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Brito-Semedo, 28 Nov 25

Em Cabo Verde, os manuais de História ensinam o passado, mas ainda hesitam em ensinar a pertença. Entre a lousa e o Atlântico, a identidade crioula espera um novo lugar na narrativa escolar.
O ensino da História em Cabo Verde, tal como espelhado nos manuais do 8.º e 9.º anos, editados pela Porto Editora (2020 e 2023) e recomendados pelo Ministério da Educação, continua a revelar uma dissonância entre o discurso pedagógico e a prática didáctica. O manual do 8.º ano define a História como “a ciência que estuda a vida dos seres humanos no tempo e no espaço” – uma frase correcta, mas neutra, desprovida de chão. O aluno aprende o que é a História, mas não quem nela habita.
O programa introduz civilizações antigas, cronologias e fontes, mas Cabo Verde surge apenas em notas de rodapé: uma fotografia das salinas, uma rua do Mindelo, uma vista de Ribeira Grande. O país está presente, mas não é protagonista. O resultado é uma aprendizagem descentrada, em que o estudante cabo-verdiano decora nomes e datas sem se reconhecer na narrativa.
Já o manual do 9.º ano procura alargar o horizonte, incluindo a História Universal, Africana e de Cabo Verde. É um avanço visível – contudo, o enquadramento mantém-se exterior: o arquipélago é uma escala do Atlântico, não um porto de partida. A História é vista, não vivida.
Convém, contudo, fazer uma ressalva.
É justo reconhecer que a História figura oficialmente no sistema educativo de Cabo Verde, com um manual próprio para o 9.º ano e com previsão de continuidade nos anos seguintes. Porém, essa presença é desigual: depende da via ou do curso frequentado. Assim, a formação histórica de muitos jovens termina, na prática, aos 14 ou 15 anos – precisamente quando o pensamento crítico mais precisaria de raízes e de memória.
A leitura dos manuais confirma a persistência de uma matriz eurocêntrica, mesmo sob uma capa africanizada. O tempo histórico continua a medir-se pela era cristã; a Idade Média é “o nascimento da Europa”; o “achamento” das ilhas repete a velha gramática do descobrimento. Cabo Verde é abordado como efeito – da expansão portuguesa, do tráfico de escravos, do colonialismo – e não como causa, motor ou sujeito histórico.
As páginas dedicadas ao sistema escravocrata moderno ou ao despertar nacionalista africano abrem espaço para Amílcar Cabral e as independências, mas a narrativa é descritiva, quase catequética. O sofrimento, a resistência e a crioulização são tratados como dados, não como processos. Fala-se de “sistema”, mas não de ferida; de “autodeterminação”, mas não de consciência.
Em suma, a História escolar de Cabo Verde é ainda contada em voz passiva. O aluno lê que “foi instituído o sistema escravocrata” ou que “as ilhas foram povoadas”, mas raramente encontra o verbo agir. A passividade gramatical torna-se passividade cívica.
Falta, aos manuais, uma dimensão de pertença e de crítica. Ensina-se o passado, mas não se forma o olhar histórico. As resistências locais, as histórias das ilhas, o papel das mulheres, as travessias da diáspora – tudo isso está ausente ou reduzido a ilustrações. A História ensinada continua a ser uma narrativa de legitimação, e não de compreensão.
Repensar o ensino da História implica uma viragem epistemológica: ensinar a ver o mundo a partir de Cabo Verde, e não apenas Cabo Verde a partir do mundo. Isso exige metodologias participativas – trabalho de campo, histórias orais, estudo do património – e uma integração consciente da crioulidade como categoria de análise histórica.
A História é, ou deveria ser, o lugar onde uma nação se reconhece no tempo. Enquanto o manual continuar a ensinar o país de fora, o aluno continuará a ver-se como espectador e não como herdeiro.
É tempo de ensinar Cabo Verde como quem regressa a casa: de dentro para fora.
N.A. – Este é o post nº 2.415
– Manuel Brito-Semedo
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