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29.Abril.1974 - Manifestação dos estudantes do Liceu Gil Eanes

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1.º de Maio - Doutor Baltasar Lopes levado ao ombro pela população

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1.º de Maio - Doutor Baltasar Lopes discursando na varanda da Câmara Municipal de São Vicente


Durante seis semanas – de 01.Abril a 06.Maio – o jornalista radiofónico Carlos Santos, da Rádio de Cabo Verde, realizou o programa CAFÉ CENTRAL com o tema especial "Conversas de Abril". Foram seus convidados Jorge Carlos Fonseca, ex-Presidente da República; Fernando Carrilho, Jornalista radiofónico aposentado; Manuel Faustino, antigo Ministro do PAIGC e do MpD; João Pereira Silva, combatente do PAIGC e antigo Ministro; Eurico Monteiro, preso político e Embaixador de Cabo Verde em Portugal; e Manuel Brito-Semedo, Antropólogo e docente universitário. É esta última conversa que aqui se reproduz.

 

Carlos Santos – Terminamos hoje (6 de Maio) a série de conversas sobre o 25 de abril de 1974. A nossa meta era ir até, pelo menos, à próxima semana mas um dos nossos convidados, o Engenheiro Jorge Querido, ontem declinou o convite por motivos de força maior, o que nos obriga a antecipar a conclusão deste ciclo de reflexões e de resgate de memórias sobre a revolução do cravos e os seus efeitos no processo de independência de Cabo Verde e desenvolvimentos políticos subsequentes que se registaram nestas ilhas até 5 de Julho de 1975.

 

A ideia foi também perceber como é que foi vivido esse importante marco histórico nestas ilhas.

 

O nosso convidado é Manuel Brito-Semedo, natural de São Vicente onde nasceu em 1952. É doutorado em Antropologia, especialidade de Etnologia, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Foi Diretor Executivo do IILP, Instituto internacional de Língua Portuguesa, entre 2004 e 2006, é autor de várias obras literárias, sobretudo ensaios. O mais recente livro, lançado no ano passado, intitula-se Cabo Verde: Ilhas Criolas – Da Cidade-Porto ao Porto-Cidade (séculos XV-XIX), uma obra que deu muito que falar. Digamos que reabriu o debate em torno da identidade dos homens e mulheres destas Ilhas.

 

Quando se dá o 25 de Abril de 74 Manuel Brito-Semedo tinha apenas 22 anos, era estudante do Seminário Nazareno, na Ilha de São Vicente. Num texto publicado na semana passada no seminário “Expresso das ilhas”, Brito-Semedo afirma que o 25 de Abril nunca aconteceu nestas Ilhas, foi uma fraude. Brito-Semedo, terá sido mesmo uma fraude? É a sua perceção, é a sua leitura da História?

 

Brito-Semedo – Antes de mais, como pretendemos fechar essas conversas falando sobre o dia 1º de Maio, queria fazer uma homenagem a todos os presos políticos que passaram pelo Campo de Trabalho do Chão Bom, em desses, fazer um reconhecimento e uma homenagem especial ao meu professor primário James Schofield, que faleceu no passado dia 02 de Maio.

 

Volto ao tema em pauta para, com pormenores e argumentos, explicar que o 25 de Abril, que em Portugal abriu a possibilidade de haver os três “DDD” – Descolonização, Democracia e Desenvolvimento – não aconteceu em Cabo Verde. As Forças Armadas Portuguesas, o Movimento das Forças Armadas, juntamente com o PAIGC, cujos militares tinha a mesma orientação ideológica de esquerda, bloquearam esse processo. Houve muita eforia, um descontrole até, mesmo do uso da Liberdade, que, logo a seguir foi capturado porque havia um projecto de poder.

 

Esse 25 de Abril que devia ser de liberdade, que libertou de facto Portugal para se desenvolver, depois daquela fase conturbada em termos da democracia e que levou ao desenvolvimento, não aconteceu em Cabo Verde. Só veio a acontecer em Cabo Verde 15 anos depois. O que é que surgiu nesse ínterim? Chegada a notícia a Cabo Verde, logo no dia seguinte houve manifestações de estudantes do Liceu que desfilaram pelas ruas da morada indo até à Escola Técnica. Convém dizer que havia muito pouca gente que era do Partido Africano para Independência da Guiné e Cabo Verde. O que houve foi uma mobilização em torno da Independência. Essa era a aspiração máxima e, na verdade, não havia gente contra a independência, o que havia em São Vicente era a forma de como aceder à Independência, que foi questionar o PAIGC que, com o seu projecto de poder, bloqueou essa possibilidade. Em conivência com as Forças Armadas, o PAIGC calou e prendeu gente ligada aos partidos que surgiram em  São Vicente, a UDC, e também em Santiago e no Fogo, a UPICV.

 

Carlos Santos – Neste contexto, no pós 25 de Abril há três correntes ou, se quisermos há três visões sobre o futuro imediato de Cabo Verde uma visão esposada pelo PAIGC que preconizava a independência e a unidade Guiné-Cabo Verde; a UPICCV, a União do Povo Independente de Cabo Verde, que defendia a independência, mas era contra o projeto da unidade Guiné-Cabo Verde; e a UDC, a União Democrática de Cabo Verde, que defendia o princípio da autonomia e da autodeterminação e o projecto federalista.  Portanto, não sei se desse lugar de fala de São Vicente onde testemunha os acontecimentos, se tem uma ideia do grau de implementação dos poderes das forças políticas no terreno.

 

Brito-Semedo – Eu estava no círculo da Igreja do Nazareno e havia gente que tinha chegado de fora, inclusivamente que tinha sido militar em Angola. Houve uma dinâmica muito grande, organizou-se um comitê do Partido de crentes da igreja, que iam de súmbia mas que, ao chegar à entrada, tiravam. Criou-se um ambiente de medo e de atemorização. Primeiro foi a ideia de que os missionários, que eram americanos, eram agentes da CIA; segundo, o receio do que vinha aí. Por exemplo, chegou-se a dizer que, como não havia um espaço amplo, um auditório, em São Vicente, ia-se tomar a Igreja do Nazareno, que poderia servir como Assembleia Nacional. Era esse o ambiente e fui apanhado nesse processo. Eu era seminarista, responsável pela capela da Ribeira Bote, imagina. Não gostei de ver a capela toda pichada com palavras de ordem. Fui lá para limpar as paredes e quase que me “limparam”. Saí de lá a correr e fui-me queixar ao Luís Fonseca, que  era o responsável do Partido em São Vicente, e dar conta do que me tinha acontecido. Todo esse ambiente político e de incerteza determinou decisões como a transferência do casal missionário Wood para o Brasil e antecipar o término da nossa formação. Tivemos de terminar um semestre antes e em Junho de 1975 fui colocado como Pastor em Santa Catarina.

 

Isso para dizer que estava muito voltado para a igreja. Mas eu tinha a percepção do que estava a acontecer. Aliás, morávamos perto do Grémio, perto da Rádio Barlavento, que ouvíamos quando ela foi tomada. A locutora, a Dra. Armanda Fonseca, era nossa vizinha morando na rua mesmo por trás de nós e da Igreja Nazareno. E por que é que tomaram a rádio? Tomaram a rádio para não ser uma voz contrária ao PAIGC. E quando se diz que esses eram contra a independência, não é verdade. Isso podia dizer, não nós não temos condições, vamos devagar, moderado. Dou como exemplo o caso do Dr. Teixeira de Sousa e que ele faz muitíssimo bem no seu romance histórico Entre duas bandeiras em que ele explica esse processo.

 

Houve perseguição, bateram nas pessoas… Estou ainda a falar de São Vicente, mas quando cheguei a Santa Catarina soube como é que tinha sido, bateram nas pessoas acusadas de serem da PIDE. Na Praia, foi uma má criação, bater nas pessoas, queima de carro… e vem-se dizer que foi um excesso porque não havia controle. Não, a coisa é muito mais grave do que isso porque, se foi nesse período a seguir ao 25 de Abril, chegado a Dezembro, esses opositores do PAIGC que não tinham a mesma visão para Cabo Verde sobre a independência foram presos, 73 pessoas, e levados para o Tarrafal.

 

As Forças Armadas alinharam com o PAIGC. Era gente da esquerda e a ideia era entregar o poder ao PAIGC que tinha um projeto um projecto e que procurou eliminar, literalmente, todos quantos lhe passasse pelo caminho e que intentassem impedir. Quem fosse contra era para retirar do caminho. Mais à frente vai-se perceber que a essência do PAIGC não era de tolerância, não era de aceitar os outros, não era para negociar, chegaram para tomamos o poder. Portanto, estas pessoas foram presas e enviadas para o Tarrafal acusadas de serem reacionárias, contra a independência.

 

É por isso que quando se diz que o Tarrafal foi fechado a 1 de Maio de 1974 é falso. O que houve foi a libertação dos presos, na sequência do 25 de Abril. É isso que aconteceu e fazer essa celebração sem falar do que veio depois, em que foram espancadas e presas 73 pessoas, quando no dia 1.º de Maio estavam lá 14, de um total de 20 que por ali tinha passado. Alguns desses presos ficaram no Campo do Tarrafal até o dia 5 de Julho, quando foram levados para Portugal. Tudo isso porque não alinhavam com a orientação da independência de Cabo Verde total e imediata com o PAIGC.

 

Nessa euforia de 1 de Maio de 74 quando os presos foram libertados e se gritava “Tarrafal nunca mais”, voltou-se a abrir e receber presos por motivos políticos. Para além disso, houve outros “tarrafais”. Em 1977 houve gente acusada de terrorismo em São Vicente e em Santo Antão e foi presa gente conhecida, espancada e morta. Em 1981, em Santo Antão, no âmbito da discussão do Ante-projecto de Lei de Reforma Agrária, voltou a haver gente presa, espancada, torturada, que já não foram enviados para o Campo de Chão Bom, mas foram para outros “tarrafais”.

 

O que se deve fazer é contar a história inteira, usando a expressão crioula, “tintin por tintin”, não em função daquilo que nos interessa por uma questão ideológica, mas fiel aos factos e à História.

 

Carlos Santos – Houve alguma prova de que haveria algum plano secreto para implodir, explodir a JAIDA, por exemplo?

 

Brito-Semedo – Na verdade isto todo foi nebuloso. Imagina um partido armado, um partido que tem experiência de guerra e que vem e diz que há um plano para matar os seus principais dirigentes. Isso é história de carochinha. Recordo que logo a seguir à agitação política de Dezembro de 1974 o PAIGC tinha feito desembarcar armas nestas ilhas. Porquê armas? Para se defender dos imperialistas que iam desembarcar nestas ilhas ou armas para intimidar quem estava cá dentro? Tinham tudo isso a favor e para intimar.

 

Carlos Santos – Há dias o Engenheiro João Pereira Silva dizia que nunca lhe passou pela cabeça, aliás, se dependesse dele nunca essas armas seriam utilizadas contra os cabo-verdianos.

 

Brito-Semedo – Nós estamos a ouvir os actores a contar a sua história. Qual era a garantia disso? Não havia garantia nenhuma. Eles chegaram para tomar o poder e tomaram. Para isso intimidaram de todas as formas. O que é que devia acontecer, a meu ver, agora, neste 1º de Maio, seria, não só contar a história inteira, mas, à semelhança do que fez Portugal, pedir desculpas por isto ter acontecido em Cabo Verde. Aqui vão dizer não foram eles, que foram as Forças Armadas. Sabemos que isso não é verdade, pois foram as Forças Armadas em conivência com o PAIGC que fizeram isso.

 

Mas se isso é alguma argumentação, alguma desculpa, o que é que se vai dizer com o que aconteceu em 1977? O que é que se vai dizer em relação a 1981? Instalou-se um partido único totalitário, com um sistema político com polícia política, à semelhança do que havia antes em Cabo Verde. Saiu-se de um sistema para se entrar noutro. Quando toda a gente estava em liberdade à espera de que isso acontecesse, não aconteceu a liberdade.

 

Carlos Santos – Mas quem é que deve, do seu ponto de vista, pedir desculpas? No seu discurso durante a cerimónia comemorativa dos 50 anos da libertação dos presos políticos do Campo de Concentração do Tarrafal o Presidente da República José Maria Neves afirmou, e vou citar: “No caso de Cabo Verde, descontados os excessos da excitação revolucionária da época, a independência contou com uma base alargada de apoio. As elites políticas e a esmagadora maioria dos cabo-verdianos, muito influenciados pelo contexto político de então, no essencial, apoiaram o processo independentista. A independência deu-se num quadro de partido único, o PAIGC, que substancialmente aglutinava as forças emancipatórias. Depois, divergências de ideias e de perspetivas políticas irromperam no espaço público, levando a dissensos e a ruturas no sistema. Se havia restrições de direitos civis e políticos foi, todavia, possível lançar as bases do Estado, garantir a segurança alimentar, e realizar pesados investimentos na educação, saúde e solidariedade social, alterando profundamente o panorama social e económico do país.” Quer fazer algum comentário?

 

Brito-Semedo – Em relação a esta passagem de discurso do Senhor Presidente da República, quero dizer que esses acontecimentos que resultaram na prisão ilegal e arbitrária de vários cidadãos, não foram excessos da população, dos estudantes e dos jovens que foram instrumentalizados, foram mais do que isso. Houve prisão ilegal e arbitrária de 72 indivíduos, sobretudo nas ilhas de Santiago e São Vicente, porque eram adversários políticos do PAIGC, os designados inimigos do Povo.  Portanto, não é tão simples assim como diz o Senhor Presidente da República. Foram acusados de serem contra a independência nos moldes preconizados e isso foi considerado crime porque não concordavam com a independência com o PAIGC, com “independência total e imediata”, com “independência ou morte”, contra a “unidade Guiné-Cabo Verde”.

 

Muitos daqueles que foram os causadores dos “excessos da excitação revolucionária da época” foram depois incorporados, aproveitados, e considerados combatentes de liberdade da Pátria. Nesse caso, legitimou-se aqueles excessos. Eu estou a pensar no caso das escaramuças que houve entre alguns rapazes de Ponta Belém com militares portugueses vindos da Guiné e são vistos como heróis e combatentes da liberdade da Pátria. Para além disso, depois da proclamação da independência, ou por causa disso, a sanha dos novos donos do Poder continuou e seguiram-se prisões arbitrárias, torturas e mortes com julgamentos de civis em Tribunal Militar onde os juízes, os procuradores e os advogados provisionários eram nomeados de entre militares combatentes vindos da Conacri.

 

Para o Senhor Presidente da República, “Se havia restrições de direitos civis e políticos foi, todavia, possível lançar as bases do Estado”. Estamos a branquear a História. Penso que às pessoas que foram presas em 1977 e 1981 e às famílias que perderam os seus ente queridos se deve um pedido de desculpas. Pelos 50 anos da libertação dos presos políticos do Campo do Tarrafal, que na verdade não é só isso – toma-se esta data como um marco e fecha-se aqui – porque tem a ver com o Partido africano da Independência de Cabo Verde e essa é a ideologia que prevalece até hoje porque o importante é a Independência.

 

Carlos Santos – Como diz, se havia restrições de direitos civis e políticos foi todavia possível lançar as bases do Estado, garantir a segurança alimentar. Quando se dá o 25 de Abril, portanto, as Ilhas estavam abandonadas, nós estamos a sair de uma situação de fomes, de mortandades, depois há esse período que se estende entre Abril de 74 vai até Dezembro, a tomada da Rádio Barlavento e depois os desenvolvimentos subsequentes a independência e parece-me que o que é mais valorizado é esse esforço de reconstrução nacional, o investimento na segurança alimentar, na educação a questão a questão das liberdades parece-me que não vem muito à tona.

 

Brito-Semedo – Não. É por isso que quando se faz essa confusão é de propósito. Quando se vai falar de liberdade no Tarrafal, na verdade, está-se com a ideia de libertação. Eles vieram como os libertadores e é por isso que também chamam “campo de concentração”, que é outra falsidade porque quanto mais se exagerar no campo do Tarrafal, eles, os libertadores, são mais Libertadores. É esta ideia que eu estou aqui a querer passar. Houve restrições, não houve Liberdade. Como disse, esperávamos que o 25 de Abril trouxesse liberdade e trouxesse desenvolvimento. Não trouxe liberdade e o desenvolvimento, comparado com o que havia, melhorou muitíssimo, não temos onde negar isso, mas o desenvolvimento foi raso. Alimentação, educação, saúde, solidariedade, tudo isto é importante, mas a dignidade humana, o direito à vida – houve pessoas que foram mortas – o direito ao pensamento livre, a liberdade de expressão…

 

Carlos Santos – Acha que em 74 havia já condições ou estavam criadas as condições para que Cabo Verde aderisse a esses valores da Liberdade, da Democracia, que houvesse, digamos, já uma experiência e de competição política de pluralismo já a democracia nessa altura?

 

Brito-Semedo – Por isso é que a independência não precisava ser “total e imediata já”. É isso que eu acho que devia ser. Não estamos a fazer revisionismo na história, estamos a ver, por exemplo. O caso de Portugal e o que aconteceu a seguir a 25 de Abril e que depois deu origem ao 25 de Novembro em que foi um período muito conturbado. Depois estabilizou-se em 76. Em Cabo Verde não houve essa decisão e Portugal não pode eximir-se das suas responsabilidades por aquilo que viria a acontecer.

 

Em Cabo Verde não se fala nem se estudo o período dos 15 anos do partido único, não se aceita que houve o que houve e os antigos dirigentes continuam com as mesmas ideias. É só ouvir as pessoas na rádio, é só ouvir as intervenções e ver a sua actuação e a prática continua, eles são os libertadores, os melhores filhos da nossa terra.

 

Começa a haver estudos e há uma tese que saiu em livro em 2021, Os Militares Portugueses e a Descolonização em Cabo Verde, de Sandra Maria da Cunha Pires,  e que está disponível em PDF na internet, que mostra como é que o processo todo foi conduzido, como é que as pessoas foram até hoje é preciso haver Portugal reconhece e o Presidente da República pediu desculpa por todo esse processo da Nunca Houve um pedido desculpa pelo período dos 15 anos do partido único pelas atrocidades pelas prisões uma grande oportunidade que se perdeu e que eu quero crer por essa linha não vai acontecer pelos 50 anos da independência.

 

Carlos Santos – Deixa-me citar-lhe também Almeida Santos, que era Ministro de Coordenação Interterritorial. Ele esteve envolvido nessas negociações com vista à Independência de Cabo Verde no caso de Cabo Verde foi a descolonização possível. Ele reconhece que não havia uma solução militar para a guerra na Guiné-Bissau e que o PAIGC negociou numa posição de bastante dureza, que o regime de partido único foi moderado, o país não se dividiu, mas lamenta que não tenha havido disputa numa base pluripartidária.  

 

Brito-Semedo – Uma primeira questão. Não houve luta armada em Cabo Verde. A ideia de que houve luta armada na Guiné e Cabo Verde é falsa. Internamente havia núcleos de pessoas do PAIGC e havia gente, sobretudo, com essa aspiração da Independência de Cabo Verde. Todos nós agarramos essa ideia. Estou a dizer nós porque eu tinha 22 anos nessa altura. Cheguei  Santa Catarina a 3 de Julho de 75. Vivi toda essa euforia e todo esse turbilhão. E saber que nós tínhamos agora liberdade de escolher, não só estarmos libertos de Portugal mas podermos decidir por nós próprios. Só que não foi isso que aconteceu. O que eu quero é passar essa ideia de que o os do PAIGC chegaram com um projecto de independência, fazendo-nos ligados à Guiné como extensão da luta armada na Guiné. Não houve isto.

 

As pessoas foram envolvidas e houve estudantes que vieram de Portugal apanhados nessa euforia e que acabaram por sair ficando os “melhores filhos da nossa terra”, os libertadores, os que vieram de Conacri e que tomaram o poder. Os outros foram sendo acoplados conforme a conveniência, mas não se aproveitaram as pessoas que cá estavam na clandestinidade e que apareceram à luz do dia no primeiro de Maio. O Engenheiro Jorge Querido foi uma dessas pessoas,e era o responsável do Partido, e outros que entraram. Havia também os estudantes que vieram de Lisboa.

 

Quando tomaram conta do Poder o partido de Cabral implementou o programa do PAIGC. Todo o contexto mundial da altura dava para fazer isso e nós vimos as consequências do processo de descolonização onde houve luta armada como Angola e Moçambique e na Guiné, onde, o PAIGC, já sendo poder, em que houve fuzilamentos. Não se fala desses acontecimentos. Hoje a Guiné é um peso morto e não se quer falar da Guiné e das atrocidades.

 

Em Cabo Verde as coisas não aconteceram assim. Na entrevista que Almeida Santos deu ao jornal Público em 2004, a que faço referência no Expresso das Ilhas, explica que ele chamou Pedro Pires, que era o responsável do Partido em Cabo Verde, e lhe disse: “O que quero é que você seja mais inteligente do que infelizmente alguns dos nossos moços que estão lá em Cabo Verde e que aceite uma consulta popular. Vocês ganham a consulta popular por 90 por cento e nós salvamos a face.” 

 

Carlos Santos – Façam um referendo… Inicialmente o PAIGC era contra o referendo…

 

Brito-Semedo – Não sei até onde havia dúvida aqueles que não eram a favor da independência nos moldes do PAIGC poderiam votar contra e isso ser significativo. Mas não quiseram porque tinha de ser tudo ou nada.

Enquanto tivermos a narrativa dos chamados libertadores, que vêm na sequência de gente nova, gente dos Pioneiros, da JAAC-CV, gente que está no poder, vamos continuar a ter esta narrativa.

 

Carlos Santos – Muito bem, Brito, 50 anos depois, que lições é que retiramos desse período, diria revolucionário, conturbado, o nosso PREC em Cabo Verde. Que lições é que podemos também retirar de todo esse passado, do campo de concentração do Tarrafal, aliás disse que houve aqui primeiro, é preciso haver um pedido de culpas, é preciso haver reparação ao mais alto nível do Estado de Cabo Verde e haver reconciliação?

 

Brito-Semedo – Primeiro, é preciso haver um pedido de desculpas e haver reparação ao mais alto nível do Estado de Cabo Verde e haver reconciliação, há famílias… Quando se pede reparação nós não estamos a falar no abstrato, há gente concreta, há famílias que perderam seus familiares. Para isso, precisa haver essa reconciliação. Esta narrativa que é permanentemente passada, por exemplo, essa de que Tarrafal acabou no dia no dia 1 de Maio, de lhe chamar campo de concentração, não é verdade. Não existe nenhuma da lei em que foi criado. É uma narrativa que começa a surgir em 2004, quando era o governo do PAICV e que é retomado em 2006 e foi continuado pelo governo do MpD e pela comunicação social.

 

Um campo de concentração onde estiveram 20 cabo-verdianos, em que durante todo esse processo, de 1931 a 1954, morreram 30 e tal presos portugueses? Campo de concentração é ideia que vem da guerra da Segunda Guerra Mundial e da ideia de extermínio. Aqui é exagerado de propósito de valorizar o libertador. Não vamos falar dessas coisas, o importante o desenvolvimento do país, que tenha havido escola, tenha havido saúde… Isso é importante, sim, mas há alguma coisa mais importante que a vida humana, os direitos humanos, a liberdade de expressão para depois haver desenvolvimento? Não, inverteu-se isso, inverteu-se, não, apagou-se. O senhor Primeiro-Ministro diz que nós estamos em paz com a essa História. Isso não é verdade, tanto é que, cada vez que há uma actividade destas, de datas marcantes, há uma clivagem. Por exemplo, percebe-se agora que há uma clivagem entre a Presidência da República e o Governo nas celebrações da libertação dos presos do Tarrafal em que não tivemos uma comemoração do Estado, tivemos uma celebração promovida pelo Presidente da República e vamos ter outra a  ser promovida nos próximos dias pelo Governo.

 

Carlos Santos – Acha que é um debate que os cabo-verdianos terão de continuar a fazer sobretudo agora que vamos entrar nas comemorações dos 50 anos de independência Nacional?

 

Brito-Semedo – Acho que sim. Devíamos ter feito esse debate há mais tempo, mas agora estamos a chegar a altura, com vozes, com gente que estuda e que investiga e que traz essas questões. Outro dia, na sequência do artigo que eu escrevi sobre o 25 de Abril alguém comentou “tu és uma pessoa de coragem” e veio outra, que não é cabo-verdiana, e comentou, “então depois do 25 de Abril, para contar factos históricos é preciso ter coragem?”

 

Carlos Santos – Professor Manuel Brito-Semedo, obrigado por ter vindo aqui ao nosso espaço Café Central. Também foi o último convidado nesta série de conversas em relação ao 25 de Abril, os efeitos que esteve ou que teve em Cabo Verde no processo de Independência, os desenvolvimentos subsequentes também na história recente deste país.

 

Obrigado por ter vindo aqui à Rádio de Cabo Verde partilhar as suas Memórias de Abril ou aquilo que deveriam ser os valores de Abril em Cabo Verde, nomeadamente, nessa terceira vaga da Democracia que é precisamente assinalada pelo 25 de Abril de 1974.

 

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CAFÉ CENTRAL RCV: Especial "Conversas de Abril" com antropólogo Manuel Brito Semedo - 06 - 03 - 2024 (youtube.com)

 

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