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Arménio-Vieira, Camões 2009.jpg

 Arménio Vieira, Café Cachito, Praia, Finais anos 90

 

 

 

Em Saudação ao Poeta Arménio Vieira, Prémio Camões 2009

 

 

Segundo o conceituado romancista Teixeira de Sousa (Fogo, 1919 – 2006), os escritores cabo-verdianos são trilingues. Desta forma: “temos o crioulo, temos o português claridoso [...] e [temos] o português domingueiro, correcto e vernáculo, que usamos no ensaio, nos relatórios, nos ofícios, nos discursos, na correspondência, etc., etc.” [1].

 

De facto, é possível, através da análise das produções literárias detectar os momentos marcantes no discurso linguístico cabo-verdiano, porque os mesmos se sobrepõem aos períodos e sub-períodos ou fases da literatura, a saber: o Período do Cabo-verdianismo (1842-1936), o Período da Cabo-verdianidade (1936-1974/75) e o Período do Universalismo (1974/75 -...).

 

1. No Período do Cabo-verdianismo, os aspectos estético-formais e temáticos que prevaleciam eram os do Neoclassicismo (1756-1825) e do Romantismo (1825-1865) Português, particularmente da última fase deste, o ultra-romantismo, cultivado tardiamente em Cabo Verde, e em que se fez sentir o peso e a influência do Seminário-Liceu de S. Nicolau, fundado em 1866.  Neste período, o discurso é caracterizado, por um lado,  por ser decalcado do português vernáculo, sendo a norma seguida a de Portugal, e, por outro, por um crioulo castiço, na decorrência da exaltação dos valores crioulos promovidos pelos nativistas.

 

É na fase desse português clássico que se dá o nascimento da imprensa e se faz ­o lançamento das bases da literatura cabo-verdiana, com os escritores Guilherme da Cunha Dantas (Brava, 1849 – 1888), Joaquim Augusto Barreto (Santiago, 1854 – 1878), Luiz Medina e Vasconcellos (Praia, 1855 – 1891), Luiz Loff de Vasconcellos (Maio, 1861 – 1923), António Januário Leite (Santo Antão, 1865 – 1930) e José Lopes da Silva (S. Nicolau, 1872 – 1962). Fazendo uma avaliação valorativa do domínio da língua portuguesa por esses poetas, o ensaísta Gabriel Mariano (S. Nicolau, 1928 – 2002)[2] é de opinião que aqueles faziam sonetos que, do ponto de vista formal da língua portuguesa, não ficavam atrás dos de Camões, de Bocage ou de Antero de Quental.

 

São, sobretudo, Eugénio Tavares (Brava, 1867 – 1930), António Manuel da Costa Teixeira (Santo Antão, 1865 – 1919) e Pedro Monteiro Cardoso (Fogo, 1883 – 1942) os escritores que, nos finais de oitocentos e primeiras décadas de novecentos, fazem a exaltação dos valores crioulos, escrevendo directamente na língua da terra ou para ela traduzindo escritores portugueses, como Camões e João de Deus.

 

A título exemplificativo, em 1893 Eugénio Tavares publica a sua tradução das Endechas de Camões à Bárbara Escrava, "Bárbara, Bonita Scrába"[3]:

 

Quêl bonita scrába,
Qui teném câtibo,
Pamô n’ dál nha bida,
Cá crê pan stâ bibo.
 
Tê hoje n'c ôlhâ rosa
Num môta berdinho,
Qui mé na nhá olho
Parcém más sabinho.
.

É assim também que, em 1898, o Cónego A. da Costa Teixeira publica “Chegada Ás Ilhas de Cabo-Verde”, uma tradução em crioulo, na variante da ilha de Santo Antão, do Canto 5º, Estâncias VIII e IX de Os Lusíadas (s/d), preparada expressamente para a Exposição do Centenário da Índia.

 

Pode concluir-se que existe, na elite letrada dessa época, uma certa duplicidade, na decorrência do seu sentimento bi-pátrido – a pátria Portugal e a mátria Cabo Verde – que se materializa na assunção de uma bivalência linguística, com a valorização do português clássico, por um lado, e a defesa do crioulo, a língua materna, por outro.

 

2. No Período da Cabo-verdianidade, os aspectos estético-formais predominantes são os mesmos do Modernismos Português (1927-1940) e Brasileiro, com temáticas próprias do Realismo, por influência do modelo brasileiro (entre 1930 e 1945/50, grosso modo), e do Neo-realismo, seguindo o modelo português (1940-1950). Neste período, iniciado com a publicação da revista Claridade (S. Vicente, 1936-1960) com o propósito de “fincar os pés na terra”[4], o discurso é de ruptura e de reelaboração de linguagem, num hibridismo do crioulo com o português falado, uma linguagem consentânea com o tipo de mensagem a que se propunham.

 

Na fase regionalista ou claridosa, escritores como  Baltasar Lopes da Silva (S. Nicolau, 1907 – 1989), com o pseudónimo “Osvaldo Alcântara”, Jorge Vera-Cruz Barbosa (Praia, 1902 – 1971), Manuel dos Santos Lopes (São Nicolau, 1907 – 2004) e António Aurélio Gonçalves (S. Vicente, 1901 – 1984) ensaiam uma nova linguagem. Nesta, o português de Portugal é enriquecido com o crioulo, em que se procura adaptar o português oral na escrita literária ficcional ou poética de mistura com crioulismos, abandonando o purismo da língua portuguesa porque reivindicando uma regionalidade linguística, conforme atestam os extractos do Chiquinho (1947):

 

Como quem ouve uma melodia muito triste, recordo a casinha em que nasci, no Caleijão. O destino fez-me conhecer casas bem maiores, casas onde parece que habita constantemente o tumulto, mas nenhuma eu trocaria pela nossa morada coberta de telha francesa e emboçada de cal por fora, que o meu avô construiu com dinheiro ganho de-riba da água do mar. Mamãe-Velha lembrava sempre com orgulho a origem honrada da nossa casa. Pena que o meu avô tivesse morrido tão novo, sem gozar direitamente o produto do seu trabalho" (1947:11).

 

Logo cedinho, chegou-nos à soleira da porta um rapazotinho de olhos tímidos [...].

 

– Tua mãe não foi para lenha?

 
– Mamãe não pode, está de pele e osso, tem um ror de dias não comemos comida de caldeira. Ontem só teve chá margoso de folha de laranjeira, Mamãe cozeu miolo de troço de bananeira e a gente comeu. Totonhinho está muito fraco, a gente tem fome, Mamãe está só a chorar...

 

Mamãe deu-lhe café e uma racha de cuscus. Mas o garoto só bebeu o café, não comeu o cuscus" (Idem: 274-275).

 

Os claridosos terão surgido com este “português falado” nas suas obras, como uma língua de compromisso entre o então chamado dialecto crioulo e a língua de Portugal. Não é por acaso que o primeiro romance que retrata a realidade cabo-verdiana, Chiquinho, de Baltasar Lopes, começou a ser escrito antes mesmo do primeiro número da Claridade, onde sai logo um extrato. O factor facilitador, ou mesmo determinante, deste processo linguístico terá sido a presença no grupo da revista daquele autor, igualmente filólogo, que viria a publicar em 1957 o estudo O Dialecto Crioulo de Cabo Verde.

 

Nos finais dos anos cinquenta começa uma nova fase, a fase dita nacionalista, em que se passa a usar a literatura como arma de combate na construção de uma nova pátria, marcada pela publicação do "Suplemento Cultural" ao Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, em 1958.


Nesta fase, os escritores vão levar até às últimas consequências o discurso linguístico ensaiado pelos claridosos. Escritores como Gabriel Lopes da Silva Mariano, Ovídio de Sousa Martins (S. Vicente, 1928 – 1999) e Onésimo Silveira (S. Vicente, 1935 –) recorrem a um código linguístico cheio de interferências, de misturas e de alternâncias com o crioulo, de que o poema ”Saga”, de Onésimo Silveira, é exemplo:

 

Cabá vapor – cabá carvom...
Nos campos dantescos de S. Vicente
Já não se fazem mais piqueniques
Porque cabá vapor e chuva cabá dias-há
Movimento cabá na Mindelo
S. Vicente é um estendal de misérias
Porque cabá vapor, cabá carvom e cabá chuva!
Cabá vapor – cabá carvom...
Gente de São Vicente pâ câ morrê de fome
Tem que bá ‘mbora pa São Tomé!
Cabá vapor – cabá carvom...[5]

 

Uma excepção é Felisberto Vieira Lopes (Santiago, 1937 –), com o pseudónimo Kauberdianu Dambará, que publica um livro de poemas totalmente escrito em crioulo, Noti (1964), editado em Conakry pelo PAIGC.

 

3. No Período do Universalismo, os aspectos estético-formais predominantes são os da literatura clássica universal e do Simbolismo. Neste período, iniciado com a publicação de Pão & Fonema (1974), de Corsino Fortes (S. Vicente, 1933 – 2015), e de O Primeiro Livro de Notcha (1975), de Timóteo Tio Tiofe, i. e., João Manuel Varela, (S. Vicente, 1937 – 2007), o discurso é, num primeiro momento, de renovação e de exaltação da índole crioula em múltiplos aspectos (entre eles a língua, enquanto instrumento linguístico privilegiado em todas as esferas da comunicação, incluindo a literária), e, posteriormente, de acalmia na manifestação do nacionalismo, abrindo-se, então, para o mundo.

 

Escritores como Corsino Fortes, Arménio Vieira e Silva (Santiago, 1941 –) e João Manuel Varela, com os heterónimos João Vário, Timóteo Tio Tiofe e G. T. Didial), que transitam do período anterior, em conjunto com as gerações da independência, assumem o português como uma língua literária própria, interiorizando-o sem complexos, trabalhando-o no máximo da sua potencialidade, sem deixar de fazer uso da sua língua materna na sua produção literária. De referir, contudo, que existe uma ala de escritores, particularmente os da ilha de Santiago, que tem optado por escrever quase que exclusivamente na língua cabo-verdiana, como Manuel Veiga (Santiago, 1948 –), Tomé Varela (Santiago, 1950 –), Danny Spínola (Santiago, 1962 –) e Kaká Barbosa (São Vicente, 1947 –).

 

4. Em síntese, ocorreram, desde os primeiros textos publicados em Cabo Verde, três fenómenos linguísticos típicos da comunicação escrita: (i) o fenómeno de se escrever ou só em crioulo ou só em português (Período do Cabo-verdianismo); (ii) o fenómeno de se misturar as duas línguas num mesmo discurso, isto é, introduzir palavras e estruturas do crioulo num texto em português (Período da Cabo-verdianidade); e (iii) o fenómeno de alternância de códigos, ou seja, iniciar a escrita numa das línguas (por exemplo, em português) e passar para a outra língua (neste caso, o crioulo), ou vice-versa (Período da Cabo-verdianidade).

 

– Manuel Brito-Semedo

 

_________

[1] Teixeira de Sousa, in Michel Laban, Cabo Verde. Encontro com Escritores,Vol. I, Porto, 1992.

[2] Gabriel Mariano, in Michel Laban, Cabo Verde. Encontro com Escritores, Vol. I, Porto, 1992.

[3] Eugénio Tavares, “Bárbara, Bonita Scraba”, in Xavier da Cunha, Pretidão de amor. Endechas de Camões a Barbara Escrava Seguidas da Respectiva Tradução em Varias Linguas e Antecedidas de um Preambulo, Lisboa, 1893, pp. 289-294.

[4] Manuel Lopes, "O Programa da Claridade Era Fincar os Pés na Terra Cabo-verdiana", Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, N.º 121, Praia, Outubro de 1959.

[5] Onésimo Silveira, “Saga”, Claridade, N.º 8, S. Vicente, Maio de 1958, p. 70.

 

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1 comentário

De Ricardo Riso a 05.05.2010 às 13:23

Meu caro amigo Manuel,
seu texto sintetizou com excelência e desde já o tornei referencial para mim nessa relação língua portuguesa/crioulo entre a elite intelectual cabo-verdiana da virada do século XIX para o XX. Cito, aqui, um poema de Pedro Cardoso do qual nutro profunda admiração nessa questão da "bi-pátrida", chama-se Algas e Corais: "Nasci na Ilha do Fogo,/ Sou, pois, caboverdeano, / E disso tanto me ufano / Que por nada dera tal. / Ser filho de Cabo Verde, / Assevero – fronte erguida – / Que me é honra a mais subida / Ser neto de Portugal."
No segundo período admiro a interferência de expressões em crioulo na língua portuguesa, o que me faz recordo o conceito de subversão da língua, no qual Roland Barthes menciona em "Aula", como também aprecio o uso do português falado no Brasil explicitado por Jorge Barbosa: "Havia de falar como Você / Com um i no si / – “si faz um favor – / de trocar sempre os pronomes para antes dos verbos / – “mi dá um cigarro!”". Assim como tenho profunda admiração pela maneira como Onésimo Silveira insere as expressões em crioulo nos poemas do livro Saga e da defesa intransigente do ser ilhéu em Kauberdianu Dambará.

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