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No final do século XIX, em meio ao crescimento da imprensa lusófona, Cabo Verde viu surgir uma publicação que marcaria a sua história editorial. Em 1901, A Esperança nasceu como um desdobramento do Almanach Luso-Africano, consolidando-se como um espaço essencial para a difusão do pensamento africano e lusófono. Mais do que um simples periódico, tornou-se uma ferramenta fundamental para a promoção do conhecimento e da cultura, abrindo caminho para escritores, intelectuais e educadores do arquipélago e do mundo lusófono.

 

O Almanach Luso-Africano, publicado em 1895 e 1899, foi idealizado pelo cónego cabo-verdiano António Manuel da Costa Teixeira, figura central na educação e imprensa do país. Defensor do ensino bilíngue e da valorização da língua crioula, via na imprensa um veículo de formação e emancipação. O almanaque procurava complementar as publicações existentes e oferecer uma plataforma para autores africanos que, de outra forma, não teriam os seus textos publicados. Paralelamente, Costa Teixeira incentivava a formação académica por meio da Associação Escolar "Esperança", fundada em 1894, reforçando o seu compromisso com a difusão do conhecimento.

 

O êxito da edição de 1899 do Almanach Luso-Africano levou à criação de um suplemento literário independente: A Esperança – Revista Colonial, Popular, Encyclopédica. Sob a direcção de Costa Teixeira e do cónego Oliveira Bouças, a revista estabeleceu redacções em São Nicolau e em Braga, Portugal. Esta estrutura visava ampliar o seu alcance e atingir um público diversificado, respondendo ao crescente interesse por conteúdos literários e científicos. Publicada mensalmente ao longo de 1901, A Esperança tornou-se a primeira revista literária de Cabo Verde, destacando-se pela variedade de temas e pelo compromisso com a democratização do conhecimento.

 

Os artigos publicados incluíam materiais originalmente enviados ao Almanach Luso-Africano, além de novos textos de escritores e intelectuais. A revista abordava literatura, história, ciência, pedagogia e política, reflectindo os debates culturais e sociais da época. O seu público-alvo ia além dos leitores cabo-verdianos, alcançando jovens coloniais e professores brasileiros e portugueses, que viam na publicação uma forma acessível de acompanhar as discussões literárias e científicas.

 

No início do século XX, a imprensa desempenhava um papel crucial na circulação de ideias e na construção de identidades culturais nos territórios africanos de língua portuguesa. A Esperança acompanhava essa tendência, tornando-se um elo entre as colónias e a metrópole. Esse período foi marcado por debates sobre educação, cultura e identidade, e a revista destacou-se como um espaço de reflexão e intercâmbio intelectual.

 

O impacto de A Esperança ultrapassou o seu tempo, consolidando-se como um marco na história da imprensa cabo-verdiana. O seu legado continua vivo, sendo frequentemente lembrado como um símbolo da vitalidade intelectual do país no início do século XX. Resgatar a sua trajectória reafirma o valor da literatura, do conhecimento e da imprensa na construção de uma sociedade mais informada e crítica.

 

Manuel Brito-Semedo

 

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