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Brito-Semedo, 29 Fev 24

Menino nascido na orela d’ mar, o poeta e novelista Daniel Filipe tem a reminiscência e os sons do mar das ilhas de Cabo Verde, talvez porque retirado dessa realidade muito cedo na sua infância. Os títulos dos seus livros assim o atestam – Missiva (1946), Marinheiro em Terra (1949), O Viageiro Solitário (1951), Recado para a Amiga Distante (1956), A Ilha e a Solidão (Prémio Camilo Pessanha sob o pseudónimo Raymundo Soares, 1957), O Manuscrito na Garrafa (novela proibida pela Censura, 1960), A Invenção do Amor e Outros Poemas (1961), Pátria, Lugar de Exílio (1963, livro de poesia proibido em 1972).
Daniel Filipe, Um homem do seu tempo
Daniel Damásio Ascensão Filipe (Sal-Rei, 11 de Dezembro de 1925 – Lisboa, 6 de Abril de 1964), saiu da ilha da Boa Vista ainda criança – com cerca de 2 anos de idade – levado pelo pai português, o Coronel Médico Gonçalo Monteiro Filipe, aí deportado por ter tomado parte numa reunião política de oposição ao governo. A mãe, Rita Maria Ascensão (1888 – 1985), era natural dessa Ilha das Dunas.
Daniel Filipe nunca voltou à sua ilha natal, mas viveu sempre a ela ligado – Se me recordo em bruma e mágoa,/ à solidão da ilha trago-a/ dentro de mim petrificada (A Ilha e a Solidão, 1957).
Em Portugal, Daniel Filipe fez os estudos liceais tendo sido funcionário público, jornalista, publicitário, poeta e ficcionista. Trabalhou na Agência-Geral do Ultramar e na área jornalística como co-director dos cadernos Notícias do Bloqueio, colaborador assíduo da revista Távola Redonda e do jornal Diário Ilustrado, e também realizador na Emissora Nacional, do programa literário “Voz do Império”.
Na imprensa da sua terra natal publicou alguns poemas no Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação. Em vida, figurou na Antologia da Terra Portuguesa – Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Macau e Timor, Lisboa, s/d (1963), e após o seu falecimento tem sido incluído em diversas antologias.
Daniel Filipe foi um homem do seu tempo e os seus textos reflectem o contexto sociopolítico em que viveu. Grande parte da sua poesia destaca-se pelo combate ideológico e pelo comprometimento social, o que lhe valeu o estigma de poeta neo-realista. Com a proibição do Pátria, Lugar de Exílio, em Março de 1972, a sua Pátria tornou-se, efectivamente, um lugar de exílio onde viria a falecer dois anos depois.
A sua vida e obra têm sido objecto de estudos e ensaios de que se destaca uma dissertação de mestrado, Uma recuperação de raiz: Cabo Verde na obra de Daniel Filipe, Praia, 1993, Instituto Cabo-verdiano do Livro, da brasileira Simone Caputo Gomes.
O Manuscrito na Garrafa, Um livro inconveniente

“Trata-se de um livro inconveniente, sob os aspectos político, social e moral. As passagens assinaladas nas págs. 11, 36 a 38, 46, 49, 52, 70, 73, 75, 77, 79, 89, 91, 119 a 121, 123, 125, 126, 133, 134, 141 e 149, revelam a sua índole.
Entendo que não deva ser autorizado a circular no País.”
O Leitor,
(Ass.) José de Sousa Chaves, Major
Relatório da Direcção dos Serviços de Censura, n.º 6.664, 10-10-1960
A dedicatória do livro a Adelino Tavares da Silva, Papiniano Carlos (1918 – 2012) e Urbano Tavares Rodrigues (1923 – 2013) – jornalistas e escritores filiados no Partido Comunista Português, desenvolvendo intensa actividade clandestina contra o regime de António de Oliveira Salazar – poderá ter feito soar o alarme e alertado os censores para um eventual “conteúdo subversivo” da obra. Distribuído para leitura a 7 de Outubro, três dias foram suficientes para se produzir o relatório e outros dois dias para o veredicto dos censores: “Proibido”. O lápis azul foi implacável, sem apelo nem agravo.
“Livro inconveniente” porque (i) com pensamentos e palavras sacrílegas em relação a “um Deus sem rosto, terrivelmente justiceiro, mas pactuante com a animalidade de cada um”. “E Deus – se há Deus, ou o que quer que seja – a divertir-se à grande com os nosso pequenos comércios, olhando do Olimpo estes seres miseráveis (…). Que náuseas isso me dá!”; (ii) contra a moral e os bons costumes com descrição de cenas de nudismo, “Na solidão da duna, Carlos ficou a vê-la despir-se, peça a peça…”; (iii) com referências explícitas a partes do corpo e à sexualidade, “Sentiu que o tomava um fiozinho de emoção e deu-lhe umas palmadas nas nádegas, para disfarçar. (…) O jogo dos sinais prosseguia”. “E, de novo, o quarto se encheu de rumores luminosos, de gemidos, de palavras ciciadas…”. “Lentamente, como quem busca o caminho esquecido, a boca de Carlos colou-se à pele lisa e morena, em beijos longos, sorvidos, violentos”; (iv) com posições políticas e reuniões de protesto, “Um grupo de democratas defendia a candidatura de um oficial do activo, servidor confesso da Situação, como um processo de abrir brecha no regime. O grosso da Oposição discordava, queria um candidato que desse seguras garantias de fidelidade à República e aos ideais democráticos”, “A eleição fora um desapontamento: os números oficiais tornados públicos davam a vitória ao candidato governamental por uma esmagadora maioria de votos”; (v) com degradação social e moral com mesas de jogos, bebidas…
Enfim, um acumular de referências a actos proibidos e ou censuráveis (?!) por uma sociedade dos bons costumes, pela moral ou opinião social. “Trata-se de um livro inconveniente, sob os aspectos político, social e moral”.
Uma urgência actual, A Invenção do Amor
Prestes a assinalar o centenário do nascimento de Daniel Filipe (1925 – 1964) e quando são passados sessenta e quatro anos da publicação de O Manuscrito na Garrafa e a lembrança do Poeta do Mar, do Amor e da Liberdade está a ficar cada vez mais esbatida na memória dos povos português e cabo-verdiano, urge publicar esta novela para recordar um tempo em que não existia a liberdade de pensamento e de expressão e havia uma mão forte da censura sobre todos.
Daniel Filipe faz parte da história da Literatura Portuguesa do século XX. Nem portugueses nem cabo-verdianos podem prescindir da sua obra e da sua memória. Ela pertence aos dois países – Portugal porque lá viveu, sofreu, amou e escreveu a sua poesia; Cabo Verde porque cá é a sua terra-mãe e permeia toda a sua obra.
A fechar, um fragmento da homenagem feita pela escritora e jornalista Maria Rosa Colaço (1935 – 2004) a Daniel Filipe, publicada no Boletim Cabo Verde, número de Abril-Junho de 1964:
[…] em vez de lágrimas, venho trazer um búzio para junto do teu nome.
Apenas um búzio, Daniel, para uma vez mais e para sempre, aí desse lado, te ficares a ouvir o mar longínquo da tua infância adormecida.
Apenas um búzio, para junto do teu nome.
– Manuel Brito-Semedo
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Corrigido no texto. Grato pela correção. Abraço.
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