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Com esta nova Alfinetada, “O Tarrafal e a Fase que a História Quer Esquecer”, conclui-se um ciclo de reflexão iniciado com “Tarrafal, Memória e Silêncio” e prosseguido em “O Silêncio dos Muros”.

 

O Atelier Técnico sobre o Campo de Concentração do Tarrafal – Rumo a Património Mundial chega envolto em solenidade, discursos e boas intenções. Mas há silêncios que nem o protocolo consegue disfarçar.

 

Nos comunicados oficiais fala-se de 1936 e fala-se de 1961; repete-se, com voz de cerimónia, a liturgia da resistência, dos antifascistas e dos combatentes da liberdade. As mesmas datas, os mesmos nomes, as mesmas palavras – ditas e reditas até perderem o peso da dor e o brilho da verdade. Tudo certo. Tudo necessário.

 

Mas o Tarrafal teve três fases – e é precisamente essa terceira que a História continua a fingir não ver.

 

Depois de 1974, o campo não desapareceu: ficou. Ficou como ruína e como ferida. Foi reocupado, adaptado, esquecido, redescoberto. Tornou-se, por fim, museu  mas à custa de quantos silêncios?

 

Essa terceira fase, a do pós-campo, é a mais incómoda porque mostra o que se quis esconder: o embaraço da transição, o abandono das memórias menores, o pudor perante os presos de 1974-1975 – os detidos da descolonização, que ficaram entre regimes, sem culpa formada nem memória escrita.

 

Foram cinquenta e oito os presos cabo-verdianos, fazendo desta terceira fase a mais numerosa em reclusos nacionais. Na anterior, entre 1961 e 1974, tinham sido vinte, num cárcere onde predominavam guineenses e angolanos.

 

A diferença é gritante: em pleno tempo da liberdade, houve mais presos cabo-verdianos do que durante todo o período colonial. O campo, símbolo da repressão fascista, foi herdado e usado pelo novo poder  prova amarga de que a revolução ainda não libertou a memória.

 

Em O Silêncio dos Muros, escrevi: “Falta só resistir à tentação de varrer para debaixo do tapete os presos de 1974 e 1975 – esses que atrapalham a narrativa do heroísmo puro.”

 

Eis que a tentação regressa  agora com dossiês, relatórios e PowerPoints.

 

Fala-se em autenticidade e valor universal excepcional, mas omite-se a verdade simples: o Tarrafal não se encerrou com a Revolução. Continua a falar – através das suas ruínas, dos moradores, dos fantasmas e das perguntas que insistem em não caber nas actas.

 

Enquanto a terceira fase continuar fora do dossiê, continuará também fora da verdade.

 

E o Tarrafal continuará a ser, antes de tudo, um espelho – não do passado que tivemos, mas da memória que ainda não ousamos enfrentar.

 

 

N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.

 

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O Atelier Técnico sobre o Campo de Concentração do Tarrafal – Rumo a Património Mundial chega envolto em solenidade, discursos e boas intenções. Mas há silêncios que nem o protocolo consegue disfarçar.

 

Nos comunicados oficiais fala-se de 1936 e fala-se de 1961; repete-se, com voz de cerimónia, a liturgia da resistência, dos antifascistas e dos combatentes da liberdade. As mesmas datas, os mesmos nomes, as mesmas palavras – ditas e reditas até perderem o peso da dor e o brilho da verdade. Tudo certo. Tudo necessário.

 

Mas o Tarrafal teve três fases – e é precisamente essa terceira que a História continua a fingir não ver.

 

Depois de 1974, o campo não desapareceu: ficou. Ficou como ruína e como ferida. Foi reocupado, adaptado, esquecido, redescoberto. Tornou-se, por fim, museumas à custa de quantos silêncios?

 

Essa terceira fase, a do pós-campo, é a mais incómoda porque mostra o que se quis esconder: o embaraço da transição, o abandono das memórias menores, o pudor perante os presos de 1974-1975 – os detidos da descolonização, que ficaram entre regimes, sem culpa formada nem memória escrita.

 

Foram cinquenta e oito os presos cabo-verdianos, fazendo desta terceira fase a mais numerosa em reclusos nacionais. Na anterior, entre 1961 e 1974, tinham sido vinte, num cárcere onde predominavam guineenses e angolanos.

 

A diferença é gritante: em pleno tempo da liberdade, houve mais presos cabo-verdianos do que durante todo o período colonial. O campo, símbolo da repressão fascista, foi herdado e usado pelo novo poderprova amarga de que a revolução ainda não libertou a memória.

 

Em O Silêncio dos Muros, escrevi: “Falta só resistir à tentação de varrer para debaixo do tapete os presos de 1974 e 1975 – esses que atrapalham a narrativa do heroísmo puro.”

 

Eis que a tentação regressaagora com dossiês, relatórios e PowerPoints.

 

Fala-se em autenticidade e valor universal excepcional, mas omite-se a verdade simples: o Tarrafal não se encerrou com a Revolução. Continua a falar – através das suas ruínas, dos moradores, dos fantasmas e das perguntas que insistem em não caber nas actas.

 

Enquanto a terceira fase continuar fora do dossiê, continuará também fora da verdade.

 

E o Tarrafal continuará a ser, antes de tudo, um espelho – não do passado que tivemos, mas da memória que ainda não ousamos enfrentar.

 

 

N.A. – Esta crónica faz parte da série Alfinetadas, onde se afinam ideias, se questionam anúncios e se convoca o bom senso, mesmo quando há confettis no ar.

 

 

 Manuel Brito-Semedo

  

 

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