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A República Suplente

Brito-Semedo, 23 Ago 25

 

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Foto Facebook José Maria Pereira Neves

 

 

Na segunda-feira, 18 de Agosto, o Presidente da República resolveu trocar o Palácio por um post de Facebook. Depois da tragédia que assolou São Vicente, esperava-se um gesto de Estado. O palco escolhido não foi a ONU, nem a CPLP, nem sequer a CEDEAO. Nada disso. O espectáculo deu-se em Lisboa, em plena Liga de Futebol, com direito a claques e cachecóis. Convocaram-se fundações e clubes portugueses como se fossem ministérios da salvação: Estrela da Amadora, Benfica, Sporting, Académica… até as fundações das chuteiras e dos balneários desfilam agora como se fossem organismos internacionais.

 

São Vicente, a “ilha mundo”, acabou transformada em relvado de caridade, quando merecia ser palco de soberania. E a República, reduzida a suplente, espera no banco o golo salvador, aplaudida por um estádio cheio, como se a dignidade de uma nação coubesse numa selfie com jogadores. Um Chefe de Estado que pede ajuda a clubes de futebol para acudir às dores da sua própria ilha já não é sinal de grandeza – é caricatura de soberania.

 

Entre ministros que se calam e presidentes que se encantam, o Estado troca a diplomacia pelo grito de bancada, a honra pelo flash das câmaras, o sentido de governo pelo aplauso fácil das arquibancadas. Assim se substitui a noção de República pela pantomina do improviso.

 

Porque não é a Liga de Futebol, nem as fundações de clubes que seguram Cabo Verde. O que sustenta a República é governar de pé, com firmeza, sem depender do barulho de estádio. Uma República não se joga aos penáltis – governa-se com dignidade.

 

 

N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.

 

 

Manuel Brito-Semedo

 

 

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