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Brito-Semedo, 17 Fev 26

O debate em torno da expressão “nação crioula” tem mostrado, acima de tudo, a dificuldade em pensar Cabo Verde sem recorrer a fórmulas simples. Entre a vontade de ser o primeiro e o receio de ser apenas mais um, perde-se o essencial: compreender a história do país.
Cabo Verde não precisa de ser “o primeiro do mundo” para afirmar a sua identidade, nem a sua história cabe num troféu. A crioulidade não é uma medalha nem um slogan; é uma forma de explicar como nasceu uma sociedade nova, num arquipélago desabitado que se tornou ponto de encontro entre continentes e culturas.
Cabo Verde não é a primeira nação crioula do mundo; é, muito provavelmente, a primeira nação formada inteiramente por um processo de crioulização atlântica. Não é uma proclamação, é uma maneira de situar historicamente o país.
Pensar Cabo Verde assim obriga a aceitar uma identidade feita de processos e de encontros, não de essências simples nem de narrativas confortáveis. Exige olhar para o passado com seriedade.
Um país sério vive de consciência histórica, não de troféus simbólicos. Não precisamos de medalhas para saber quem somos; precisamos de memória para não esquecer como nos tornámos o que somos. Cabo Verde sempre pertenceu a essa categoria — e é nela que melhor se reconhece.
N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.
– Manuel Brito-Semedo
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