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capa CRONICAS SOVIETICAS.png

Um texto, atribuído a um diretor da Escola de Medicina da Universidade George Washington, circula pelas redes sociais com a sugestão de que seja amplamente divulgado entre os jovens há mais tempo, que estejam entre os 60 e 80 anos. Nele, o autor explica, entre outras coisas, que “o pico da actividade intelectual humana ocorre por volta dos 70 anos, quando o cérebro começa a funcionar com força total”.

 

Ainda segundo informação desse director, a partir de uma certa idade o cérebro pode não ser mais tão rápido como na primeira juventude, mas ganha em flexibilidade, ou seja, com o avançar dos anos, a probabilidade de se tomar decisões mais acertadas e de se estar menos exposto a emoções negativas, é maior.

 

Para mim – e acredito que para a maior parte dos que aqui estão – esta é uma grande notícia, que não vale aos invejosos dizerem que é fake news.

 

A memória fantástica e ainda fresca de Osvaldo Lopes da Silva, evidenciada no livro primeiro, Nos tempos da minha infância, publicado aos 75 anos, fica agora ratificada nesta nova obra, dez anos passados.

 

Neste Crónicas Soviéticas, Osvaldo Lopes da Silva continua na senda memorialista, mas desta feita saindo do viés afectivo para o histórico. Para tal, convergiram vários factores:

 

(i) a conjuntura histórica favorável que encontrou ao chegar à então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em 1961, ano da grande abertura  do país em relação ao mundo;

 

(ii) o domínio da língua e o conhecimento da História russas, uma vez que fez a formação em Economia pelo Instituto de Economia de Plekanov;

 

(iii) ter conseguido uma boa rede de contactos, por meio de material (uma carta e um livro com dedicatória levados de dirigentes do MPLA) que lhe abriu portas;

 

(iv) ser portador de um pequeno rádio transistor que o punha em contacto, todas as manhãs, com as principais estações e consequente notícias do mundo ocidental; e

 

(v) a sua verve e forma leve para abordar assuntos complexos, para denunciar, criticar, gracejar ou censurar alguém ou alguma coisa, com um humor subtilmente irónico.

 

“Crónicas Soviéticas”

 

O livro de Osvaldo Lopes da Silva é constituído por onze ensaios, registados em primeira pessoa. Os textos, históricos e memorialistas, seguem uma linha cronológica e lançam luz sobre o emaranhado político da ex-URSS e sobre a geopolítica mundial, por meio de um testemunho privilegiado, posto que de um estudante de economia, militar, combatente da luta de libertação do PAIGC e dirigente político nos anos sessenta, setenta e oitenta.

 

O prefácio do livro, de autoria magistral do investigador Julião Soares Sousa, é um convite para que o leitor transite entre os diversos ambientes, como se de cômodos de uma casa se tratasse, e tem o mérito de nos preparar para o que vamos encontrar na escrita de Osvaldo Lopes da Silva.

 

Adiante!

 

Ultrapassada a soleira da porta, permitam-me que eu também vos guie num breve passeio por alguns desses cômodos, que compõem esta casa/obra de Osvaldo Lopes da Silva, evocações da memória suportadas, muitas vezes, por documentos pouco conhecidos ou pouco divulgados, que lhes dão garantia de rigor histórico.

 

Haveremos de circular, pois, por ambientes como a Revolução de Outubro e a criação do Partido Comunista e da União Soviética, com as lutas pelo poder e as purgas nas altas esferas do Partido Comunista Soviético; pela Segunda Guerra Mundial, com a explicação risível que lhe foi dada por um sargento russo de como os nazis perderam a guerra para aos russos. E é também com uma certa ironia que o autor dá conta de como Portugal contribuiu para o esforço de guerra; pela geopolítica mundial, o socialismo internacional e os interesses nacionais; pelas visitas de Amílcar Cabral à URSS e o confronto de ideias com o autor, em 1967. Aqui, vou-me permitir uma revelação antecipada de conteúdo: numa prolongada espera em Moscovo para uma audiência, Osvaldo Lopes da Silva viu a oportunidade para ter uma longa e descontraída conversa com o líder: “Cabral vinha entusiasmado com a alta qualidade dos integrantes do grupo de cabo-verdianos em formação militar em Cuba […]. Tivemos tempo para abordar, longamente a problemática da Unidade Guiné-Cabo Verde. […]. Concluí, esclarecendo que exprimia reservas, não oposição ao projecto” (pág. 191-192); pela ambição e o oportunismo político em diversas esferas; pela derrocada da perestroika de Gorbatchov, de como ficou ultrapassada face à proposta de Boris Ieltsin de uma Federação Russa, aberta à adesão voluntária de outras repúblicas; pela cooperação Cabo Verde-União Soviética, estabelecida logo após a independência e na sequência da ajuda da ex-URSS concedida ao PAIGC, sobretudo, na área da marinha mercante e da construção de portos.

 

De mencionar também que a fachada da casa/obra, a capa do livro que reproduz uma foto, registo de uma visita à Crimeia, em Abril de 1969, tendo Amílcar Cabral em destaque, único dirigente africano com direito a acompanhante militar, intérprete de russo, ninguém menos que o “patxêparloa” Osvaldo Lopes da Silva, no canto esquerdo, atrás de Samora Machel.

 

Considerações finais

 

Terminado o breve passeio pela casa/obra, voltemos à soleira da porta dando passagem ao prefaciador, o investigador Julião Soares Sousa, mas não sem antes pegar o gancho de um trecho do prefácio.

 

Em certa ocasião, tive a oportunidade de lançar um desafio à geração de dirigentes e políticos, que foram os principais intervenientes no processo da independência e da governação deste país, para que fizessem o registo das suas memórias e reflexões. Tomando como exemplo Osvaldo Lopes da Silva, hoje volto a reiterá-lo, as geraçóes presentes e futuras assim o exigem.

 

Manuel Brito-Semedo

 

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