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Cabo Verde nos 500 anos de Camões

Brito-Semedo, 30 Nov 25

 

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Em 1898, um cónego de Santo Antão traduziu Os Lusíadas para crioulo. Um gesto discreto que mostra como as ilhas se reconheceram dentro da epopeia.

 

Em 2025 assinala-se o V Centenário das Comemorações do Nascimento de Luís de Camões. Por todo o mundo lusófono multiplicam-se homenagens. Mas há um episódio pouco conhecido que merece ser lembrado a partir de Cabo Verde: em 1898, o cónego António da Costa Teixeira, natural de Santo Antão, traduziu para crioulo as estâncias VIII e IX do Canto V de Os Lusíadas. Publicado como Chegada às Ilhas de Cabo-Verde, elevava o crioulo a estatuto literário num tempo em que tal ousadia era rara.

 

O gesto tem uma força simbólica que vai além da tradução. Camões descrevia a chegada das naus às ilhas, chamando-lhes “filhas do velho Hespério”. Ao ver-se vertido em crioulo, o épico deixava de ser apenas herança colonial para se tornar também matéria de pertença. Cabo Verde inscrevia-se, pela mão de um dos seus filhos, no poema maior da língua portuguesa.

 

Camões escreveu:

 

“Àquela ilha aportámos que tomou / o nome do guerreiro Sant’Iago...”

 

E o cónego verteu em crioulo de Santo Antão:

 

“Nòs antrá na pôrte d’un d’aquês îa, / Q’tmá nôme d’aquêll guerrente’Sam Thiágue...”

 

A sonoridade crioula transporta a epopeia para outra cadência: o Atlântico a falar por si, com a oralidade das ilhas e o ritmo de uma língua nascida do encontro de povos.

 

O cónego Teixeira não foi caso isolado. Em 1893, Eugénio Tavares, da Brava, traduzira para crioulo as Endechas a Bárbara Escrava. Em menos de uma década, dois autores cabo-verdianos, em ilhas diferentes, voltaram-se para o mesmo gesto cultural: traduzir Camões e afirmar a legitimidade literária da língua herdada dos seus pais e avós.

 

Essas traduções foram exemplos precoces de uma escrita próxima da ortografia portuguesa, mas onde o crioulo se ergue. Revelam a ousadia de escritores que, muito antes da independência, ousaram dar-lhe estatuto literário. Eram ensaios de dignificação cultural, provando que o crioulo podia ser veículo de poesia e pensamento.

 

Recordo uma cena em São Vicente: um pintor retratou uma figura popular e, no dia da exposição, o próprio retratado apareceu a reivindicar o quadro – “esse sou eu!”. Assim também Cabo Verde perante Camões: ao ouvir-se no Canto V, reconheceu-se no poema e nele reclamou o seu lugar.

 

Celebrar Camões a partir de Cabo Verde é celebrar uma apropriação criativa. Não é só homenagear o poeta português, é lembrar que a literatura, para ser viva, precisa de ser recriada. O crioulo, tantas vezes marginalizado, encontrou nesse gesto uma consagração antecipada.

 

Cinco séculos depois, o que fica não é apenas a glória marítima de Os Lusíadas, mas a prova de que as ilhas souberam ler-se dentro do poema maior da língua portuguesa. Quando o cónego de Santo Antão traduziu Camões, não fez apenas literatura: fez pertença.

 

Nos 500 anos de Camões, Cabo Verde lembra-nos que a língua não é só herança, é também criação. Camões ganha crioulo, e o crioulo ganha Camões.

 

 

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