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Brito-Semedo, 22 Ago 25

Foto NAF, Rádio Morabeza
Desta vez, Soncent não chegou com a brisa leve do alísio nem com a morna suave de violino. Veio coberta de lama, empapada em lágrimas, arrastada por uma enxurrada que apanhou todos de surpresa – menos a lógica da desordem, que há muito se tinha instalado. No dia 11 de Agosto, as ribeiras desceram desgovernadas, como quem cobra a factura de anos de improviso, e o Porto Grande foi testemunha de mais uma tragédia anunciada.
As imagens correram mundo: nove mortos, quatro deles crianças. Mais de uma dezena de desalojados, recolhidos às pressas no Centro de Estágios. Entre a meia-noite e as cinco da manhã, caíram 192,3 milímetros de chuva – “muita, muita chuva”, em palavras simples, mas devastadoras. A cidade acordou em ruínas: casas invadidas, carros arrastados, paredes que cederam, infraestruturas comprometidas. Comerciantes fazem contas à vida, conscientes de que terão de recomeçar do zero.
É justo reconhecer: o Governo apareceu logo com medidas. Calamidade decretada, luto nacional, apoios de emergência, linhas de crédito, promessas de reabilitação. Palavras certas, no tempo certo. Mas todos sabemos como tantas vezes promessas acabam perdidas em relatórios e gavetas. O desafio não é anunciar: é cumprir.
Já a Câmara Municipal ficou a reboque. O presidente, em vez de acudir de botas no terreno, preferiu microfone em punho para rebater críticas. E ainda teve o desplante de afirmar que “a edilidade não tem pressa”. Pois foi essa falta de pressa que custou caro a tantas famílias. A chuva não esperou, a lama não esperou – só a Câmara ficou sentada à sombra do guarda-chuva.
Soncent di longe é dor, mas também interrogação: quantas tragédias mais serão precisas para perceber que o improviso custa caro? Que a cidade-porto, orgulho de cosmopolitismo, não pode ser governada como se fosse um bote à deriva?
A solidariedade, sim, nunca falha. A vizinha que abre a porta, o jovem que ajuda a limpar, o emigrante que envia apoio – essa é a verdadeira força de Cabo Verde. Mas os poderes locais continuam de costas voltadas para a cidade, escondidos atrás de desculpas.
Escrevo em memória dos que partiram, em solidariedade com os que perderam tudo, e em protesto contra a cultura do “deixa andar” que ainda governa as nossas ribeiras.
Em Cabo Verde não morremos de fatalidade: morremos de irresponsabilidade – e de câmaras que só correm depois da água levar tudo.
N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.
– Manuel Brito-Semedo
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