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O Plano Nacional de Leitura de Cabo Verde (PNLCV) nasceu entre protocolos e discursos exemplares, mas continua longe das salas de aula, das bibliotecas e dos leitores. No papel, promete consagrar autores e formar leitores; na prática, limita-se a sublinhar as suas próprias intenções – e a esquecer o país que diz querer ler. O Plano criou cerimónia; o país continua à espera de páginas.

 

Pompa sem página

 

O PNLCV nasceu com cerimónia, fotografias, assinaturas e discursos que prometiam mundos e fundos. Dois ministérios envolveram-se, definiram objectivos ambiciosos – democratizar o acesso ao livro, certificar conteúdos, editar, reeditar, “consagrar autores”. Tudo impecável. Tudo muito alinhado. E, no entanto, continua a tropeçar no país que devia conhecer de cor.

 

E é justamente aí que o Plano parece sentir-se melhor: no papel, quietinho, sem o incómodo das escolas e das bibliotecas.

 

No país real – esse onde faltam livros, espaços de leitura e tempo para ler – o impacto ainda é discreto. Há Plano, sim. Mas falta país.

 

Eventos não fazem leitores

 

Há actividade: estórias contadas, oficinas animadas, “Cabo Verde a Ler” e muita fotografia para registo. O esforço merece nota. Mas actividade não é política pública. Se assim fosse, já teríamos uma revolução literária.

 

O Plano fala em democratizar o acesso ao livro, mas a maioria das bibliotecas municipais continua sem orçamento regular para aquisições, e muitas escolas funcionam com acervos estagnados, incapazes de acompanhar a produção literária contemporânea.

 

Falta continuidade, falta estratégia, falta acompanhamento – sobretudo falta aquela ideia básica de que formar leitores não é entreter, é cultivar.

 

Enquanto o Plano se mostra em eventos, a leitura continua entregue aos resistentes de sempre: professores e bibliotecários que fazem milagres com pouco.

 

Nas ilhas, a leitura insiste em viver. O Plano, quando aparece, vem para a selfie.

 

Autores? Só se for por acaso

 

Aqui a ironia dói mais. O documento fala em “consagrar autores”, mas não apresenta uma lista de escritores cabo-verdianos. A única referência disponível é de 2016 – antiga, incompleta e sem nomes. Nos relatórios, um único autor é mencionado, e quase por acidente.

 

O PNLCV fala muito de livros, recomendações e literacias, mas não oferece ainda aquilo que seria a peça central de qualquer Plano Nacional de Leitura: um catálogo público, completo e organizado de obras e autores por ciclos e anos. Existem, sim, listas dispersas – usadas em concursos, projectos e até no próprio sítio – mas falta a lista que realmente conta. E, sem essa base, tudo o resto fica a meio caminho entre a intenção e a promessa.

 

É como inaugurar um mercado sem saber quem são os agricultores.

 

A literatura cabo-verdiana existe: publica, vê o mundo, debate, cresce. O Plano, porém, limita-se a acenar de longe. Um catálogo vivo de autores, reedições regulares e orientações claras para as escolas seriam passos simples e urgentes.

 

Falta tudo… excepto o discurso.

 

Ler a realidade, não o press-release

 

O PNLCV existe. Mas existir não chega. Sem resultados, não passa de um dossier elegante numa prateleira do Ministério. Cabo Verde merece leitores, escolas com vida literária, bibliotecas que respirem e autores reconhecidos no próprio país.

 

E merece, sobretudo, um Plano que leia a realidade com a mesma atenção com que lê as suas próprias promessas.

 

No fim, resta a ironia maior: um Plano de Leitura que lê tudo – excepto Cabo Verde. E, enquanto o país espera por leitores, o Plano continua a folhear-se a si próprio.

 

Punhal cravado. Sem dó, mas com esperança.

 

 

N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.

 

 

Manuel Brito-Semedo

 

 

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