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A rapaziada de São Vicente d’outrora, anos 30, 40 e 50, tinha o desporto (golf, cricket, ténis e, sobretudo, futebol, o mais popular) como o seu principal hobby e sua actividade girava à volta da baía, como ship-chandler ou negociante de bordo.

 

Falar ou discutir política na época era coisa proibida porque tida como ser-se “contra a nação”. Designar alguém de político queria significar que era contestatário, gostava de discutir ou de problematizar as questões.

 

Já a geração dos anos 60 e 70 ocupava o seu tempo livre com ginástica desportiva, futebol e política, inicialmente clandestina e de conspiração para a luta para a independência das ilhas e, nos anos de 1974/75, de mobilização para o partido e para a independência, seguindo-se as disputas à volta das correntes políticas da esquerda, Marxismo, Leninismo, Trotskismo e Maoismo.

 

Os Alfredo (avô e neto), ‘Dufega’, corruptela em crioulo, situam-se nesses dois polos.

 

Mindelo d’ótrora – Desporto e Baía

 

Alfredo ‘Dufega’, Avô, foi futebolista do Clube Sportivo Mindelense, campeão na época 1938/39, tendo como companheiros de equipa Mário Morbey, Many’Strela, Many Sena, Tchesse, Djô Figuêra, Adérito Sena, Licério, Aires Sena e Teje.

 

Dufega foi motivo de muitas piadas por causa das suas frases bombásticas como “o que tem a Cuptania a ver com a praia de bote?” ou “Liza (Manobra) ratcha ô fatiga, tudo ê ratcha”).

 

Nicolau de Pinga, Pai, foi jogador do Clube Sportivo Mindelense, campeão na época 1951/52, tendo como colegas de formação Tola, Blada, Cirico Custódio, Eduardo Fula, Funha, Tambrinha, Lela de Raúl, Tatoche, Tiata de Nhô Rufino e João Coronel. Posteriormente, Nicolau de Pinga, foi treinador do Derby. O seu modo de vida foi ser negociante de bordo.

 

Mindelo anos 60/70 – Desporto e Política

 

Alfredo ‘Dufega’ Nicolau Machado (São Vicente, Agosto de 1945 – 03 de Junho de 2024), Neto, enveredou-se, naturalmente, como bom mocin de Soncent, pelo futebol, não na equipa de paixão do avô e pai, o Clube Sportivo Mindelense, mas na equipa do Grémio Desportivo Amarante, “onde tinha melhores condições de singrar”, segundo o seu colega Lalela, na altura jogador do Grémio Sportivo Castilho.

 

A grande paixão, contudo, do Dufega, era, sem dúvida, a política. Figura incontornável da Rua de Lisboa, era frequentador assíduo dos seus cafés, sempre com um livro debaixo do braço e a discutir política. Esta é a imagem que me ficou do Dufega todas as vezes que ia a Mindelo.

 

Dufega era “um dedicado ativista e animador cultural nos anos 74/75, que contribuiu para divulgar as canções revolucionárias que mobilizaram a juventude para as memoráveis jornadas pela independência”, escreveu Luís Fonseca, então responsável do Partido em São Vicente, na sua página do Facebook.

 

 

Em 1979, em rotura com o PAIGC, foi acusado de ser fraccionista e preso. Foi, entretanto, libertado sem qualquer julgamento. Na sequência, Dufega refugiou-se em Portugal, só voltando a Cabo Verde, com o fim do regime de Partido único, depois de 1991.

 

Dufega vivia com muitas dificuldades, chegando a ser suportado financeiramente por amigos, inclusivamente, a sua deslocação e estadia na Praia para exames médicos, antes de ser evacuado para Lisboa, onde viria a falecer, foi feita nesta base.

 

Por causa disso, Dufega foi aconselhado a pedir o estatuto de Combatente da Liberdade da Pátria de modo a poder beneficiar dos direitos de assistência médica e medicamentosa, gratuita, e pensão de reforma, ao que sempre recusou dizendo que só faria isso se antes tivesse um pedido de desculpas por parte do PAICV.

 

Dufega, Comentador político

 

Dufega Machado era um habitual comentador político na Rádio Morabeza com posições firmes e acutilantes. Regionalização, atribuição de pensão às vítimas de tortura do partido único, paridade e privatizações foram alguns dos temas políticos analisados por ele em 2019.

 

Na sua nota de pesar pela morte de Alfredo Machado, a Rádio Morabeza refere que “Dufega integrou várias vezes o painel de comentadores nas noites eleitorais da rádio, além de outras participações pontuais na nossa programação. Acutilante, extraordinariamente culto e sempre disponível. Assim será recordado”.

 

Pela sua pertinência, reproduzimos uma entrevista dada por Alfredo Dufega Machado à Rosário da Luz, Jornal Expresso das Ilhas (5.Maio.2014), sobre “O 25 de Abril em Cabo Verde”:

 

Diz-me que a partir da formação do Governo de Transição, a história passou a ser escrita pela mesma cartilha. Gostaria que me falasse do período entre 25 de Abril e Dezembro de 1974, ou seja, depois do 25 de Abril mas ainda antes da formação do Governo de Transição: como é que foi negociado esse poder de escrever a história, de entre todas as dinâmicas presente no momento?

Naquela altura, qualquer indivíduo que tentasse ter uma leitura diferente era rotulado de reacionário, traidor. O termo mais duro que existia no partido era o termo “trotskista”, que é o inimigo interno, o que está infiltrado. E assim, quem podia realmente ter uma posição com credibilidade eram os indivíduos que estiveram muito tempo na luta, desde a década de 1960.

 

Mas vê-se que os combatentes do PAIGC encarnavam as necessidades narrativas da sociedade Cabo-verdiana em torno da sua própria Independência. Como galvanizaram a população?

Mas quem galvanizou de facto a maioria foram os indivíduos da luta clandestina em Cabo Verde, não foram eles. Nós é que oferecemos de bandeja essa movimentação. Ela não começou com vivas ao PAIGC, mas ao Spínola, às Forças armadas e ao Dr. Baltasar.

 

A existência do Porto Grande e a emigração para o Norte da Europa resultaram num acesso privilegiado à informação pela população de São Vicente?

O impulso da Independência de Cabo Verde veio de São Vicente: com os estudantes do Liceu; com os recrutas do Morro Branco a negar jurar a bandeira Portuguesa; com uma dinâmica que existia de facto aqui, porque havia um trabalho feito que fez com que as pessoas aderissem mais rapidamente. Depois o contacto que tínhamos com o Porto Grande de São Vicente: havia barcos de nacionalidade diferente, havia revistas a circular. Podemos dizer que em São Vicente a grande influência foi o Porto Grande, que permitiu que tivéssemos contacto com nacionalidades diferentes. Os barcos deixavam cá tudo e mais alguma coisa. Nós, durante muito tempo cá em Cabo Verde, nem uma biblioteca em condições tínhamos. Havia uma biblioteca que era da Câmara, mas qualquer um sabe que tanto no regime colonial como no de partido único, havia livros que não se podia ter.

 

Qual era o contacto entre São Vicente e Praia a nível dessas dinâmicas?

Era muito reduzido. Tinha contacto com indivíduos de Santiago e do Fogo que vinham passar férias, sobretudo de Portugal; e conheci jovens na altura – o grupo ligado ao Eurico Monteiro, ao Daniel Lobo e outros – já interessados pela Independência de Cabo Verde.

 

Dezembro de 1974: é constituído o Governo de Transição, já com o PAIGC inequivocamente à frente do processo de Independência. Como é que as coisas se passam?

Foi assinado que deveriam ter lugar eleições livres. E não é por acaso que o PAIGC enviou dois elementos da luta clandestina para o Governo de Transição e com a chegada do Aristides Pereira em Fevereiro é que as coisas começaram a complicar-se, quando ele começou a abordar a pequena burguesia Cabo-verdiana – porque o Pedro Pires não era homem para isso. Começou com tocatinas, com a chamada de pessoas influentes para ir à casa dele, a tentar pedir desculpas pelas atitudes que esse grupinho radical e clandestino teve. Só que sem esse grupinho era impossível a Independência de Cabo Verde; esse grupo foi determinante para a Independência de Cabo Verde. Mas, porquê tentar suavizar? Porque a partir da altura em que um indivíduo se está a aproximar do poder, agora é tentar controlar a sociedade; é tentar eliminar aqueles a quem chamam extremistas, porque senão esse extremismo vai tocar-lhes. A sociedade começa a ser pacificada, com vista na garantia do poder sem complicações pelos nossos governantes. Independentemente do o Acordo dizer que deveria haver eleições livres. E até aí posso dizer que, como actor, eu estou de acordo. Como analista, eu acho que o processo foi mal conduzido. Primeiro, foi muito cedo a Independência de Cabo Verde; deveria levar mais tempo a esclarecer um povo que nunca ouviu falar de política. A consciência era muito reduzida; agora, que havia um sentimento de descontentamento, isso havia. E com esse sentimento de descontentamento, houve uma exploração por parte dos indivíduos da luta clandestina.

 

Manuel Brito-Semedo

 

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