliões) juraram pacto em que manteriam para sempre amizade na vida e na morte”. Não durou muito as baixas seguiram, um após outro foi morrendo com manifestações de assombração ficando apenas um “tendo sempre na memória o maldito pacto, tornou-se devoto, sempre com o rosário no bolso”.

 

3. “Nhá Rosa do Monte Verde”, 2005

 

História de uma boa alma que o mundo das sereias precisou, reconheceu e recompensou.

 

Quando crianças, contavam-nos histórias de sereias vistas à tardinha a pentear-se à beira-mar e quando chuviscava diziam-nos que uma serena estava a pentear-se. Garantiam-nos que existiam esses seres especiais, mitológicos – serenas ou sereias – a que alguns homens, os mais sensíveis, não resistiam aos seus (en)cantos e eram enfeitiçados por elas.

 

Nhá Rosa do Monte Verde, mulher “sabida dos remédios da natureza e suas mãos faziam nascer gente, bichos, flores e fruto” foi levada por “um ser estranho com figura de natureza incerta, mas irradiando uma luminosidade verde/prata” ao fundo mar aonde estava uma sereia ferida no ventre que ela tratou por vários dias até ficar sarada de todo.

 

Para além das moedas antigas que lhe foram oferecidas, uma bela canção que a acompanhou de volta até casa. “Ainda hoje Nhá Rosa, quando desce até ao mar, ouve a melodia que só ela escuta”.

 

4. “Nhô Fula”, Acrílico sobre tela, 2004 – História de um gigante.

 

Uma invocação e uma homenagem a João André Barros, Nhô Fula, atleta da zona do Monte, de grande compleição física, falecido em 1985, aos 91 anos, um mito urbano dos anos quarenta e cinquenta que se celebrizou por "caçar" tubarões com os quais se bateu em diversos momentos. Conta-se que aquando do naufrágio de uma chalupa numa viagem de Santo Antão-São Vicente, Nhô Fula teve de lutar com vários tubarões para salvar cinco pessoas e depois regressar à praia.

 

5. “Ô Lá Quêl Hôme de Tchapêu de Panamá, 2003

 

História com festa de casamento, moço bonito tocador de morna e estranho encontro noturno com homenzinho de chapéu de panamá.

 

Uma variação das histórias do “homem-do-pelo-sinal-de-santa cruz” que aparece a horas minguardas aos cristões de Deus transvertido de animais e côsa-rum. Neste caso, “um anão, desconhecido na terra, com um enorme chapéu de panamá” que aparece ao violeiro Manel de Nhô Padre, no caminho de casa, em noite de lua tropical bem alta.

 

Esta lenda deu origem a “A Morna do Homem de Chapéu de Panamá”.

 

6. “Ti Ganga-o-Ovo-e-Ti Lobe”, 2004

 

História de Ti Pedro, personagem bom e algo ingénuo, e Ti Lobo, velhaco de grande lábia.

 

O número 2 da Claridade – revista de artes e letras, de Agosto de 1936, traz um conto popular de São Nicolau, “O Lobo e o Chibinho”, de Baltasar Lopes, cuja matriz é a mesma dessa da de “Ti Ganga-o-Ovo-e-Ti Lobe”, de Manuel Bonaparte Figueira, de Santo Antão, confirmando assim a oralidade da transmissão e eventuais alterações nos nomes das personagens de ilha para ilha.

 

As histórias do ciclo de Ti Lobe estão sempre relacionadas com a época das secas e das fomes cíclicas que marcaram a história do homem das ilhas.

 

Ti Ganga, segundo Luís Romano (1970), é imaginado como uma grande ave que passa a vida a pôr ovos. Espécie de avestruz, de mau carácter, pouco dada a brincadeiras, vivendo isolada e sempre pronta a surrar os intrometidos. Quando surpreende Ti Lobe em mofinezas aplica-lhe açoites de extrema violência.

 

7. “Sanjõ Revoltióde na Rebêra de Juliõ”, 2003.

 

Quando o povo, ao trazer o santo para a cidade do Porto Novo, faz festa rija em meio ao clima de ventania que se faz na ilha nessa época do ano, diz-se que Son Jon é Revoltióde. É essa festa, celebrada na Ribeira de Julião, em São Vicente, num espaço aberto e também de ventania que dá título à pintura.

 

No desdobrável da exposição, um poema inédito de Manuel Figueira, ‘Sanjõ’, uma nova linguagem que ajuda a descodificar o quadro.

 

Era uma vez… 7ete! – histórias pintadas…

 

No imaginário das gentes das ilhas onde os Piratas se refugiaram, o Mar é mulher, os Poetas reinventam o amor e os Marinheiros casam-se com o mar tudo é possível de acontecer.

 

E é “… de como das histórias do povo se fez arte”.

 

Agora, quem for “mais grande” vai apanhar, e quem for “mais pequeno” vai cercar!

 

Manuel Brito-Semedo

 

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