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Pê na Sapóte, Mon na Violão

Brito-Semedo, 18 Set 21

 

Porto Memória.jpeg

Sapataria JArte1.jpg

 

Homenagem a Armando Pong Sapateiro

 

 

Já’j pintál

Ca é bô cor… perdê bo valor

Catem sentimente… dor subi… la na céu

 

Bô sonhe ta f’cá na tchon

Ta vivê costa pa munde

Ta vivê d’um sol quadrode

Já’j abri sê quintál d’cruz

 

Oh… Nossa Senhora da Luz

Bem dzême porquê já’j ôfrêcê

Criston já perdê sê surrise

Na dor, d’um vida cançode

 

Dormi na tchon, cubrid d’giada…

Corrêpa cais… ba shpiá vida…

Na shperança… na mar i tchuva

 

Já’j Pintál, Letra e Música Jorge Lima Gomes / Djin Djob,

in Single “Amor & Música”, 2021, de Djin Djob

 

Reza a lenda que o ofício de sapateiro surgiu quando o homem percebeu a necessidade de proteger os pés dos obstáculos e de outras mazelas do clima e do solo.

 

No início, a profissão era muito discriminada, se comparada a outras tantas como, por exemplo, às de curtidores e carniceiros. Ao longo do tempo, foi ficando mais popular e, a partir de 1305, na Inglaterra, quando o Rei Eduardo I decretou que a medida de uma polegada deveria equivaler a três grãos secos de cevada, estabelecendo, assim, a padronização inicial para a fabricação de calçados entre os sapateiros, tornou-se tendência mundial.

 

Nos dias de hoje, lamentavelmente, a profissão corre o risco de desaparecer, tendo em vista a chegada das grandes indústrias do ramo.

 

Sapataria JArte3.jpg

Essa introdução para dizer que, quase por acaso, por mão de um amigo, descobri a Sapataria JArte, uma sapataria no Mindelo onde se faz consertos e forração e, o que é mais instigante, todos os tipos e tamanhos de sapatos. Saí de lá fascinado, com esse lugar tão emblemático, bem como com a encomenda de um par de chinelas de couro, bompabocêdescansápê, e o compromisso de feitura de um par de sapatos para quando houver material.

 

Ser sapateiro é uma tradição de família que vem de diazá na munde e tocador de violão também, conta Jorge Lima Gomes, melhor, Jorge Sapatêr, 52 anos, nascido e criado na Soncente.

 

O avô, Lela Bans, que emigrou para a Argentina e por lá morreu, chegou a ter uma pequena fábrica de sapatos com treze empregados. Já o pai, Raúl Sapatêr, jogador do Amarante, trabalhou na Fábrica de Sapatos dos irmãos Pereira onde desenvolveu a sua arte. Foi ele quem confeccionou o primeiro par de sapatos para o Bana, nos finais dos anos 50, quando este ia viajar para o estrangeiro. O Jorge herdou a profissão e os dons do pai. Sapateiro exímio – o pai, sim, esse é que era bom, diz na sua modéstia – e tocador de violão, trabalhou na Fábrica de Calçados SOCAL, unidade fabril que marcou uma época em São Vicente, tendo fechado as portas em 1992. Na sequência, Jorge transita para a Fábrica de Confecções GROWELA, de donos portugueses. Sentindo-se explorado, pega no seu violão e compõe Já’j Pintál, gravado nos EUA pelo músico cabo-verdiano Djin Djob. As filhas, Jessica e Jecileida, de 22 e 18 anos respectivamente, seguem as pisadas do pai. Estudantes universitárias, são também sapateiras na Sapataria JArte, oficina localizada na rua transversal à Rua do Tribunal, coincidentemente muito perto da antiga Fábrica de Calçados dos irmãos Pereira.

 

De se comemorar que ainda exista em São Vicente – ilha que, aliás, sempre teve tradição e grandes artesãos no fabrico e na reparação de sapatos – uma Sapataria JArte, para preservar este ofício que vem, sistematicamente, desaparecendo por falta de incentivo. Fica o desafio aos jovens, para que procurem conhecer e dar continuidade a essa bela arte!

 

Ao despedir-me, Jorge Sapatêr, compensou-me com Vint Escud, uma coladeira de sua autoria:

 

Ranjame vint escud

Pam t’má um grogue

Nha sangue t’koiôde

Nhas mon ti ta tremé

Nha corpe ti ta tremé

 

Casta de coza ê êss

Logue k’um ced dêss

Mi te spiá trabôi

Pam pode t’má um café

 

Nho Mateus d’zé

Grogue ê tê peskôss

S’el t’môbe cabeça

Grogue pol na sê lugar

 

Grogue ê um problema

Grogue ê um dilema

 

– Vint Escud, Letra e Música Jorge Lima Gomes / Helder "Cipi" Cipriano

in Álbum "Solera D'Nha Vida", 2018, de Rosa Mestre

 

– Ó Nice, por esta não esperavas, disse-me o meu amigo com uma palmada nas costas.

 

Simplesmente fantástico!

 

Manuel Brito-Semedo

 

 

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