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Mindelo celebra os 90 anos de Claridade

Brito-Semedo, 12 Mar 26

 

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Há datas que não pertencem apenas ao calendário: pertencem à memória profunda de um país. Em Março de 1936, um pequeno grupo de jovens escritores ousou dizer Cabo Verde de outra maneira. Chamaram a esse gesto Claridade – e, desde então, a palavra ganhou nova densidade nas ilhas.

 

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Li com interesse o anúncio da realização da 1.ª Feira Internacional do Livro de Cabo Verde. A iniciativa merece aplauso. Um país que lê é um país que pensa – e um país que pensa dificilmente se perde de si próprio.

 

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Em Março de 1936, quando surge Claridade em São Vicente, Cabo Verde existia como território administrado, mas ainda não se tinha assumido plenamente como sujeito de pensamento. Era descrito a partir de fora, enquadrado em categorias alheias, explicado por narrativas que raramente partiam da sua experiência concreta.

 

A revista não apresentou manifesto nem proclamou rupturas estridentes. Fez algo mais exigente: começou a olhar o país por dentro.

 

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Antes da Arma, a Palavra

Brito-Semedo, 23 Jan 26

 

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Celebrar heróis é legítimo. As comunidades precisam de referências, datas e figuras que organizem a memória colectiva. O problema surge quando a celebração se transforma em culto e o culto dispensa a reflexão.

 

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Entre 1901 e 1909 nasceu a geração que deu forma à modernidade literária cabo-verdiana e ensinou o país a pensar-se antes mesmo de existir como Estado. Às vésperas das celebrações de 2026–2027, importa aprofundar esse tempo fundador – não como exercício memorialista, mas como critério para pensar a liberdade, a cultura e a democracia.

 

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Baltasar Lopes e a Boina Basca

Brito-Semedo, 29 Set 25

 

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Quando o estilo se transforma em memória cultural

 

 

Ao Leão Lopes

 

 

Poucas imagens terão ficado tão gravadas na memória colectiva cabo-verdiana como a de Baltasar Lopes de boina basca e óculos redondos, olhar firme, sereno e inquisitivo. Esse retrato não é apenas a fotografia de um homem; é a síntese de uma geração que ousou pensar o arquipélago em diálogo com o mundo. Essa boina, afinal, não era um detalhe qualquer: trazia consigo histórias, significados e ecos de outras geografias.

 

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Em Homenagem ao Poeta Jorge Barbosa

 

Enquanto o primeiro número da Claridade, já pronto há muito no original, era preparado para impressão na tipografia do Mindelo – donde só viria a sair em Março de 1936 – o Editorial Claridade apresentou ao público, em Dezembro de 1935, o livro de estreia de Jorge Vera Cruz Barbosa (Santiago, 1902 – 1971), Arquipélago, que é como que o prelúdio do aparecimento daquela revista literária.

 

A capa é da autoria do artista plástico modernista Jaime de Figueiredo (Praia, 1905 – 1974), que também escreve uma apreciação crítica tendo o texto sido impresso numa cinta que envolve o livro:

 

“Um ritmo vital próprio, perfeitamente nuançado, aflora hoje no complexo sentir humano: a psique atlântica.

 

O infinito azul que nos rodeia, a distância que nos envolve e beija, sublimaram de Sonho a longa simbiose dos sangues…

 

E fluindo sempre para o diferenciado, rasga-nos a vida novo ciclo.

 

Esse processus – consciencializando-se – determinará valores virgens, um inédito clima emocional, o nosso verdadeiro caminho para a integração viva na alma do mundo.” (sic)

 

Com este livro minúsculo, de apenas oito poemas, Jorge Barbosa entra para a história da literatura moderna cabo-verdiana como o anunciador da sua viragem para os problemas da terra, assumida pelo movimento literário ligado à revista Claridade (1936-1960).

 

O livro é uma homenagem à memória do Pai, Simão José Barbosa, enquanto os poemas são dedicados a amigos do grupo da Claridade e a uma prima-direita:

 

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'Claridade', Fincar Âncora em Terra

Brito-Semedo, 30 Out 16

 

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Cidade do Mindelo. Foto Fritidsresor 

 

 

A Revista Claridade está umbilicalmente ligada à Cidade do Porto Grande e à Ilha de São Vicente.

 

Nas décadas de 20 e de 30, do século XX, São Vicente era a mais importante das ilhas do Arquipélago pelo seu movimento de navegação marítima, contribuindo com dois terços do rendimento total da Colónia, e pelas condições únicas que possuía e que proporcionaram o surgimento de um movimento cívico, literário e cultural da envergadura do Movimento da Claridade.

 

Senão, vejamos: (i) tinha um operariado activo e consciente; (ii) tinha uma burguesia esclarecida, ciente dos seus direitos e disposta a criar uma ampla frente para a defesa dos interesses da Colónia; (iii) tinha uma elite intelectual comprometida e politizada; e (iv) tinha uma sociedade civil de fácil mobilização à volta de causas.

 

1. Um Operariado Activo e Consciente

 

Essa tradição vem da sua experiência laboral na boca do porto onde tinha de defender os seus interesses junto das companhias inglesas de carvão, dos armadores ou dos Shipshandlers. Recorde-se que, em Dezembro de 1913, foi criada em Mindelo uma Associação Operária 1.º de Dezembro e, estando Pedro Cardoso em S. Vicente, discursou na cerimónia de tomada de posse dos seus corpos sociais, tendo dedicado aos operários mindelenses, o poema “Unidos, Avante”, onde invoca “Marx, o Mestre venerando”. Posteriormente, em Setembro de 1921, foi fundada a Associação Operária Caboverdeana de Socorros Mútuos, que viria a desempenhar um papel importante na defesa dos interesses dos trabalhadores da ilha.

 

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Os 80 anos da 'Claridade'

Brito-Semedo, 10 Out 16

 

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Surgida em Março de 1936 na cidade do Mindelo, a Claridade – revista de artes e letras completou os oitenta anos. É nosso propósito assinalar esse facto, enquanto marco de uma viragem na literatura cabo-verdiana, e homenagear o seu núcleo fundador e dinamizador constituído por Baltasar Lopes (São Nicolau, 1907 – 1989), Jorge Barbosa (Santiago, 1902 – 1971), Manuel Lopes (São Nicolau, 1907 – 2005) e João Lopes (São Nicolau, 1894 – 1979).

 

No aspecto formal, a Claridade significou o rompimento com as formas clássicas quanto à rima, métrica e géneros literários, ao mesmo tempo que foi uma “afronta” ao purismo da língua, devido à convivência do crioulo com o português num hibridismo nunca antes pensado ou ensaiado. Porém, a renovação formal só aparece como consequência e necessidade da adequação da língua a uma nova temática.

 

Embora sem um programa expresso, o movimento literário que surgiu em 1936 com a Claridade, irrompeu com o propósito de “fincar os pés na terra cabo-verdiana”. É evidente a alegoria de corpo inteiro: com a cabeça para pensar a literatura que deveria convir à terra que os pés pisavam.

 

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Em Março de 1936 Chiquinho anunciou-se em papel de revista. 80 anos depois, Chiquinho regressa embrulhado em papel de jornal.

 

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Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

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Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

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