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Encontradas sem populações autóctones em 1460, as ilhas de Santiago e Fogo começaram a ser povoadas por europeus e africanos em 1462. No século XVI estendeu-se à ilha do Maio. Na segunda metade do século XVII, já com filhos-da-terra e gentes-de-fora vindas de Portugal, as ilhas montanhosas e agrícolas de Santo Antão, São Nicolau e Brava avançaram no mesmo caminho. Seguiram-se a ilha portuária de São Vicente, povoada no final do século XVIII, bem como as ilhas da Boa Vista e Santa Luzia. A ilha do Sal completou o ciclo em inícios do século XIX.

 

Um processo de povoamento das ilhas com migração e circulação geográfica que durou cerca de quatro séculos ao longo do qual se juntaram e amalgamaram gentes-de-fora e gentes-das-ilhas, misturando sangues, sotaques, costumes, hábitos e crenças fazendo das ilhas uma sociedade e uma nação crioulas, cosmopolita e aberta ao mundo.

 

Cabo Verde, como sociedade crioula, possui características particulares que o destacam dentro do contexto dos países falantes da língua portuguesa. A singularidade da nação cabo-verdiana reside na sua formação histórica, cultural e social, que a diferencia de outros países de língua oficial portuguesa. Este texto explora essas características únicas através de seis aspectos principais: História e Formação Social, Cultura Crioula, Língua e Comunicação, Geografia e Sustentabilidade, Comunidades na Emigração e Relações com Outros Países Lusófonos.

 

  1. História e Formação Social

 

Cabo Verde foi descoberto e colonizado pelos portugueses do século XV, tornando-se um ponto estratégico no comércio transatlântico de escravos. Esta história de colonização e migração forçada resultou na criação de uma sociedade multicultural e mestiça. A fusão de influências europeias e africanas deu origem a uma identidade crioula distinta. As ilhas, inicialmente desabitadas, tornaram-se um caldeirão de etnias e culturas, à medida que escravos africanos eram trazidos e misturados com colonizadores portugueses. Este processo resultou numa população mestiça, onde as tradições e influências de ambas as culturas se mesclaram, criando uma sociedade única no mundo lusófono.

 

  1. Cultura Crioula

 

A cultura crioula de Cabo Verde é um dos aspectos mais marcantes de sua particularidade. A música – a morna, o batuku, o finaçon e a coladeira – desempenha um papel crucial na expressão da identidade cabo-verdiana. Cesária Évora, conhecida como a "Diva dos Pés Descalços", é um exemplo de como a música de Cabo Verde ganhou reconhecimento internacional, trazendo à tona a singularidade cultural do arquipélago. Além da música, a literatura cabo-verdiana, com figuras como Baltasar Lopes da Silva, Teixeira de Sousa, João Vário ou Arménio Vieira, e a culinária, que combina ingredientes e técnicas africanas e portuguesas, também são expressões vibrantes da cultura crioula.

 

  1. Língua e Comunicação

 

O crioulo cabo-verdiano é uma língua falada por todos no país, coexistindo com o português, que é a língua oficial. Esta situação linguística não é comum em muitos países lusófonos, onde o português tende a ser a língua predominante. O Crioulo ou o Cabo-verdiano, com suas variações regionais, reflecte a mistura de influências linguísticas e culturais que caracterizam a nação. Em Cabo Verde, o crioulo não é apenas um meio de comunicação, mas também um símbolo de identidade cultural. A convivência harmoniosa entre o crioulo e o português mostra a capacidade de adaptação e integração cultural dos cabo-verdianos.

 

  1. Geografia e Sustentabilidade

 

A geografia de Cabo Verde, um arquipélago constituído por dez ilhas vulcânicas no Atlântico, influenciou significativamente o modo de vida de seus habitantes. As condições climáticas áridas e os recursos limitados fizeram com que a população desenvolvesse práticas sustentáveis e inovadoras para sobreviver. A gestão dos recursos hídricos e a utilização de energia renovável são exemplos de como Cabo Verde tem abordado desafios ambientais de maneira única. A agricultura em terraços, a captação de água da chuva e os projectos de energia solar e eólica são práticas comuns que demonstram a resiliência e a criatividade da população cabo-verdiana em enfrentar as adversidades climáticas e geográficas.

 

  1. Comunidades na Emigração

 

A emigração cabo-verdiana desempenha um papel fundamental na formação da identidade nacional. A significativa população cabo-verdiana que vive no exterior, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, mantém fortes laços culturais e económicos com o arquipélago. Este fenómeno da emigração é uma característica particular de Cabo Verde, que influencia tanto a economia quanto a cultura do país. As remessas enviadas pelos emigrantes são uma importante fonte de renda para muitas famílias e contribuem significativamente para a economia nacional. Em 2023 Cabo Verde recebeu em remessas 28.685,01 milhões de CVE, representando 12 por cento do PIB (Fonte: Banco de Cabo Verde). Além disso, a emigração cabo-verdiana ajuda a promover a cultura e a identidade do país no exterior, criando uma rede global de cabo-verdianos que mantêm viva a ligação com a sua terra natal.

 

  1. Relações com Outros Países Lusófonos

 

Embora compartilhe a língua portuguesa com outros países lusófonos, Cabo Verde mantém uma identidade distinta dentro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A sua condição insular e a ausência de fronteiras terrestres com outros países lusófonos contribuem para uma experiência de interações culturais e diplomáticas que é diferente de outros membros da CPLP. Cabo Verde tem utilizado sua posição única para promover a cooperação e o diálogo entre os países lusófonos, enquanto preserva e celebra sua própria identidade cultural e histórica.

 

Conclusão

 

A particularidade de Cabo Verde dentro do contexto dos países falantes da língua portuguesa é uma consequência directa de sua história singular, cultura crioula rica, situação linguística única, adaptações geográficas inovadoras e fortes conexões com a sua comunidade emigrada. Esta combinação de factores faz de Cabo Verde um exemplo de como uma sociedade pode desenvolver uma identidade distinta e resiliente, mantendo-se conectada ao mundo de língua portuguesa de maneira especial e significativa. A singularidade de Cabo Verde é um testemunho da sua capacidade de se adaptar e prosperar, enquanto celebra sua rica herança cultural e histórica.

 

Fonte: BRITO-SEMEDO, Manuel, Cabo Verde: Ilhas Crioulas – Da Cidade-Porto ao Porto-Cidade (Sé. XV-XIX). Lisboa/Praia: Rosa de Porcelana Editora, 2024 (1.ª Edição 2023).

 

Manuel Brito-Semedo

 

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