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Cheiro dos Velhos.jpg

Cabo Verde tem já uma longa tradição de teatro. Nos anos 40/50, o teatro teve uma forte pujança em São Vicente com vários grupos cénicos, do Grémio Desportivo Castilho (Conjunto Cénico Castilhano), do Grémo Desportivo Amarante e da Associação Académica do Mindelo (cf. O Teatro é uma Paixão. A Vida é uma Emoção, de Valdemar Pereira, 2010).

 

Nos meados dos anos 70/80, com o advento da independência nacional, houve um ressurgimento do teatro, particularmente em Santiago, com a criação do grupo teatral “Korda Kaoberdi”.

 

 

Nos inícios de 90 foi inaugurada uma nova era no teatro, a partir de São Vicente, com a criação de Cursos de Iniciação Teatral e do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo (GTCCPM), de que João Branco é encenador e director artístico tendo já encenado e produzido 60 espetáculos teatrais, com textos de autores cabo-verdianos e estrangeiros.

 

Apesar dessa tradição, poucos desses textos escritos para serem encenados chegaram a ser editados em livro. Daí que a publicação de uma obra de dramaturgia em Cabo Verde seja “sempre um acontecimento” porque, conforme João Branco, “o teatro, enquanto género literário, não é uma grande aposta de editoras e não há muito mercado para ele”.

 

Assim, a apresentação de O Cheiro dos Velhos de Caplan Neves, o livro vencedor do 2.º Concurso Nacional de Dramaturgia do Centro Cultural Português 2019-2020, e sua encenação como peça de teatro, é um duplo “acontecimento” e vai ser feita em três momentos narrativos, no sentido da sua estrutura e das suas principais secções: ACTO I – O Dramaturgo; ACTO II – A Dramaturgia; ACTO III – O Drama, Cheiros e odores.

 

ACTO I – O Dramaturgo

 

Caplan Bernardo Costa Neves, 36 anos, natural do Porto Novo, Santo Antão, residente em Mindelo, São Vicente, psicólogo e professor do ensino secundário, é  licenciado em Psicologia Clínica e da Saúde.

 

No domínio artístico, realizou o Curso de Iniciação Teatral, no Polo do Mindelo do Centro Cultural Português em 2008 e, desde essa altura, participa em projectos artísticos nas áreas do teatro e da música enquanto actor, dramaturgo e compositor.

 

ACTO II – A Dramaturgia

 

A Dramaturgia é, por definição, o ofício de elaborar um texto com o objetivo de o transportar para os palcos, apresentando diante de um público as ideias contidas nessa obra. A palavra drama vem do grego e significa acção. Desse modo, o texto dramatúrgico é aquele que é escrito especificamente para representar a acção. O cerne da acção é o conflito. Toda a acção em cena depende do conflito e da maneira como as diferentes personagens agem para atingir os seus diferentes objetivos.

 

Convido-vos a revisitar o caminho percorrido e as publicações de dramaturgia dadas à estampa em Cabo Verde:

 

  • Descarado, Donaldo Macedo, Taunton, Massachusetts (1979);
  • Quem é quem, Maria José, pseudónimo de Flávio Carvalho Moreira (Santa Catarina, 1961 – EUA, 1993), Praia, ICL (1988). Obra premiada no Concurso Literário X Aniversário (1985) na modalidade Teatro e patrocinada no âmbito do 50º aniversário da revista “Claridade”;
  • Matilde, Viage di Distino, Artur Vieira, Rio de Janeiro (1991);
  • Virgens Loucas, Cândido Ferreira, Lisboa, Cenas Lusófonas (2000);
  • Vai-te treinando desde já, Mesquitela Lima, peça de teatro de João Cleófas Martins (Nhô Djunga), Lisboa, Nova Veja (2004);
  • Salon, Mário Lúcio, Praia-Mindelo, Centro Cultural Português (2004);
  • Colecção Dramaturgia Nacional – três volumes de colectâneas de peças de Mário Lúcio Sousa (2004), Espírito Santo da Silva (2006) e Caplan Neves (2015), Mindelo, Associação Mindelact;
  • Eugénio Tavares. Palco de dor e de amor, Artur Vieira, Praia, IBNL (2007);
  • Escritos sobre teatro, Kwame Kondé, Praia, Artiletra (2010). O livro incide particularmente sobre o período de existência do grupo teatral “Korda Kaoberdi” (1975-1982) e inclui dois dos textos sobre os quais seria montado o espectáculo “Rai di Tabanka” (1980);
  • Tudojunto Sepa rado, Lisa Reis, vencedora do 1.º Concurso Nacional de Dramaturgia do Centro Cultural Português 2017-2018 (2018);
  • O que faço com isto? – Textos para teatro, Valódia Monteiro, edição de autor (2020), lançado em Novembro último, enquadrado no Festival Internacional de Teatro do Mindelo – Mindelact;
  • O Cheiro dos Velhos, Caplan Neves, vencedor do 2.º Concurso Nacional de Dramaturgia do Centro Cultural Português 2019-2020 (2020).

 

Se não nos enganamos, este é o décimo quarto livro de dramaturgia publicado em Cabo Verde.

 

De se lamentar a falta de políticas públicas para a área do livro e da promoção da leitura que vem, lamentavelmente, desde 2011. Igualmente, é de se relevar esta iniciativa do Concurso Nacional de Dramaturgia do Centro Cultural Português, estimulando a produção e a publicação desse género literário, ainda que em edições reduzidas de 300 e 200 exemplares.

 

ACTO III – O Drama, Cheiros e odores

 

Os cientistas explicam que os odores são produzidos por partículas em suspensão libertadas nos ambientes que nos cercam. Quando respiramos, essas moléculas são detectadas por receptores nos nossos narizes. Elas espalham-se pelo ar muito mais rapidamente em um ambiente quente. Por isso, os cheiros estão mais disponíveis quando as temperaturas se encontram a níveis mais elevados.

 

Curioso é que os cheiros ou os odores que mais ficam impregnados em nossas roupas, cabelos e narinas e que não saem são aqueles que não gostamos.

 

“Vai tirar essa roupa e tomar banho porque estás com um ‘cheiro frio’. Esfrega-te bem com sabão de barra e volta cá para eu te cheirar”, dizia-me a Mãe Liza quando chegava a casa depois de uma tarde a brincar no Quintalona ou na Praça Estrela.

 

Na obra dramatúrgica O Cheiro dos Velhos, a acção decorre do conflito entre a realidade e a ficção, entre a verdade e a mentira, entre o odor da covardia e o cheiro dos velhos, uma metáfora sobre o cheiro mofo do velho e caduco Estado burocrático, encarnada por Osvaldo Pio – por sinal, nada piedoso – funcionário público, e A Velha, utente para a qual não se tem respeito nenhum, já que sem nome e sem identidade.

 

Como é o cheiro dos velhos?!

 

Quem convive com idosos já percebeu que, à medida que vão ficando mais velhos, eles exalam um odor bastante característico (e não, necessariamente, ruim). Embora esse cheiro seja reconhecido em muitas culturas, médicos e pesquisadores ainda não conseguiram explicar exactamente quais são as suas causas. Sabe-se, contudo, que uma série de alterações na estrutura e no funcionamento da pele faz o nosso cheiro mudar.

 

Normalmente, associa-se o cheiro de velho ao mofo que causa aquele odor de lugar fechado ou de objectos guardados e que incomoda tanto. A questão é que o mofo não é algo que apenas incomoda por conta do cheiro, mas ele é também um problema para a saúde dos moradores, especialmente para quem tem alergias respiratórias.

 

A narrativa é montada pel’ A Velha para exigir respeito:

 

“Respeito! Respeito! É isso que eu quero. É isso que eu exijo: Respeito. Simples assim: Respeito” – A Velha

 

O passar dos anos deu-lhe sabedoria:

 

“Meu pai costumava dizer que eu era muito inteligente mas pouco esperta e nada sábia”. – A Velha

 

“O inteligente pergunta ‘como isto funciona?’, o sábio pergunta ‘qual é o valor disto? Será correcto usar isto?’ e o esperto pergunta ‘como posso usar isto para me enriquecer?’. Faz sentido.” – Osvaldo

 

A covardia fede!

 

Não é só a ignorância que é atrevida, a covardia fede:

 

“Sou orgulhosamente funcionário público, passei em concurso…” – Osvaldo Pio

 

“Sou um funcionário público, daqueles com o qual o homem e a mulher comuns têm a oportunidade de encontrar à sua frente e que serve de bode expiatório de todas as queixas contra o sistema. Eles não percebem, é claro, que eu sou apenas, tal como eles, uma minúscula e insignificante peça do sistema. (…) um homem cujo único crime foi trabalhar humildemente acreditando na necessidade de um sistema que todos desprezam, mas do qual todos querem sugar ao máximo as tetas.” – Osvaldo Pio

 

“Isto porque os teus olhos estão ainda embaciados pelo bafo dos professores que te educaram para servir.” – A Velha

 

“Tu és um rato amestrado nas minúcias burocráticas desta instituição – minúcias que criam obstáculos destinados a extorquir quem neles se atravessa.” – A Velha

 

“Estiveste, simplesmente, tanto tempo sentado nessa cadeira que acumulaste ares de respeitabilidade juntamente com o pó, a ferrugem, o bolor e o cheiro dos velhos, não é?” – A Velha

 

“A tua cobardia fede, tal como fedes ao cheiro dos velhos. Achas que conseguirias disfarçar de mim este fedor? Nem com mil banhos e unções de perfumes divinos. Fedes. Sempre fedeste, federás sempre!” – A Velha

 

Fim do acto

 

O texto/peça termina num dilema para os leitores/espectadores: deixar ou não deixar morrer esse funcionário público nas chamas:

 

”Votem em consciência! Não permitam que meras narrativas moldem o mundo em que vivemos. Votem pela verdade! Votem em mim!” – A Velha e Osvaldo Pio

 

Este é um texto de grande complexidade literária e uma história para ler, ver e ouvir.

 

E o que vimos, enquanto espectadores, foi um momento alto em que a representação juntou as duas linguagens – escrita e arte performativa – e reuniu o dramaturgo e o actor, fundindo-os.

 

Manuel Brito-Semedo

 

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