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Brito-Semedo, 19 Ago 25

Imagem gerada pela IA
Há povos que se reconhecem na bandeira, outros no hino. Cabo Verde reconhece-se também no som de uma morna ao entardecer, no batuque que chama a comunidade, no crioulo que cose as histórias. Celebrar cinquenta anos de independência é, pois, mais do que assinalar datas: é reafirmar que a cultura não é apenas memória – é bússola para o futuro.
No ano em que Cabo Verde celebra meio século de independência, impõe-se um balanço que vá além da evocação de marcos históricos e heróis nacionais. A memória é necessária, mas não basta: é preciso associá-la à responsabilidade de pensar o futuro. O desafio cultural cabo-verdiano não é apenas recordar – é reinventar. É definir, de forma clara e corajosa, que país queremos ser, num mundo onde a identidade é, cada vez mais, um processo dinâmico.
A nossa mestiçagem criadora, tecida entre línguas, continentes e modos de vida, não é fragilidade, mas força. É um capital simbólico e social que nos distingue e que deve ser trabalhado como recurso estratégico. Cabo Verde construiu-se superando opressões e reinventando-se continuamente. Fez da dor poesia, da fome engenho, do pouco muito. A morna, o batuque, o crioulo, a cachupa são expressões vivas dessa capacidade transformadora.
A cultura cabo-verdiana não é peça de museu: é matéria viva, pulsante e produtiva. O Relatório do Observatório Cultural de 2022 indica que o sector representa já 7% do emprego urbano jovem e mais de 10% das receitas turísticas. Estes números provam que a cultura é investimento, não ornamento. Investimento que cria oportunidades, diversifica a economia e coloca o arquipélago no mapa global da criatividade.
Por isso, as políticas públicas não podem continuar a tratar a cultura como apêndice orçamental. É urgente integrá-la no centro das prioridades nacionais, com financiamento adequado, mecanismos inovadores e objectivos mensuráveis. As indústrias criativas, o turismo cultural e a profissionalização dos artistas são vias concretas para um desenvolvimento inclusivo. Temos exemplos inspiradores – Festival da Baía das Gatas, Kriol Jazz Festival, Atlantic Music Awards, Kavala Fresk Feastival, Festival Literatura-Mundo do Sal – e artistas que projectam Cabo Verde no mundo, como Cesária Évora, Tito Paris, Lura, Mayra Andrade, Teófilo Chantre, Nancy Vieira ou Carmen Souza. Mas falta consistência nas políticas e apoio estruturado.
Não precisamos de reinventar a roda. Podemos inspirar-nos em experiências de sucesso, adaptando-as à nossa realidade: o artesanato criativo dos Açores, a diplomacia cultural da Martinica, a integração entre turismo e indústrias culturais em Barbados. Trata-se de aprender, não de copiar, e de ajustar estratégias à nossa escala e especificidade.
Urge adoptar acções concretas: Educação patrimonial: introduzir, desde o ensino básico, a história local e a herança cruzada nos currículos, formando jovens conscientes das suas raízes.
– Museus vivos: criar uma rede de espaços dinâmicos em todas as ilhas, que actualizem e projectem as nossas práticas culturais.
– Valorização do crioulo: apoiar sistematicamente a criação artística na língua materna, consolidando a sua dignidade.
– Bilinguismo efectivo: promover o uso equilibrado do português e do crioulo na educação, nos media e na administração.
– Descolonização do olhar: tornar as instituições culturais mais democráticas e representativas de toda a diversidade nacional.
– Política para o livro: investir na leitura pública e na internacionalização da literatura cabo-verdiana como acto de soberania simbólica.
Entre as propostas estratégicas, destaca-se a criação, em São Vicente, do Centro Internacional da Identidade Plural Atlântica. Mais do que um símbolo, este espaço deverá ser motor de diplomacia cultural e plataforma de ligação entre as diásporas e as ilhas. São Vicente, com a sua tradição de encontros e modernidade mestiça desde o século XIX, é o cenário natural para esta iniciativa.
O calendário proposto é claro: aprovar estatuto jurídico e plano estratégico em 2026; abertura provisória com residências artísticas e encontros internacionais em 2027; inauguração oficial, com programação regular e sustentabilidade garantida, em 2030.
A diáspora cabo-verdiana não é fuga nem ferida: é extensão viva da nação. Cabe ao Estado e à sociedade apoiar as suas iniciativas e tecer pontes entre as redes culturais no exterior e as do arquipélago. Esta interligação é fundamental para reforçar a inclusão económica, a coesão social e a promoção da diversidade como valor.
O futuro cultural de Cabo Verde não se decide apenas nas salas de concertos, nos palcos dos festivais ou nas estantes das bibliotecas. Decide-se também nas escolhas políticas, no compromisso de cada cidadão e na forma como olhamos para a nossa herança. É tempo de transformar a nossa criatividade em força estruturante, capaz de gerar desenvolvimento e afirmar a nossa voz no mundo.
Se a mestiçagem criadora é a nossa raiz, que a imaginação seja a nossa asa. E que voemos juntos – governo, artistas e sociedade – para um Cabo Verde que não apenas celebra a sua cultura, mas a vive, a protege e a projecta para o futuro.
– Manuel Brito-Semedo
Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...
Triste com a notícia de um bom amigo que nos deixo...
Gostei muito.Batcha.
Cara Amiga e Colega, obrigado pela leitura atenta ...
Gostei do seu texto. Assertivo, muito simbólico e ...
Cara Amiga, Os grupos de Carnaval de SonCent têm t...