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Em Março foi a partida e a perda do Jorge Maia, em Junho, do Daniel Barros e em Outubro, do Manuel Sança. Muita perda para um curto espaço de tempo. Todos grandes amigos e antigos colegas no ministério. São vivências e memórias de, pelo menos, cinquenta anos, que nos deixam a todos os que com eles conviveram, mais pobres. Parafraseando o Poeta – Q’ónde èje parti nôs tude morrê um czinha.

 

O Sança perfilou os nomes dos filhos, todos nascidos na Brava, com a letra ‘J’ – Joel, Jónatas, Joquebede, Jetro e Jedida. Escolhi evocá-lo de forma simples e genuína como ele era, destacando a nossa relação introduzindo-a com a letra ‘C’ como inicial – Companheiro|Camarada, Colega, Compadre. O Sança acharia piada, daria aquela sua estrondosa gargalhada e exclamaria: ‘Só tu, meu Compadre!’

 

  1. Companheiro | Camarada

 

Tinha eu 13 anos quando cheguei à Igreja do Nazareno e o Sança, melhor, o Ti Lela como o tratávamos, já lá estava mas não me lembro bem dele devido à nossa diferença de idade. Só viríamos a ser companheiros e camaradas quando fomos aceites como Alunos Prospectivos do Seminário. O grupo era constituído por Manuel Sança Gomes (Sal), Jorge Maia Lopes (Santa Catarina de Santiago), Eugénio Rosa Duarte (Brava) e Manuel Brito Semedo (São Vicente).

 

O Sança e eu, bem assim como muitos da nossa geração, não tivemos a oportunidade de sermos meninos do liceu. Como estudantes trabalhadores, no horário pós-laboral, fizemos os nossos estudos secundários e no final do ano lectivo auto propunhamo-nos para o exame como alunos externos – 2.º ano, secção de letras, secção de ciências do 5.º ano, disciplinas do 7.º ano (posteriormente curso complementar) – tarefa árdua para jovens ávidos de conhecimento.

 

Em Outubro de 1972 esses Alunos Prospectivos estavam aptos para entrar para o Seminário Nazareno e iniciar os estudos para o ministério. Começamos, assim, uma longa caminhada, não a quatro, mas a três.

 

O Sança gostava de gravata e usava-a com regularidade. Para ele, só se estava bem vestido quando se punha gravata. Podia ser sem casaco, mas não sem gravata! Nas visitas pastorais que fazíamos à casa dos crentes, muito incentivado pelo nosso professor da prática pastoral, nós os seminaristas íamos sempre bem-postos, que é como quem diz, de casaco e gravata. Éramos os ‘três mosqueteiros de gravata’, inseparáveis, um por todos e todos por um! Havia um 4.º mosqueteiro, Eugénio D’Artagnan, mas esse vai entrar em outras histórias.

 

Certa vez estávamos nas imediações da Igreja Católica e alguém nos abordou perguntando: – ‘Senhor, senhor, quem morreu?’ É escusado dizer que ficamos danados com o que consideramos ser um despropósito. Já não se podia andar de casaco e gravata no chão de São Vicente que não se pensasse que era para ir a um funeral! Hoje rio-me dessa nossa forma americanizada de vestir numa terra onde faz tanto calor!

 

Classe especial e única, segundo Dona Idalina Barreto, a governanta do Seminário, mais por causa do Sança, sempre prestável, pois era quem tinha a incumbência de todas as noites, por volta das dez horas, de a ir buscar à casa da comadre Arlinda Lopes aonde ia ver a sua novela brasileira. Mas isso não impedia que quando ela se zangasse connosco nos apelidasse de ‘safardanas’, com o devido respeito pelo uso da palavra.

 

A verdade é que fomos a classe charneira, no sentido em que servimos de traço de união entre gerações de seminaristas e de pastores com visões diferentes do mundo, tendo nós sido a última leva de formados antes da independência nacional com tudo o que isso viria a implicar.

 

  1. Colega­

 

O 25 de Abril de 1974 apanhou-nos aos três – Sança, Maia e eu – em São Vicente frequentando o Seminário Nazareno tendo os missionários americanos Wood, Henck e Stroud como professores das principais matérias.

 

Às pressas, porque o momento político deixava no ar algumas dúvidas e temores quanto ao futuro, decidiu-se antecipar a conclusão do curso, fixando o mês de Março como a data para o seu término e a colocação nas igrejas aconteceu entre Abril e primeiros dias de Julho.

 

O Sança foi colocado na ilha Brava, o Maia no Fogo e eu, em Santiago, Santa Catarina.

 

  1. Compadre

 

Os nossos primeiros filhos – Joel Abner, Daniel Jorge e Eliezer Emmanuel – nascidos nesse ano de 1975, têm diferença de apenas dias. De colegas passamos a compadres (o Sança e o Jorge Maia duplamente compadres), mais por iniciativa do Sança, estreitando ainda mais a relação de amizade, principalmente entre os dois vizinhos de ilha.

 

O mundo deu voltas, os três mosqueteiros, mais D’Artagnan, seguiram percursos por vezes diferentes mas a amizade manteve-se firme. Os reencontros a dois eram sempre uma festa. Nos últimos tempos o Sança falava na necessidade de os três mosqueteiros se encontrarem – mas isso acabou por não acontecer.

 

A última chamada telefónica que recebi do Sança foi no seu regresso da cerimónia fúnebre do colega e amigo Daniel Barros para uma palavra de ânimo. Depois de me informar e descrever como tinha sido tocante a cerimónia fúnebre na igreja e de como tinha apreciado o meu depoimento-testemunho em vídeo, ele não se conteve: – Compadre, e a gravata?!

 

Fiquei de ligar ao Sança para lhe dizer que, afinal, tinha usado gravata na cerimónia de homenagem ao Daniel na Igreja da Praia, mas isso não foi feito de imediato e acabou por não acontecer pois o meu compadre partiu abruptamente sem nenhum aviso prévio.

 

Foi assim o Sança para mim, um Companheiro|Camarada, um Colega e um Compadre muito amigo e é assim que o quero guardar na minha memória.

 

Em 1983 participei na Assembleia da celebração dos 75 anos da Igreja do Nazareno realizada cá na Brava. O Pastor da Igreja local era o meu colega Sança, tendo o Rev. Francisco Xavier Ferreira, antigo pastor aposentado e a viver nos EUA, vindo participar como convidado especial. Fomos recebidos no cais com foguetes, tal como fomos agora recebidos com música no Porto da Furna.

 

Em 2001, pelo Centenário da Igreja do Nazareno, eu estava em Moçambique e o Sança, que vivia nos EUA, veio participar nas celebrações.

 

Soube que o Sança andava entusiasmadíssimo com a possibilidade de vir à Brava para a celebração dos 120 anos da Igreja do Nazareno respondendo ao convite da organização da Igreja. Não podendo ele estar aqui presente, decidi eu então vir participar nas comemorações em sua memória e homenagem.

 

Uma última nota para terminar. Desde Junho de 2019 o Sança vinha pastoreando a igreja que, originalmente, tinha sido a Church of People, a Igreja do Povo que, nos idos de 1901, tinha enviado João José Dias à Brava. Fechava-se, assim, o ciclo e cumpria-se a lei do retorno expressa em Eclesiastes 11:1 - «Lança o teu pão sobre as águas porque, depois de muitos dias, o acharás».

 

Envio daqui um abraço fraterno à comadre Paula, aos meus sobrinhos, aos familiares e à comunidade nazarena.

 

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Ôje, nôs tude morrê um czinha.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

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1 comentário

De Anónimo a 21.11.2021 às 22:55

Vénias minhas. 

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