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A Superintendente do Distrito Norte da Igreja do Nazareno de Cabo Verde, Leniza Soares, deu o pontapé de saída, neste 27 de Dezembro, no renascimento do "Quintal de Kevin", uma verdadeira instituição da ilha de São Vicente.

 

Para esse momento, tive o prazer de enviar um texto em jeito de resenha histórica/homenagem a esse recinto desportivo e cultural, braço evangelístico da Igreja em São Vicente.

 

Aqui deixo o texto, que tem o título deste post, para quem quiser ler:

 

O recinto que pretendemos recuperar e dar-lhe a dignidade que merece, terá nascido na década de 1960, quando a Igreja do Nazareno construiu duas moradias para missionários no Mindelo.

 

A construção de um espaço para a prática do voleibol, num primeiro momento, surgiu depois de na década de 1950 ter sido criado um espaço semelhante na cidade da Praia, que viria a ser chamado de “Quintalona”, e onde aquela modalidade desportiva foi introduzida em Cabo Verde.

 

E a experiência tinha sido boa, não apenas porque os jovens passaram a praticar uma nova modalidade desportiva, mas também porque desta forma a Igreja aproximava-se dos jovens, um aspecto muito importante da evangelização.

 

Não só no voleibol. No futebol, na Praia, a equipa conhecida por “Nazarenos”, integrada por jogadores que frequentavam a Igreja, participou em alguns dos conhecidos campeonatos de subúrbios.

 

O desporto, desde a primeira hora da Igreja do Nazareno em Cabo Verde, foi considerado uma maravilhosa avenida para chegar às pessoas, ao mesmo tempo que mantinha os jovens ocupados, longe de outras práticas nocivas, como o alcoolismo, o tabagismo e, mais tarde, a droga.

 

Em 1950, em São Vicente, também foram constituídas duas equipas de futebol com jovens da Igreja que competiam nos conhecidos “jogos de fralda”.

 

“Quintal dos protestantes” terá sido o primeiro nome dado pelo povo ao recinto desportivo, também conhecido apenas por “Quintal”, e para onde jovens da Igreja, mas também das redondezas e de praticamente toda a cidade do Mindelo se dirigiam, principalmente durante as tardes. O local era o centro da prática da “balizinha”, a versão crioula do futebol de salão.

 

O “Quintal” foi por muitos anos o único recinto cimentado e vedado para a prática da balizinha e voleibol, aberto ao público, em São Vicente.

 

A pouco e pouco, empresas e grupos de amigos passaram a escolher o “Quintal” para realizar treinos ou desfrutar de uma hora ou mais da prática do futebol, num ambiente reservado, em segurança e respeitado. O acesso era fácil, tão somente um contacto com o missionário Roy Henck, que morava na casa que dava para o espaço.

 

O voleibol era praticado, essencialmente, pelos alunos do Seminário Nazareno, durante a prática da classe de Educação Física, bem cedo.

 

Em meados da década de 1970, por iniciativa do missionário Duane Srader, recém-chegado a Cabo Verde, o “Quintal” ganhou mais uma modalidade, o basquetebol, juntando-se assim à ”balizinha” e ao voleibol. Pouco tempo depois, o “Quintal” viu desaparecer uma árvore que provocou lesões a muitos jogadores e recebeu uma mini-bancada.

 

Os dias no “Quintal” começavam bem cedo, logo com o raiar do sol, com jovens da Igreja do Mindelo a dominarem o local para uma a duas horas de futebol, antes de irem para as aulas.

 

As tardes eram um festival de bola, com jovens de várias proveniências a usarem o seu tempo livre de forma sã, longe do vício. O bom comportamento dos jogadores, apesar do calor do desporto, estava garantido pelo respeito pelo lugar porque se sabia que os nazarenos se primavam pelo bom comportamento, pelo desportivismo e pela boa conduta. Palavrões, habituées no desporto, no “Quintal” não se ouviam, e quando alguém deixava escapar um, era repreendido pelos próprios companheiros.

O “Quintal” fechava os portões logo após o pôr-do-sol.

 

No final da década de 1970, o recinto ganhou o seu nome definitivo: “Quintal de Kevin”. De forma natural, decorre do nome de um dos filhos dos missionários Roy e Glória Henck, Kevin.

 

Desde os primeiros anos da adolescência, Kevin, devido à sua forma muita aberta e amiga de ser, fazia amigos muito facilmente, calcorreava as ruas de Mindelo, onde ele nasceu, como qualquer um de nós, e também começou a jogar futebol, e bem. De forma natural, ao bom estilo da cultura mindelense, o local passou a ser identificado como “Quintal de Kevin”. Era recorrente ouvir grupos de jovens dizerem “hoje tem jog na Quintal de Kevin” ou “no ta incontrá da tarde lá na Kevin”.

 

Também por essa época, uma equipa que viria a tornar-se tricampeã de futebol de salão de São Vicente, nas provas então organizadas pela JAAC-CV, no Liceu Ludgero Lima, teve o “Quintal de Kevin” como seu campo de treino. O grupo, organizado e dirigido pelo conhecido comerciante Jorge Pong, treinava às segundas, quarta e sextas, a partir das 17:30 h, e de forma natural passou a chamar-se de “Nazarenos”, embora apenas três dos seus jogadores frequentassem a Igreja.

 

Treinada pelo conhecido, na altura, ex-jogador, Jon de Julia, a equipa conquistou três campeonatos e sempre com a referência de ser a equipa do “Quintal de Kevin”.

 

Mas o “Quintal de Kevin” foi muito mais do que isso, muito antes as meninas iam lá jogar ringue, durante algum tempo adultos usaram o espaço para fazer ginástica e manter o corpo em forma, serviu também como local para a prática do karaté e muito basquetebol.

 

Entretanto, desde os tempos do “Quintal”, ele teve outras vocações.

 

A Igreja do Nazareno realizou muitos eventos de diversão, como os conhecidos saraus, em que o teatro, competições várias, brincadeiras, algumas “ bem intencionadas” como “perguntas ao morto”, marcaram noites de muitas gargalhadas, sempre com muito “chalalá” e pipocas. Foram momentos preciosos de amizade, aprofundamento de relações e criação de um clima de verdadeiros irmãos em Cristo.

 

No sentido lato, o “Quintal de Kevin”, com o desporto à cabeça, foi um braço estendido do evangelismo que se fazia então de forma muito intensa em São Vicente. Quantos jovens não conheceram Deus depois de terem ir parar lá para jogar bola?! Quantas pessoas em São Vicente, até hoje, dizem que a sua personalidade e forma de ser foram aí moldadas, quando “não havia maldade”, segundo muitos?!

 

Milhares de mulheres e homens de hoje têm a marca do “Quintal de Kevin”, de outrora, que, qual enviado de Cristo, também, como espaço, contribuiu para cumprir a grande comissão deixada por Jesus: “vão fazendo discípulos”, mesmo num recinto desportivo.

 

E há muitos mais para serem feitos discípulos no “Quintal de Kevin” que deseja receber, e bem, os seus visitantes e continuar a ser esse braço estendido da Igreja. Longa e boa vida ao “Quintal de Kevin”.

 

Vamos todos colaborar!

 

Nota pessoal: Depois da minha casa, na minha infância, adolescência e juventude, o lugar onde passei mais tempo foi no “Quintal de Kevin”. Voltasse tudo ao início, voltaria a fazer o mesmo.

 

Álvaro Ludgero Andrade (Alvarito)

 

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Kevin Henck, o Patrono

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Fotos:

1. O estado de degradação do recinto, onde se pode ver o meu antigo companheiro de “Os Nazarenos” Fefa Vasconcelos, ainda em grande forma.

As restantes são fotos da Celebração do Natal e início da reconstrução do "Quintal de Kevin", hoje, enviadas pela Superintendente Distrital.

2. Kevin Henck, o Patrono, menino em São Vicente com os pais (por trás do pai) e irmãos em São Vicente; Kevin adulto (EUA, 2017). 

 

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