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Brito-Semedo, 17 Set 14
Para o Amigo Abraão Vicente, uma Voz Crítica
Na SonCente, sempre que se fala ou se invoca um defunto, usa-se a expressão nô trá bóca de môrto e aproveita-se para tomar uma bebida, o que se entende como deixar de falar no dito, com o enxaguar da boca, e esconjurar a própria morte.
Até aos anos sessenta de mil e novecentos, altura em que se passou a implementar o projeto de urbanização do descampado por trás da Chã de Cemitério, conhecido entre nós por “terra d’ índio, por ser de terra solta vermelha, abrindo a Avenida da Holanda e dando origem à Chã de Monte Sossego com construções de prédios de apartamentos, havia dois “cemitérios velhos”, um deles dos ingleses e um outro de gente da terra, desactivado desde que se construiu o “cemitério novo” no seguimento da estrada para a Ribeira de Julião, o nosso dezoito-dois-oito ou o Nha Marquinha.
A nossa casa ficava numa renque de casinhas pequenas situadas nas imediações desses dois cemitérios, virada para a estrada que desemboca no cemitério novo, baptizada de Avenida Manuel de Matos (1907-1962), em homenagem a esse benemérito sanvicentino e um dos donos da Fábrica Favorita.
Vivendo a portas-meias com os mortos, melhor dizendo, com o lugar dos defuntos, chegando, inclusivamente, a saltar os muros do cemitério para ali ir brincar, em companhia de outros coleguinhas (nunca sózinho nem ao fim do dia, credo!), era habitual, quase que diariamente, ver passar cortejos fúnebros e, no regresso, ajudar a lavar os cálices da aguardente que a minha Mãi-Dona vendia para os homens e as mulheres mais velhas trá bóca de môrto – “tirar a boca do morto” – muitas vezes com a desculpa de estarem com a garganta seca e com a poeira do cemitério.
Hábito antigo esse que ficou em que, sempre que numa conversa se fala ou se invoca um defunto, usar-se a expressão trá bóca de môrto e tomar um gole, que é como quem diz, deixar de falar no dito, enxaguar a boca e esconjurar a própria morte.
Lembrei-me disso quando ouvi e li sobre a comemoração dos 20 anos da "Rota dos Escravos" (1), a ser celebrada em Cabo Verde – coisa de que nunca se ouviu falar entre nós nessas duas décadas – com um extenso programa, que se iniciou a 11 de Setembro e vai até 31 de Dezembro de 2014 e promete exibição de filmes, debates e conferênicas sobre o tema da escravatura. Tudo isso com o propósito de “recuperar o atraso e colocar Cabo Verde no centro desse projeto mundial”, segundo o Ministro do Ensino Superior e Inovação. Côsa e êss?! Nô trá bóca de môrte!
A propósito, invoco um outro Que-Deus-Haja, o “Grande Prémio Cidade Velha”, o maior prémio nacional atribuído à investigação científica, social e humana, sobre a realidade cabo-verdiana. Criado em 2003, o “Grande Prémio Cidade Velha”, teve três edições, com direito a um prémio monetário e a publicação da obra escolhida, ganhas por Gabriel Fernandes (2005), com Em Busca da Nação. Notas para uma reinterpretação do Cabo Verde crioulo; Elias Alfama Vaz Moniz (2008), com Africanidades versus Europeísmos: pelejas culturais e educacionais em Cabo Verde; e Silvino Lopes Évora (2010), com Políticas de Comunicação e Liberdade de Imprensa – Para Compreender o Jornalismo e a Democracia em Cabo Verde, com suas teses de doutoramento, respectivamente, em Sociologia Política, História e Ciências de Comunicação.
Depois disso, coincidindo com a mudança de titular na pasta do Ministério da Cultura, nunca mais se ouviu falar no dito “Grande Prémio da Cidade Velha”. Côsa e êss?! Nô trá bóca de môrte!
Um outro defunto, esse, nado-morto, é a Editura – Central Comum de Edições do Ministério da Cultura, criada em Outubro de 2011, que até hoje publicou um único livro, precisamente o último “Grande Prémio da Cidade Velha”. Côsa e êss?! Nô trá bóca de môrte!
Se continuar a fazer o levantamento dos Que-Deus-Haja, dos nados-mortos e dos projectos anunciados, mas que não chegaram a ver a luz do dia, desses nossos ilusionistas mágicos e tocadores de cimbôa (3) – Orquestra Nacional de Cabo Verde, Cabo Verde Ballet, Rede Nacional de Salas, Rede Nacional de Museus, Fórum Nacional de Artesanato, Fórum sobre o Carnaval, Banco da Cultura, Biblioteca Nacional e Política do Livro e da Leitura, Auditório Jorge Barbosa, Palácio da Cultura Ildo Lobo, Casa da Ciência... e ainda Galeria de Arte, Museu da Música, Casa Memória do Carnaval, Casa Museu Cesária Évora e outros – hic, ainda fico fusco (2), hic.
Côsa e êss?! Nô trá bóca de môrte! Hic!
Nota do autor: Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso – mesmo quando há confettis no ar.
__________
[1] O projeto “Rota do Escravo: resistência, liberdade, herança” nasceu de uma iniciativa do Haiti em conjunto com vários países africanos que fizeram parte da rota dos escravos e foi aprovado pela Unesco na sua 27.ª Sessão, cujo lançamento oficial foi feito em 1994, em Ouidah, no Benin.
[2] Bêbado.
[3] Referência ao post "Ilusionista Mágico do Tarrafal".
Não estou aqui a
desvalorizar a história da escravatura em Cabo Verde, que deve ser estudada, mas
como se diz em criol de soncent es fjon tem tucim ' ou 'quando a esmola é
choruda o pobre desconfia'. Vem mesmo a propósito o que escrevi no meu último artigo:
'Como vemos
denunciando há muito tempo, o regime tenta através de operaç es mediáticas e
muito politicamente correctas, operar lavagens cerebrais, reinventando e
reescrevendo diversas vers es da história de Cabo Verde, com uma visão por
demais provinciana, partidarizada, ideologizada e fracturante'.
Rota dos Escravos é pura propaganda política. Para além disso concordo com o que disse o amigo Luiz sobre a liturgia daCidade Velha. Mas já é tempo de dizer a este regime que 'Trop c'est trop', que
'nos uvid n é tchquer'.
Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...
Viva Susana, não não é este Valdemar Pereira, eu f...
Corrigido no texto. Grato pela correção. Abraço.
Ele nasceu em 1824.
Grato pela partilha destas informações que enrique...
Devido à oportunidade de realizar pesquisas sobre ...