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Morabeza em Dobro, Leitura em Falta

Brito-Semedo, 5 Dez 25

 

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A 5.ª edição do Festival Literário Morabeza – Festa do Livro de Cabo Verde aproxima-se. De 9 a 12 de Dezembro, a cidade da Praia voltará a ser palco de livros, debates e promessas. Sob o lema “As Letras ao Serviço da História”, o festival pretende celebrar os 50 anos da Independência e afirmar o livro como símbolo de memória, identidade e futuro. Serão dias de encontros, leituras e discursos, em que o país parecerá inteiro a ler ou, pelo menos, a fingir que lê.

 

Mas, nas mesmas datas, no espaço da Câmara Municipal da Praia, a Livraria Pedro Cardoso realiza também a sua Feira do Livro, com descontos até quarenta por cento. Duas festas, o mesmo público, a mesma cidade, a mesma semana. Morabeza em dobro, leitura em falta. Coincidência? Descoordenação? Concorrência? Seja o que for, revela bem o modo como o país trata a cultura: com entusiasmo, mas sem articulação; com boas intenções, mas pouca conversa entre quem devia conversar. Cabo Verde é fértil em eventos, mas pobre em política cultural.

 

Talvez fosse tempo de criar um verdadeiro calendário nacional da cultura, partilhado entre ministérios, câmaras, livrarias e escolas, para evitar esta sobreposição de vontades e dispersão de públicos. A cultura precisa de orquestra, não de solistas a tocarem cada um por sua conta.

 

Durante alguns dias, a capital será fotografada a ler. É a leitura transformada em evento, a cultura em cenário, a memória em programa oficial. Ouvir-se-ão belas palavras sobre o poder dos livros – ditas, naturalmente, por quem lê pouco e publica muito. Haverá entrevistas, aplausos, selfies e promessas de futuro. Depois, como sempre, regressará o silêncio.

 

Seria mais útil que cada edição do Morabeza deixasse uma semente: um clube de leitura numa escola, um programa de rádio sobre livros, uma biblioteca a renascer num bairro. Que cada feira criasse continuidade e não apenas lembranças no Instagram.

 

Em São Vicente, no tempo da minha adolescência, havia duas livrarias-papelarias – a do Leão e a do Toi Pombinha – e uma Biblioteca Municipal pequena, mas viva, cheirando a papel e a conversa. Era ali que se estudava, lia e sonhava. Hoje, Mindelo tem mais livrarias e mais bibliotecas, mas menos leitores. O progresso tem destas ironias: cresce o número de espaços, esvai-se o hábito.

 

Falta-nos uma política para formar leitores. As bibliotecas deviam ser casas de afectos e encontros, abertas à comunidade, com horários generosos e mediadores de leitura. Que não sejam apenas depósitos de livros, mas salas onde se aprende a gostar deles.

 

Na Praia, capital das solenidades, há duas livrarias e uma Biblioteca Nacional que cumpre, com zelo, o papel de guardiã oficial. Municipal, nem pensar. Os livros estão arrumados, as estantes limpas, e o povo continua sem casa para ler. Multiplicam-se campanhas, feiras e semanas temáticas, sempre com a mesma euforia de quem acredita que se muda o país com uma fotografia no Facebook.

 

Precisamos de uma Biblioteca Municipal viva, de bairros com bibliotecas comunitárias e até de bibliotecas móveis a circular entre ilhas. A leitura não pode continuar refém das cerimónias oficiais.


E o livro cabo-verdiano – esse sobrevivente teimoso – precisa de mais apoio: uma linha de edição nacional, presença nas escolas e um prémio que celebre quem lê e quem faz ler.

 

O Morabeza é uma invenção feliz – e merece aplauso. A Feira da Pedro Cardoso também, porque insiste em aproximar o livro do leitor. Mas seria bom que, desta vez, a coincidência não se tornasse ruído. Que o brilho da festa deixasse rasto nas escolas, nas bibliotecas e nas casas. Que o livro deixasse de ser pretexto para discurso e voltasse a ser motivo de leitura.

 

Talvez o Ministério da Cultura, as autarquias e os livreiros pudessem assinar um pacto simples: menos discursos e mais leitores. Um país precisa de mediação cultural, de professores formados para ler com os alunos e de campanhas que façam da leitura um gesto quotidiano.

 

O país precisa de leitores, não de cerimónias. O livro, esse ser paciente, não vive de promessas: vive de quem o abre. Porque um país não se constrói com festivais nem feiras – constrói-se com leitores. E é assim que se morre: de entusiasmo público e silêncio privado.

 

Mas também é assim que se renasce: quando o silêncio se transforma em leitura partilhada, e o entusiasmo em política cultural duradoura.

 

 

N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.

 

 

Manuel Brito-Semedo

 

 

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