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Finalmente, ele resolveu pôr-se à prova! Daniel Silves Ferreira, de médico especialista passa, a partir de agora, a também fazer parte do nosso panteão de escritores e a pleitear a sua inscrição na União de Médicos Escritores e Artistas Lusófonos (UMEAL), entre seus pares. Salve!

 

Existem casos de revelação ou de descoberta de talento tardio e Daniel Silves Ferreira parece ser um deles. Feito todo o percurso profissional como médico psiquiatra, envereda-se agora pela escrita e, corajosamente, começa por um romance – considerado o género maior da literatura – cuja narrativa propõe, de certa maneira, um mergulho no mais íntimo das personagens, de um ponto de vista psicológico. Caso para se dizer que a pandemia, tempo em que o livro foi escrito, não desencadeou apenas efeitos nefastos; ela também fez vir à luz talentos insuspeitos e surpreendentes.

 

Não tenho conhecimento de haver outra obra de ficção que retrate tão bem a vivência e os costumes da Praia desse período. Na verdade, ficcionistas naturais da Praia ou com o foco nesta cidade são muito poucos.

 

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Autor e Apresentador

 

O Enredo

 

Silves Ferreira, nesta sua primeira obra de ficção, constrói com maestria a trama da narrativa.

 

O enredo de A Causa de Tobias Seleiro tem início num espaço fora de Cabo Verde, e o tempo é o da pós-independência, eventualmente 1979, numa reunião clandestina do CCPD (Círculos Cabo-verdianos para a Democracia) de jovens universitários, em algum lugar na periferia de Lisboa.

 

A conversa entre pai emigrante e filho estudante universitário na taberna do Senhor Pacheco, é motivo para se recuar e embrenhar nas histórias da terra, evocar Tobias Seleiro e acontecimentos a ele associados. Esses acontecimentos acabam por engendrar o jovem Caco nas questões políticas, sempre conversadas na clandestinidade, em voz baixa. Cite-se, como exemplo, o caso do assalto ao navio Pérola do Oceano, ou a partida do sobrinho/primo para a guerra no Ultramar, depois de uma preparação militar na Metrópole ou, ainda, uma memorável ida de Caco aos Órgãos, que é quando promete escrever a história cujo título seria “A Causa de Tobias Seleiro”.

 

É neste ponto que o autor abre passagem para o personagem-narrador que, por sua vez, começa a condução dos fatos, verossímeis ou tidos como verdadeiros.

 

As personagens são todas gente do povo, gente simples e anónima, sendo que Tobias Seleiro serve de linha condutora de todas as histórias que se entrecruzam, recuando-se aos finais dos anos 60 na Vila Nova, um dos subúrbios di baxo Praia, zona periurbana que faz interface com o interior da ilha. Algumas dessas personagens têm nomes desses lugares – Rui Vaz, João Garrido, João Gotó, Gil Bispo – fazendo-as personagens-tipo, representativas dos homens dessas localidades, e outras, como Eugénio Lima (Praia), João Galego (Boa Vista) e Pedro Vaz (Maio), companheiros na Causa, todos a sentir como se uma corda lhes apertasse o pescoço.

 

A morte – rezas em casa da defunta, a cerimónia fúnebre no cemitério junto à sepultura, as visitas de pêsames – e a primeira visita à sepultura da avó Nhanha Ferreira descrita por Caco, seu neto predilecto, são uma viagem guiada pela geografia paisagística e humana da época do troço Vila Nova (casa da defunta) – Várzea da Companhia (cemitério da cidade) – Vila Nova (casa da defunta). O parto tradicional, o uso das plantas medicinais comoramédis di terrasão registos etnográficos das crenças e das manifestações culturais populares das gentes de Santiago

 

A Causa

 

Tobias Seleiro, “homem maduro, de boa família, muito afamado pela sua arte de confecionar selas, selins e arreios, daí o nome porque era conhecido. Porém, quando se metia na aguardente, tinha dificuldades em parar, tornava-se insolente, agressivo com consequências sempre desastrosas”, “há muito perdera todos os horários”.

 

O internamento compulsivo de Tobias Seleiro no Hospital da Praia para tratamento do alcoolismo, revela os conhecimentos do autor sobre doenças, prescrições médicas, funcionamento do Hospital e da Enfermaria Santa Isabel, ao mesmo tempo que aproveita para pôr em relevo o desempenho profissional e o mérito do Dr. Lisboa, personagem inspirada no médico e gente conhecida de todos aqui presentes, o Dr. João Lisboa Ramos.

 

Naturamente que esse conhecimento do autor também estende-se à Quinta Enfermaria, que se dedicava às pessoas com doenças mentais vindas das ilhas, assim como aos procedimentos, rotinas e práticas médicas ali praticadas, descritos ao pormenor.

 

Estamos nos finais dos anos 60. Olhemos à volta para ver se não há gente mal-intencionada e ouvidos indiscretos. Todo o cuidado é pouco ao falar da Causa. Por menos do que isso Gonçalo Afonso, jovem estudante da Praia, foi sovado violentamente pela PIDE durante uns três dias.

 

O segredo começa a ser desvendado. Um grupo de doze patrícios dedicados à Causa tinham chegado de fora e se instalado nas grutas das montanhas. – “Esses homens são combatentes e estão cá para a independência de Cabo Verde” – uma rocambolesca história da Causa de Tobias Seleiro, na opinião de seu filho Salvador. Caso para o pai ser levado para a Quinta Enfermaria para ser tratado da cabeça, “psicose alcoólica tardia”, segundo o diagnóstico médico.

 

“– O assunto é sério. Mas, ouça uma coisa: e se o Tobias não estiver louco?!”

 

“– Mas, ele parece tão lúcido! O que é que estava mesmo a acontecer sem que as pessoas sequer desconfiassem?!”

 

Corria à boca pequena que “O grupo tinha sido preparado em Cuba durante dois anos, alguns deles passaram depois pela União Soviética e outros pela Argélia, até que Amílcar Cabral decidiu que era a hora. Foi assim que, uma madrugada, treze deles foram desembarcados, numa das muitas enseadas da Ilha de Santiago. Outro grupo de igual número de combatentes iria ser desembarcado em Santo Antão, sempre com a ajuda dos russos, com os seus submarinos que os barcos de guerra portugueses não podiam detetar”.

 

“– Estou cá a pedido do meu filho por causa de uma situação que ele não percebeu. Nem podia perceber. E eu tive que aceitar. |…| É certo que no passado tive problemas com o álcool que me levaram ao internamento na Enfermaria lá em baixo”.

 

Mobilizados alguns conhecidos e amigos, homens e mulheres, para a Causa, Tobias Seleiro monta, com todo o cuidado e muito secretismo, uma reunião do grupo com os “combatentes da Libertação” nas montanhas do Rui Vaz.

 

A expectativa posta no encontro era grande. Finalmente iam conhecer os combatentes da luta para a independência e receber orientações.

 

“|Meus patrícios| – Não se espantem com a sua apresentação, com o seu trajo nem com a sua postura. Eles são o fruto daqui que, hoje, a nossa terra pode dar. Vieram para a libertação e ei-los famintos, porque temos uma terra que, para alimentar os seus filhos, tem de desenterrar cadáveres de animais mortos. Não admirem a sua expressão, a sua mímica e os seus movimentos. Eles vieram para a libertação e aqui os temos escondidos e fugitivos. (…) Não pasmem com os aspectos destes homens, valorosos combatentes da libertação da nossa terra. Eles são o rosto da nossa terra hoje. Uma terra que só oferece desalento e desespero aos seus filhos”.

 

De posse da palavra, o Comandante Pirra dirigiu-se ao grupo:

 

|Camaradas| “–Destas doze semanas aqui passadas levamos a certeza da nossa capacidade de mobilização e da boa aceitação da nossa mensagem de libertação. (…).Por uma razão estratégica, vamos ter de recuar. Vamos voltar à base no exterior. E, vamos voltar, com mais força, com mais determinação”.

 

Desde logo, o encontro serviu para se confrontar a visão que a turma dos “barbudos do Comandante Pirra” trazia e a visão que o Grupo da Causa tinha sobre a independência das ilhas.

 

“–Agora queouviste o que estes companheiros disseram, podes ir, Comandante Pirra. E podem ir os teus doze rapazes. (…). Aqui vai ficar o Mestre Tobias Seleiro. (…). Vão ficar também estes homens e estas mulheres que aqui vês. E são também doze. Doze para a Causa. Estas mulheres e estes homens que aqui deixas, Pirra, são sementes da Causa que vão ser espalhadas por todas as ribeiras, vilas e cidades da nossa terra”. “Quando voltares, Comandante Pirra, os nossos campos e as nossas cidades estarão prontos para a colheita. E a Causa estará ganha. A nossa Causa!”.

 

Considerações Finais

 

Virada a última página do livro, paro para reflectir sobre esses homens e mulheres simples do povo como Tobias Saleiro, António Sapatêr, Rui Vaz, João Garrido, João Gotó, Gil Bispo, Eugénio Lima, João Galego, Pedro Vaz, Beatriz Pereira, Neta Gomes, Simão Ribeiro, Agostinho Alves, que se juntaram à volta da Causa da nossa terra e foram sementes espalhadas por todas as ribeiras, vilas e cidades até se tornarem na massa humana que explodiu no dia da independência a 5 de Julho de 1975.

 

Não muitos anos depois, instalado o poder, a Causa passou a ser outra. Em 1979 – volto ao início da narrativa da reunião clandestina do CCPD em Lisboa – um novo grupo reúne-se na clandestinidade para discutir os ideais da liberdade, afinal, os mesmos ideais dos Doze da Causa:

 

“A nossa Causa pode ser vista como um processo histórico que deve culminar com a construção de um Estado de Direito que assegure as liberdades e as garantias dos cidadãos e respeite os direitos humanos”.

 

A pandemia nos forçou a uma pausa e a por em questão parte desses propósitos. O longo tempo de quarentena deverá ter servido para reflectirmos sobre a Causa que nos motiva, individualmente e enquanto comunidade social e política.

 

Os tempos obscuros que estamos a atravessar, parte pelas sequelas da pandemia, somados às potenciais consequências da guerra na Ucrânia, interpela-nos a divisar a Causa que hoje nos mobiliza à volta da nossa terra.

 

Parabéns ao autor, amigo desde os tempos da Escola Dominical na Igreja do Nazareno, por esta obra e pela catarse feita em forma de texto, escrito durante o período da pandemia, particularmente durante a quarentena no Hospital da Trindade.

 

Manuel Brito-Semedo

 

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