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Um Mar De Conflitos1.jpg

“Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado”

- Emília Viotti da Costa, Historiadora Brasileira

 

INTRODUÇÃO

 

Confesso o meu fascínio pela História e por figuras marcantes do século XIX, o meu século de eleição para o estudo da imprensa periódica.

 

Quem se interessa pela etno-história como eu, depara-se, em Cabo Verde, com sérias dificuldades em consultar documentos de arquivo, pois a maior parte encontra-se em Portugal no Arquivo Histórico Ultramarino, nas Bibliotecas Nacionais de Lisboa e do Porto e na Torre do Tombo. No Arquivo Histórico Nacional o acervo é muito limitado. 45 anos depois da Independência Nacional, lamentavelmente, ainda é este o estado da Memória.

 

Por outro lado, a História Geral de Cabo Verde, com os seus três volumes, só vai até o século XVIII. O volume 3, publicado em 2002, abrange o período de 1647 a 1778. Nada indica que o projecto, realizado em parceria com Portugal, será alguma vez retomado.

 

Daniel Pereira, autor de dez livros sobre a História de Cabo Verde e largas dezenas de artigos publicados em diversos jornais e revistas, nos seus três últimos trabalhos faz o estudo da História pela abordagem de posições e trajectórias de figuras marcantes, por vezes controversas, com base em documentos, relatórios, memórias oficiais, representações, correspondências e opúsculos publicados autonomamente.

 

É assim que, em 2009, Daniel Pereira publica Memória sobre Cabo Verde do Governador Joaquim Pereira Marinho & Outros Textos, “Prémio Sena Barcelos de Monografia”, edição 2008, baseado nos escritos do Brigadeiro Joaquim Pereira Marinho – governador de Cabo Verde em 1835, exonerado em 1836, devido a resistências e campanhas difamatórias, para voltar a ser nomeado novamente logo no ano seguinte – para recuperar a memória desse período com a proposta de fazer, na ilha de São Vicente, a nova cidade capital política e administrativa de Cabo Verde, chamada Mindelo.

 

Em 2016, Daniel Pereira edita Novos Subsídios para a História de Cabo Verde, onde debruça sobre a longa governação de D. José Coutinho, 1803 a 1818, que é, ao fim-e-ao-cabo, uma longa viagem pelo tempo e pela História de Cabo Verde.

 

Dando seguimento, em 2020, Daniel Pereira dá à estampa Um Mar de Conflitos: Marcellino Rezende Costa Vs Manoel Antonio Martins, tendo como pano de fundo um dos períodos mais conturbados da História com disputas políticas entre os liberais e os absolutistas, o que viria a descambar numa guerra civil em Portugal, de 1832 a 1834, com profundas repercussões no arquipélago.

 

Com base num acervo documental riquíssimo, Daniel Pereira ilumina esse período importante do nosso passado procurando trazer a Verdade da História.

 

CONSTRUÇÃO/DESCONSTRUÇÃO DE FIGURAS HISTÓRICAS

 

  1. Marcellino Rezende Costa (Praia, 1800 – 1848)

 

Escrivão Deputado da Junta da Fazenda da Província de Cabo Verde. Foi neto e filho de deportados políticos participantes da Inconfidência Mineira, uma  revolta de carácter separatista que estava sendo organizada na capitania de Minas Gerais, Brasil, em 1789.

 

O pó do esquecimento cobriu a memória de Marcellino Rezende Costa por 175 anos, que agora é sacudido por Daniel Pereira nesta sua publicação.

 

“Marcelino Rezende Costa seria, certamente, daqueles homens banhados e bafejados pelo sentido de justiça, honradez e verticalidade”.

 

  1. Manoel Antonio Martins (Reino da Galliza, cerca de 1772 – Boa Vista, 1845)

 

Arribado a Cabo Verde em 1793, com 21 anos. Com um passado nebuloso, torna-se num dos “vultos mais importantes da história da colonização cabo verdiana”, nas palavras do médico José Augusto Martins, neto de Manoel Antonio Martins, em Madeira, Cabo Verde e Guiné, publicado em 1891. Essa imagem foi igualmente construída por José Joaquim Lopes de Lima, Secretário da Prefeitura, e Cristiano de Sena Barcelos, seu admirador, mantida e reproduzida acriticamente ao longo dos tempos. Uma figura e uma construção, portanto, que precisavam passar pelo crivo da objectividade documental, a bem da verdade histórica.

 

Em 1994 a escritora Maria Isabel Barreno publicou o romance histórico sobre esse seu tetravô com o sugestivo título O Senhor das Ilhas, avivando no imaginário dos cabo-verdianos a figura de Manoel Antonio Martins. Mais recentemente, em 2015, quando da inauguração do Complexo Educativo de Santa Maria, ilha do Sal, ostentando o nome de Manoel Antonio Martins, surgiu uma polémica à volta dos méritos dessa figura controversa.

 

MAR DE CONFLITOS | CHUVA DE QUEIXAS | ESGRIMA DE ACUSACÕES | DESEMBAINHAR DE ESPADAS Vs ILHAS POBRES, RESSEQUIDAS E SEDENTAS DE JUSTIÇA

 

Manoel Antonio Martins, na sua qualidade de Administrador da Urzela – exclusividade mantida por 30 anos – e dos Rendimentos da Ilha do Sal – ilha ocupada indevidamente e a partir de onde teria construído o seu império – tornou-se no homem mais rico de Cabo Verde. Considerando-se intocável, entrou em conflito com alguns governadores – Antonio Pusich, 1818; Joaquim Pereira Marinho, 1835 e 1837 – e criou inimigos entre os maiorais, sobretudo os concorrentes comerciais, membros da Junta da Fazenda, por razões óbvias, e adversários políticos que atacou com sanha e desprezo.

 

De registar ainda as acções de Manoel Antonio Martins enquanto Prefeito de Cabo Verde, cargo que exerceu de 1834 a 1835, com indícios de violação dos preceitos da Carta, sendo o arrancar forçado da vinha em Santo Antão apenas um exemplo.

 

Convenhamos que a acumulação de riqueza em terras pobres só pode ser com jogos de interesse, artimanhas, falcatruas, desvios, sonegação, suborno e conluios. A bem da verdade, a história do Patriarca e da Casa Martins é de apropriação do capital sobrepondo-se aos interesses do povo das ilhas.

 

Manoel Antonio Martins escreveu artigos nos jornais da então metrópole, atacando os seus adversários políticos em Cabo Verde. Publicou: Memória demonstrativa sobre a necessidade de novas providências para a província de Cabo Verde, Lisboa, 1822; Palinodia contada pelo ex-governador de Cabo Verde…, Lisboa, 1823; e Apologia do cidadão Manoel Antonio Martins, Lisboa, 1836.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A segunda metade do livro é de anexos que consiste numa vasta documentação coligida por Marcelino Rezende Costa a servir de apoio probatório em sua defesa e através dela fazer uma série de acusações a Manoel Antonio Martins.

 

Säo cerca de cinquenta anos de história passados em revista em que aprendi muito.

 

Termino como comecei, com uma citação, desta vez de Carl Sagan, um cientista americano:

 

"A História está repleta de pessoas que, como resultado do medo, ou por ignorância, ou por cobiça de poder, destruíram conhecimentos de imensurável valor que, em verdade, pertenciam a todos nós. Nós não devemos deixar isso acontecer de novo."

 

Manuel Brito-Semedo

 

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