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Concepção Andreia Brandão

 

 

Nos textos anteriores, ficou delineado um percurso editorial construído sem pressa e sem ruído. Da escrita dispersa à edição em livro, a CRIoula MBS Editora pretende afirmar-se como um projecto organizado em ciclos, continuidades e escolhas conscientes. O Catálogo Editorial 2026 torna visível essa arquitectura; as Conversas no Poial vão levar ao encontro directo com leitores e criadores. Faltava ainda dar atenção a um elemento decisivo dessa construção: a identidade visual que acompanha e representa o projecto. O logótipo surge, assim, não como adorno, mas como parte integrante da sua coerência editorial.

 

A identidade visual da CRIoula MBS Editora assenta numa convicção simples: a forma participa do pensamento. A imagem, em vez de ilustrar a palavra, acompanha-a. Tal como os livros da casa, o logótipo privilegia clareza, sobriedade e duração, recusando a sedução imediata e o impacto efémero. Trata-se de uma opção consciente, alinhada com uma ideia de criação que aposta no tempo e não na pressa.

 

No centro do logótipo encontra-se o búzio, símbolo forte do universo atlântico cabo-verdiano. Associado à memória, à travessia e ao chamamento, remete para uma temporalidade longa, feita de vozes acumuladas, viagens e histórias transmitidas. No contexto editorial a CRIoula MBS Editora funciona como metáfora da palavra que atravessa o tempo e ganha sentido na relação com quem a recebe. É uma imagem que convoca continuidade e responsabilidade.

 

O desenho é orgânico e aberto. Sugere movimento e fluidez, sem fechar significados nem impor leituras únicas. Evoca o gesto artesanal e o ritmo do mar, proporcionando uma leitura durável. Também aqui a opção é pela contenção significativa: cada elemento cumpre uma função e nada procura sobrepor-se ao essencial.

 

A grafia CRIoula é, por si só, um posicionamento. As letras iniciais em maiúscula – CRI – condensam criação, crítica e crioulidade enquanto eixos de leitura do mundo. Não funcionam como rótulo identitário, mas sim como orientação intelectual e ética. A terminação oula remete para a mestiçagem linguística e cultural, para a vitalidade da língua e para a dimensão relacional da cultura crioula.

 

A designação MBS Editora, colocada com discrição, cumpre a função de assinatura e de responsabilidade autoral, conferindo  enquadramento e rigor ao conjunto, sem competir com o nome nem lhe retirar centralidade. É nessa medida que se introduz o equilíbrio entre liberdade criativa e o compromisso editorial.

 

A estrutura visual do logótipo é vertical e equilibrada. O símbolo ocupa o plano superior; o nome surge logo abaixo; a assinatura editorial encerra o conjunto. Esta hierarquia traduz uma ética clara: primeiro o sentido, depois a palavra, por fim a instituição que a sustenta. O espaço em branco integra a composição como elemento activo, criando margem para o olhar e para a leitura.

 

A paleta cromática reforça esta leitura. O azul-turquesa, próximo do verde-mar, convoca o oceano, a viagem e a fluidez cultural. O ocre-terra remete para a raiz, a memória e a ancoragem. Assim, mar e terra coexistem sem hierarquias artificiais, num diálogo contínuo entre horizonte e chão, constituído pelas cores que situam o projecto no espaço atlântico e na sua história.

 

Este logótipo, longe de marcar uma ruptura, consolida um caminho, dando forma visual a uma coerência já presente na escrita, nos livros e nas iniciativas públicas da CRIoula MBS Editora. A identidade visual fixa essa travessia, tornando legível uma ética de criação exigente e situada.

 

Criar um texto, um livro ou um logótipo é um gesto de responsabilidade: escolher o que merece durar.

 

Da escrita ao livro. Do livro à partilha. Da palavra à forma.

 

 

Nota

A identidade visual e o logótipo da CRIoula MBS Editora resultam de um trabalho rigoroso de pesquisa e criação desenvolvido pela designer gráfica Andreia Brandão, cuja leitura atenta do projecto permitiu traduzir visualmente a sua ética e orientação editorial.

 

 

Manuel Brito-Semedo

 

 

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