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Brito-Semedo, 7 Set 14
Para o meu Amigo Nuno Andrade Ferreira, Jornalista de muito humor
Contrariando a cultura dos festivais e dos clusters da sabura dessa geração de gente manhenta de cóc e bafa, deve-se procurar promover o que é permanente e fundamental. E uma pessoa que pretende cultivar-se, não pode ser manhenta".
Os sentidos, não menos o do gosto, são o mote da vida do homem crioulo. Isto é-lhe intrínseco e está presente em todo o ciclo da sua vida, acompanhando-o em todas as suas manifestações culturais, do nascimento à morte, indo das festividades do nascimento, do guarda-cabeça e do baptizado, passando pelo casamento e outras celebrações, até aos ritos fúnebres. Sempre celebrando a alegria e a festa da vida e, também, o choro e a tristeza da morte, tudo à roda de grandes panelas, muita música e alguma dança.
É percepção de muito boa gente que Cabo Verde, de há uns anos a esta parte, se vem tornando num grande palco de festivais, sobretudo nos meses de Julho, Agosto e Setembro – Festival da Baía das Gatas, Festival de Santa Maria, Festival da Gamboa, Festival de Verão da CV Móvel, Festival Morna Fest, Festival de Música da Praia de Tedja, Festival da Praia d’Cruz, Festival de Rabeca, Festival de Música da Praia de Curraletes, Cabo Verde World Music Festival, apenas para me referir aos mais conhecidos – cujas afluências são enormes e os momentos de festa de massa e de sabura são potenciados pelo consumo de muita bebida.
Fala-se já de forma irónica de um novo cluster em São Vicente: o cluster da sabura. Sábe pa frónta! (1). Com isso está-se a criar uma geração de gente manhenta de cóc e bafa (2), pouco dada à cultura do trabalho, do esforço e do estudo. “É o prazer rápido da festa a erguer-se contra a fruição lenta do que permanece”, conforme a escritora Inês Pedrosa (3).
Para além desses festivais de música, existem ainda o Kriol Jazz Festival e o Atlantic Music Festival, o Festival Internacional de Teatro do Mindelo (Mindelact), o Kavala Fresk Feastival, o Cabo Verde International Film Festival, o Festival Internacional de Fotografia de Cabo Verde e o Festival do Café do Fogo.
Não existe nenhum Festival Literário, um momento de fruição e de promoção da literatura e parece que ninguém dá por falta disso. Aliás, não se entende porque a televisão pública de Cabo Verde, a TCV, não dispensa dois minutos por dia onde um poeta diga um poema, um escritor leia um parágrafo, ou alguém conte o que está a ler ou recomende um livro?
Embora Cabo Verde goze de algum reconhecimento no mundo da língua portuguesa pela sua literatura e tenha um Prémio Camões, nem por isso cuida desse património, tratando-a como uma arte pobre. A verdade é que se continua à espera de uma política de estímulo à leitura, de incentivos à actividade editorial, de uma rede de bibliotecas públicas e municipais, da promoção dos seus escritores e, por que não, da internacionalização da sua literatura?
Isso leva a que o mercado livreiro nacional seja praticamente inexistente, as livrarias não cheguem aos dedos de uma mão e sejam poucos os livros editados. Mesmo os livros clássicos e de leitura obrigatória no ensino estão esgotados há muito e aqueles que se encontram disponíveis para venda são relativamente caros.
A propósito dos preços dos livros, contou-me o meu Amigo Tchalê Figueira o seguinte: "Estávamos na Feira do Livro, as pessoas reclamavam dizendo que os livros estavam caros. Ouvindo isso, Varela (4) remata: 'Gastam dinheiro em grandes jantaradas, mas acham os livros caros?!... Pudera!... Não se pode ser manhente e culto ao mesmo tempo, salvo o Diabo, por deformação profissional'.
No próximo dia 15 de Setembro arranca o novo ano lectivo com mais de 140 mil alunos. Anuncia-se como grande novidade o alargamento do ensino obrigatório de seis para oito anos de escolaridade, com planos de estudos com novas áreas, quatro escolas secundárias ampliadas e remodeladas e três novos liceus construídos de raiz, a juntar-se às mais de 40 escolas secundárias já existentes. Proclama-se ainda o alargamento do programa “Mundo Novo”, com mais escolas e alunos com computadores. Contudo, sobre a criação ou a instalação de bibliotecas escolares ou a entrega de kits de livros aos alunos ou mesmo o anúncio da reedição de livros de leitura obrigatória, nada, nem uma palavra.
Contrariando a cultura dos festivais e dos clusters da sabura dessa geração de gente manhenta de cóc e bafa, deve-se procurar promover o que é permanente e fundamental. E uma pessoa que pretende cultivar-se, não pode ser manhenta".
Nota do autor: Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso – mesmo quando há confettis no ar.
[1] Muito bom.
[2] Guloso por comes e bebes. Que gosta de comer e não se sacia.
[3] In “Festas & Faltas”, Sol, 29/08/14.
[4] João Varela, nome poético de João Manuel Varela, São Vicente, 1937-2007.
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No meu tempo quando um menino chegava à 4a Classe de Instrução Primária , sabia a diferença entre "haver" e "a ver", coisa que se vê frequentemente hoje em dia. Aliás os dois verbos auxiliares tinham de ser aprendidos "de cor e salteado"... de qualquer maneira.
No ano em que fiz os exames do 1° Ciclo no Gil Eanes o Dr. Baltazar apanhou muito menino que não conseguia conjugar o mais-que-perfeito-o-conjuntivo que se aprendia mesmo na 3a Classe.
Ô tempora , ô mores !!!