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Cize, A Diva dos Pés Descalços

Brito-Semedo, 17 Dez 20

 

Capa Cesária Évora.jpg

O livro Cesária Évora é uma das mais importantes biografias feitas sobre a diva maior da música cabo-verdiana, falecida a 17 de Dezembro de 2011. A sua leitura permitirá conhecer Cesária Évora para além das luzes da ribalta, nos bastidores, no dia-a-dia e na intimidade, uma preciosa contribuição da crítica genética sobre esta grande artista”.

 

A Rosa de Porcelana Editora acaba de publicar o livro Cesária Évora de Elżbieta Sieradzińska, editado inicialmente em polaco em 2015. A tradução é de Włodzimierz J. Szymaniak, coadjuvado por Manuel Brito-Semedo. Segue um extracto em jeito de pré-publicação.

 

DIA ÚLTIMO

– Senhora, senhora!

Uma mão húmida de suor toca suavemente a minha cabeça.

– Senhora, não deve ficar assim.

Levanto o meu olhar. O homem já não é jovem, mas aqui a primeira impressão pode enganar; cabelo curto, encaracolado, um boné meio sujo e um fato-de-macaco aberto no pescoço com uma inscrição esbranquiçada “Câmara Municipal”.

– O meio-dia está quase a chegar, o sol é forte, e a senhora está sentada aqui sem proteção.

O meu mutismo visivelmente o incomoda. Acha que não entendo o que está a dizer. Levanta o dedo indicador em direção ao céu, depois abre a mão em jeito de paraquedas e deixa cair sobre a cabeça.

– O sol! – Repete. – Sol faz mal. Cabeça.

– Sim, eu sei, conheço bem o vosso sol. Não me faz mal, mas agradeço sinceramente.

– A senhora fala crioulo. – É mais uma constatação que uma pergunta e a voz do homem não indica nem curiosidade nem admiração, antes uma nota de compaixão.

– Falo, ou esforço-me por falar. O meu olhar foge. Cai um silêncio embaraçador que não me atrevo a interromper.

– Amiga? – O homem não desiste e vira-se em direção ao jazigo branco e baixo.

– Sim, amiga, mas sinceramente… o senhor provavelmente não vai entender…

– Entendo, sim, senhora…

Acena com a cabeça olhando algures por cima da minha cabeça para paisagem estranha formada por retângulos de casas cinzentas, dos subúrbios longínquos do Mindelo. A paisagem assemelha-se à uma aquarela não acabada com esboço feito a lápis. O quadro vibra no ar quente de julho.

– Lembro-me da senhora – continua. – Veio aqui há dois anos, imediatamente após o enterro, e no ano passado também.

– Agora vim para escrever um livro sobre ela.

– Em português?

– Não – sorrio – em polaco.

– Então, não vou poder ler. Mas tá dret. A nossa Cize merece. Já está quase o meio-dia, a senhora vai ou não vai embora?

– Vou ficar mais um pouco.

O homem coloca o boné para trás da cabeça, mexe com os dedos no cabelo crespo e afinal puxa o boné mais para a testa. Debruça-se outra vez sobre mim para tocar suavemente no meu ombro.

– Compreendo, mas não demore muito tempo porque pode adoecer. Tchau.

O sol implacável, uma bola ardente e de contornos diluídos como nos quadros de Van Gogh, está muito alto.

“ – E se um dia tiver de partir? – Perguntou Christopher apertando a mão do ursinho.

– Não é nada grave – respondeu o ursinho… – Vou ficar aqui à tua espera.” (pp. 408-409).

______

 

O funcionário da Câmara Municipal de São Vicente – Em português? – Não – sorrio – em polaco. Então, não vou poder ler. Mas tá dret. A nossa Cize merece. – e tantos outros admiradores da nossa Cize, já podem ler o livro Cesária Évora em Português e, eventualmente, mais tarde, em francês e em inglês.

 

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