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Monumento com cartão de militante

Brito-Semedo, 1 Set 25

 

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Monumento à Liberdade e à Democracia, Praia (imagem de projecto)

 

 

O Monumento à Liberdade e à Democracia iniciou-se nas obras e, logo, ergueram-se também as vozes. Uns aplaudem o gesto de memória, vendo nele um tributo merecido a conquistas que moldaram o país. Outros torcem o nariz, dizendo que é inoportuno, mais cerimónia de fita cortada do que reflexão partilhada.

 

Prós? É memória viva. Recorda que a liberdade não caiu do céu e que a democracia se construiu passo a passo, com suor, tropeços e persistência. Durante anos, o voto não foi liberdade, mas cerimónia de legitimação de um regime que confundia Estado e partido. Hoje, esse marco lembra também a diferença entre rituais de obediência e escolhas de cidadania.

 

Contras? O momento. Num país de estradas esburacadas e bolsos vazios, há quem veja no monumento um luxo fora de lugar. Há escolas que precisam de telhado, hospitais que pedem manutenção, bairros onde a água ainda chega a conta-gotas. Nesse contexto, até o ministro responsável pelo projecto advertiu para o risco de populismo – reconhece o valor simbólico, mas lembra que o peso da pobreza não se resolve com pedra, ainda que o monumento possa ajudar a manter viva a memória.

 

Mas repare, leitor: se fosse para assinalar os 50 anos da Independência, diriam que era propaganda do partido fundador. Sendo para os 35 anos da Democracia, dizem que é manobra do partido da liberdade. No fim, parece que cada pedra já nasce filiada – como se os monumentos também tivessem cartão de militante.

 

É aqui que a sabedoria crioula dá a sua lição: nô trá bóca de morte. Na Soncent, a expressão serve para afastar maus agouros; na vida pública, também a usámos para soprar maus presságios, vindo com sete pedras na mão não pela história, mas pela ocasião. Assim, em vez de discutir o que o monumento representa – liberdade, democracia, cidadania – discute-se quem ganha mais dividendos da pedra erguida.

 

E o leitor, que acha? Não será a liberdade demasiado séria para se reduzir a calendário partidário? E a independência, conquista de todos, deve ser disputada como troféu de uns? Questionar é saudável, mas criticar só quando convém é incoerência mascarada de virtude.

 

No fim, o monumento mais sólido não é o de cimento, mas o da consciência colectiva. Esse não precisa de inauguração nem de placa comemorativa: só precisa de ser cuidado no dia-a-dia. E, ao contrário do de pedra, esse só racha se todos lhe virarmos as costas.

 

 

N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.

 

 

Manuel Brito-Semedo

 

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