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Para as Netas Liana, Alyiah e Nicole

 

 

Quando éramos pequenos, o mundo parecia caber inteiro nas nossas mãos. Não havia brinquedos de marca, nem comandos, nem écrans tácteis a ditar os gestos. O luxo era outro: o tempo livre, a rua por explorar, e uma imaginação sem fronteiras. Talvez por não termos muito, tínhamos tudo.

 

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Crónica da Cegonha

Brito-Semedo, 15 Nov 24

 

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Ao André e ao Calutcha, Companheiros de infância

 

A voz do outro lado da linha identificou-me de imediato, saudando-me como Lalela da Xanda da Nha Liza. Era uma chamada inesperada, mas cheia de propósito: dar os parabéns ao André de Nhô Gûste, meu amigo de infância. Desde o romper do dia, sentia essa vontade de o contactar, quase como se tivesse uma missão especial a cumprir hoje.

 

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Homenagem à Mulher Cabo-verdiana

Brito-Semedo, 27 Mar 15

 

Hoje a minha homenagem vai para todas as Mulheres Cabo-verdianas, invocando as mulheres da minha vida, a Mãi Xanda (São Vicente, 1936 – 2009) e a minha Mãi Liza (São Vicente, 1907 – 2001), que me fizeram ser o que sou hoje. O meu reconhecimento!

 

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 Luísa Maria Fernandes, Mãi Liza

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Alexandra Luísa Brito, Mãi Xanda

 

 

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Post 1.000.º na "Esquina do Tempo"

Brito-Semedo, 29 Jun 12

 

Parece incrível, mas é verdade! O Na Esquina do Tempo, criado a 15 de Fevereiro de 2010, para divulgar as Crónicas de Diazá (Praia, 2009),  acaba de editar, dois anos e quatro meses depois, o seu post n.º 1.000! Para celebrar este número redondo, o Na Esquina reedita aquele que foi o seu post n.º 1, "As Esquinas das Estórias".

 

Recordo que, a 18 de Outubro de 2011, no Dia Nacional da Cultura, em homenagem ao seu patrono, Eugénio Tavares, o Na Esquina passou a ser "Magazine Cultural Online", com edição diária. Desta data até agora, já registou 56.204 visitas, vindas dos mais diversos países, tais como Estados Unidos da América, Brasil, Argentina, México, Portugal, França, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Inglaterra, Alemanha, Áustria, Noruega, Suécia, Espanha, Itália, China, Rússia, Singapura, Tunísia, Senegal, Angola, Moçambique, África do Sul, Etiópia, Kowait e, claro, Cabo Verde, com 115.141 vizualizações de página. O meu muito obrigado aos leitores!

 

O maior piropo que o blogue já teve foi o recebido por estes dias de uma Amiga, o qual não resisto a partilhar:

 

“Só queremos que continue a gostar de alimentar a ‘Esquina do tempo’, a que deste lado gostamos de nos encostar (uns à tardinha, outros de madrugada, outros no telefone no meio de um autocarro cheio ☺”.

 

Só por isso, valeu, Trêza :-)!

 

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O Meu 1.º de Maio de Diazá

Brito-Semedo, 1 Abr 12

 

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Casa de esquina onde nasci, Chã de Cemitério, Mindelo. Foto Maria Catela, 2010 

 

 

“A memória nostálgica dos lugares encantatórios […], a vila da infância. Dessa infância, donde vêm as imagens e as emoções que norteiam a vida. Toda a vida: não há flecha que não tenha o arco da infânica” - Manuel Alegre, in Alma, 1995

 

O parto, ocorrido na casa da Chã de Cemitério, na cama da Nha Liza, foi muito difícil e trabalhoso – só viria a acontecer muito tarde da noite, eventualmente de madrugada, depois de muito trabalho – porque o menino era muito gordinho e preguiçoso e a mãe, inexperiente, não ajudava muito.

 

A Nha Júlia, nossa vizinha e minha parteira, contava-me este último episódio vezes sem conta, dizendo naquele seu jeito maroto, que eu tinha “maltratado” muito a Xanda e que, até ela (Nha Júlia) morrer, eu não lhe poderia pagar pela canseira que teve comigo.­ É que ela ficou com o pescoço intriço[1] por quinze dias, pela forma como a Xanda a agarrou durante as contrações e na hora da expulsão da criança!

 

Sempre fui uma criança muito agitada, com “bicho-carpinteiro no corpo” como diziam, e a Xanda relacionava isso com o facto de eu ter nascido nas vésperas da festa de Santa Cruz (1.º de Maio), na Salamansa, dia de muita trupida[2], do tocar-tambor, do colar[3] e de muita confusão, seguida das festas juninas de Santo António e São João, na Ribeira de Julião, e de São Pedro, em São Pedro.

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Mãi Xanda

Brito-Semedo, 4 Set 11

   

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Foto de M. Brito-Semedo, Praia, 2009

 

 

Alexandra Luísa Brito

 

S. Vicente, 24.Fev.1936 – 04.Set.2009

 

 

A Empresa das Águas do Madeiral que, a 27 de Maio de 1886, fez chegar as águas das nascentes do Madeiral e do Madeiralzinho à cidade do Mindelo, está associada a todo o mindelense nascido até aos finais da década de 50, princípios de 60. Depois disso, há os da geração da água dessalinizada – os da água da Jaida[1], nas décadas de 60 e 70, e os da água da Electra[2], depois disso.

 

A água do Madeiral era armazenada no depósito situado no Largo da Estação, hoje Praça Baltasar Lopes da Silva, com a entrada do público para a compra de água – em vales de dois tostões a lata – nas fachadas  maiores do prédio e a entrada geral, do lado que dá para o largo onde hoje é a praça de táxis. Junto a cada uma das entradas postava-se um número razoável de mulheres e meninas a vender de tudo um pouco, especialmente produtos comestíveis, para satisfazer as pessoas que para lá iam, para a bicha, de manhã muito cedo.

 

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Natal de Diazá

Brito-Semedo, 24 Dez 10

 

Em Homenagem à Mãi Liza, à Mãi Xanda e à Dade

Para Mili, Ely e ,

 

Com os votos de um Feliz Natal!

 

 

A festa de Natal era algo que não havia na nossa casa da Chã de Cemi-tério, mas sempre tive um presépio lindo para admirar, o da casa da D. Piedadinha de Nhô Lela Miranda. É que ela, católica praticante, leva-va dias e dias a preparar a comemoração, que consistia na germinação da cevada para produzir as plantinhas dos campos, na criação dos montes com papel pardo de embrulho, na feitura dos lagos a partir de pedaços de espelho, na arrumação das figuras tradicionais de gesso e, claro, na preparação da consoada.

 

Por essa ocasião, arranjava sempre pretexto para ir a casa da Dade e do Pa Lela – a forma carinhosa como os tratava – que era na sequência da nossa, logo a seguir à da Nha Nené d’ Virisse, só para poder dar uma espreitadela à ornamentação do presépio. 

 

No dia festivo, a Dade servia-me sempre refresco com bolinhos secos, figos e cake[1]. Quando troquei as calças curtas de suspensórios pelas de pernas compridas, o refresco deu lugar a um cálice de licor caseiro de menta, cujo sabor guardo ainda em memória.

 

Durante a quadra festiva, era hábito sair a seguir ao jantar com a Mãi Liza, para ver as montras. Eu esborrachava o nariz nos vidros das mais importantes lojas da Morada – Casa Leão, Casa Confiança, Casa Ribeiro de Almeida e Casa Metrópole – para, assim, poder ver melhor os brinquedos expostos. Sabia de antemão que não receberia nenhum deles como prenda de Natal, mas não punha seita[2], apesar de, no meu íntimo, os desejar. O mais normal seria receber uns balões, alguns drops e alguma roupa nova ou, excepcionalmente, um carrinho de plástico ou ainda, com muita sorte, uma bola de borracha.

 Foto de Jorge (Djô) Martins, 'Património Fotográfico do Mindelo" - Loja Ribeiro de Almeida, anos 60

   

Só passei a ter um Natal verdadeiramente meu, religioso e de família, depois de me casar e montar casa própria, aos 23 anos, mais precisamente a partir do nascimento do meu primeiro filho, cujo segundo nome, já em si, é simbólico – Emmanuel[3]. No mês de Julho desse ano de 1975, dois dias antes da Independência Nacional, cheguei a Santa Catarina, ilha de Santiago, como Pastor da Igreja do Nazareno, tendo o meu filho nascido no dia 3 de Novembro, pelo que a comemoração do Natal desse ano viria a ser marcante em todos os sentidos.

 

As responsabilidades da Igreja tornavam a época natalícia bastante trabalhosa e absorvente, com muitos ensaios de poemas, representações e cânticos, abarcando crianças, jovens e adultos, em diferentes horários. Apesar do envolvimento do casal pastoral, ficando, a celebração, por vezes, praticamente reduzida à sua dimensão religiosa, arranjávamos sempre espaço para a família, sobretudo quando os filhos eram ainda muito pequenos.

 

Muitos anos depois, quando a minha vida profissional e pessoal deu uma volta drástica e eu vivia já sozinho com os filhos, entrou nela uma mulher que haveria de juntar às nossas tradições natalícias o seu toque europeu. Porque se encontrava no estrangeiro a preparar o doutoramento, passava o seu Natal com a família portuguesa e juntava-se a nós em Janeiro, para connosco fazer uma segunda edição no Dia de Reis. Por essa ocasião, preparávamos e enfeitávamos a casa com motivos festivos, mas, na falta de uma árvore de Natal, ela e os meninos resolviam o problema com engenho e arte. Usavam os fios prateados e doirados de enfeite e, com eles, desenhavam na parede da sala a forma de um pinheiro. Durante três anos, foi assim a nossa árvore de Natal. E que bonita que era!

  

A nova Mãe-Natal trouxe, também, consigo a prática da troca de prendas. A melhor de todas foi aquela que recebi quando os meninos foram desafiados a arranjar uma para o Pai. Depois de lhe justificarem que não tinham essa prática porque o dinheiro não chegava, ela explicou-lhes que me podiam oferecer algo que não custasse nada, mas que fosse feito por si próprios e que soubessem que eu iria apreciar. 

 

Nessa nossa noite de Natal, comemorada em Janeiro, entendi pelo Gé, o meu caçula[4], que mal se podia conter, e pelo espírito de conspiração que pairava no ar, que me estava a ser preparada alguma surpresa. Chegada a hora, o Ely foi buscar o teclado e os dois dedicaram-me uma música, cantando uma letra da sua autoria, que me comoveu e compensou por todos aqueles anos da minha infância em que não tinha tido presente:

 

Brito é um bom Pai / ele ê um gajo d’scontra. / Pai moda êl ka tem, / el’ê, el’ê el sô. / Êl tá sacrificá tcheu, / tud pa sês dôs fidje. / Pai moda êl ka tem, / el’ê, el’ê el sô![5]  

 

Os rapazes cresceram, tornaram-se adultos e, hoje em dia, comemoram a data com as suas novas famílias, lá na Terra Longe.

 

- M. Brito-Semedo

 

Ver e ouvir aqui a História do Natal Digital e Happy Christmas, de John Lennon

 

 


[1] Bolo.
[2] Fazer birra.
[3] Deus connosco.
[4] Filho mais novo.
[5] “Brito é um bom Pai / ele é um gajo compincha. / Pai como ele não há, / ele é, ele é único. / Ele sacrifica-se bastante, / tudo para os seus dois filhos. / Pai como ele não há, / ele é, ele é único“. 

 

 

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1. Nessa manhã de primeiro de Junho de 2009, acordei muito tarde, pois na véspera tinha estado ao computador até altas horas da noite, com o sentimento do dever cumprido e muita ansiedade para ler à Mãi Xanda a sua crónica de diazá. Era a última de um conjunto que tinha estado a preparar e aquela que mais tempo me tinha tomado, porque a mais dolorosa.

 

Esse seria o meu primeiro, e último, Dia da Criança, pois a Mãi estava gravemente doente e sabíamos que não ia durar muito mais. Por isso, tinha decidido ir almoçar com ela e levar-lhe a crónica!

 

Expliquei-lhe o propósito dessas crónicas e li-lhe a que lhe tinha acabado de fazer: Xanda M’nininha Bnitóna. Chegado ao fim, ela suspirou profundamente e disse: – “B’nit i triste!... Léla, este livro é a estória da minha vida?!”, a que lhe respondi: – “Não, Xanda, é a estória da minha vida onde falo de ti”! Nessa hora, decidi que ia publicar as crónicas em livro e tinha de o fazer o mais rapidamente possível!

 

Foi assim que surgiu esse livrinho, como um tributo a três gerações de mulheres que marcaram a minha vida – Mãi Liza, minha avó; Xanda, minha mãe; e Silvinha, minha filha caçula – e um reconhecimento às associações filantrópicas que vêm fazendo um trabalho extraordinário de apoio e de solidariedade, neste caso, a Associação Cabo-verdiana de Luta Contra o Cancro.

 

Desde a primeira hora houve o envolvimento e o apoio do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, na pessoa do seu Presidente, Dr. Joaquim Morais, e de vários outros amigos de diazá como o Tchalê Figueira, que se prontificou a fazer as ilustrações; o Dr. Manuel Faustino, que aceitou escrever o epílogo; a Tita Rocha, que se disponibilizou a fazer a maquetagem; a Fátima Bettencourt, que foi mobilizada para fazer a apresentação, na Praia e em S. Vicente; o Bino Baptista, Foto Pingo d’Oro, que fez a reportagem fotográfica e o Benvindo Neves, que se ocupou da reportagem vídeo; os músicos Djick Oliveira, Daniel Benoni e Janito Mariano, que aceitaram animar e abrilhantar o ambiente da apresentação do livro.

 

3 de Agosto foi o dia marcado para o lançamento do livro, para os três filhos poderem estar presentes, mas confesso que andava preocupado pois a Mãi Xanda piorava a olhos vistos. No dia aprazado, lá estava ela na primeira fila, de roupa e sapatos novos, aguentando as dores estoicamente, para me fazer essa vontade e dar-me satisfação. Seria a última vez que a Xanda sairia à rua. Passado precisamente um mês, viria a falecer!

 

O acto do lançamento do Na Esquina do Tempo – Crónicas de Diazá, com a Sala de Conferências da Biblioteca Nacional completamente lotada, foi um momento de festa e de muito afecto. O ponto alto da noite foi a entrega simbólica de um exemplar do livro à Mãi Xanda e ao Presidente da Associação, o meu primo e amigo, Dr. Henrique Vera-Cruz, cujo produto da venda reverteria na totalidade a favor da Associação Cabo-verdiana de Luta Contra o Cancro. Bnit i trist!

 

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 Foto Pingo d'Oro, 2010

 

2. Na cerimónia do lançamento das Crónicas de Diazá, a Maria Emília, minha mulher, fez-se presente através do texto abaixo, que enviou por intermédio da Fátima Bettencourt, a apresentadora do livro, para ali ser lido e que foi uma surpresa para todos. Bnit, bnitin!

 

Ao Manuel

  

Há 20 anos que conheço este homem que hoje decidiu abrir diante de vós a sua caixa de recordações, do tempo em que se fez homem. É sempre um processo difícil, porque, se virem bem, trata-se do período em que os acontecimentos mais nos marcam e ficam para a vida inteira. Sendo que, muitas vezes, temos sérias dificuldades em passar por cima daqueles que nos magoaram. Por isso, terá sido este um momento de coragem, não só passá-los para o papel, mas apresentá-los em público. E fazer, dos episódios que viveu, histórias de sucesso.

 

Todos nós, para nos salvaguardar, criamos escudos que guardam as nossas memórias da invasão do social. Neste caso, o Manuel despiu-se dos artefactos que o protegem, pondo assim a descoberto as suas vulnerabilidades. Só que, ao fazê-lo, não ficou despido, mas sim mostrou a sua verdadeira riqueza, que é uma vida feita de emoções, de afectos, de generosidade e de disponibilidade para os que têm tido a sorte de ser seus amigos.

 

Eu tive a sorte de ser sua mulher.

 

E, na impossibilidade de o acompanhar neste momento tão especial e em que se encontra rodeado por quase todos os membros da sua família simultaneamente, como há muito não acontecia, deixo-lhe aqui ficar um beijo.

 

Maria Emília

 

3. Numa tarde de domingo de Fevereiro de 2010, num impulso, decidi criar um blogue onde pudesse divulgar os meus textos, com destaque para as crónicas de diazá, tendo decidido, por isso, que se chamaria Na Esquina do Tempo.

 

A partir do primeiro texto postado ”Na Esquina das Estórias”, começaram a chegar comentários e incentivos de todos os lados, de antigos colegas e “meninos da Chã de Cemitério”, de filhos, netos e bisnetos das personagens destacadas ou invocadas, como Nhô Léla Miranda, Nhô Virisse, Nhô Fonse ou Nha Júlia, no país e na diáspora, do Brasil, da Holanda, da França, dos Estados Unidos, de Portugal e, mais recentemente, de Angola, fazendo-me crer que a minha estória é a estória de toda uma geração, “a geração do Madeiral” como uma vez aqui chamei e que foi escalpelada no epílogo pelo Dr. Manuel Faustino.

 

O Na Esquina do Tempo, sendo um blogue assumidamente de divulgação da cultura cabo-verdiana, já vai em mais de cem posts (este é o post número 104!) nas diferentes secções (tags) e 268 comentários. Conta com 3.558 visitantes, que já realizaram para cima de 7.550 visitas de 45 países ou regiões (387 cidades) e visualizaram 13.690 páginas, sendo que 3.142 são de Cabo Verde, 1.706 de Portugal, 1.168 do Brasil e 641 dos Estados Unidos da América. Bnit, bnitin!

 

- M. Brito-Semedo 

 

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Fotografia Oval

Brito-Semedo, 25 Jul 10

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Foto do Google, Autor Desconhecido

 

Por Manuel Faustino, Psiquiatra

 

Na Esquina do Tempo – Crónicas de Diazá é um assumir de aspectos importantes da construção da personalidade do autor que, ao procurar situar o diálogo consigo mesmo num dado espaço e num tempo determinados, confere a esse processo uma dimensão que claramente ultrapassa essa perspectiva intimista para se tornar num pedaço muito vivo da “Geração do Madeiral” e não só.

 

 A vivência do afecto, ou melhor, o modo como ele se inscreve na memória de Brito-Semedo é, sem dúvida, a linha de força do texto, não apenas devido à sua presença constante explicitada ou intuída, quando fala bem das pessoas ou nas raras vezes em que se contém para não falar muito mal, mas também quando se debruça sobre cada pedaço da sua rua, do seu largo, da cidade da sua m´nineza  E também  do Mindelo de hoje, como autêntico M`nin de Soncent.

 

O estilo escolhido pelo autor coaduna-se perfeitamente com a relação que procura estabelecer com o tempo e o espaço em períodos marcantes para a estruturação da sua personalidade. A sua bela escrita, ricamente temperada por uma soberba e elegante utilização do crioulo, é fotográfica. A fotografia fixa um espaço num tempo determinado, ainda que não estáticos. Apesar da importância quase transcendental que ele (e praticamente todos os seus contemporâneos) atribui ao cinema na sua juventude, as imagens do livro, com a excelente ilustração de Tchalê Figueira, são muito mais fotográficas do que cinematográficas.

 

Apenas uma linguagem fotográfica permite captar um ritmo necessariamente lento (comparativamente aos ritmos de hoje) de recriação e revelação de pormenores a partir de vestígios escondidos numa intimidade mnémica adubada por uma profunda afectividade, herdada da personagem luz, Mãi Liza.

 

Os espaços que adquirem vida própria (e que vão da pontinha ao largo, à rua, à cidade, à Terra-Longe, ao cinema) e que, pela pena de Brito, sem se despojarem da sua materialidade, passam também a ser parte das relações humanas que acontecem e da cultura que entranha a alma, dificilmente poderiam ser tão bem revelados sem uma abordagem que considero, fotográfica. Mas a fotografia é tão real, o entrelaçar de pessoas e situações é tão concreto, a proximidade e intimidade tais, que às vezes temos a sensação de que é necessário desviarmo-nos para não nos esbarrarmos num dos personagens.

 

Apenas a excelente fotografia permite que a lentidão do ritmo, a riqueza de detalhes, possam ser apreendidas na sua profundidade, tacteadas, manipuladas, esmiuçadas e revistas, para contemplar outros espaços e personagens, imaginar um tempo diferente, ainda que próximo. O texto acaba tendo o sabor do manusear de um álbum de fotografias ou da contemplação de uma sequência de slides que se pode parar a qualquer momento, diferentemente do filme que tem, na velocidade, aspectos importantes da sua essência.

 

Este aspecto não estará muito distante da forma como o próprio cinema era vivenciado pelo autor e seus pares. Na verdade o cinema, elemento essencial para a ampliação do exíguo espaço real e virtual em que ele e os companheiros se moviam, não se confinava ao espaço físico onde os filmes eram exibidos e ao qual a maior parte não tinha acesso. Os filmes eram vistos por um ou outro e depois recriados (socializados) para o grupo e reinventados por todos. Ainda que na recriação, até o sonoro e os movimentos estivessem presentes, os “espectadores” tinham direito a pedir para parar, para repetir, como se da reconstrução de uma fotografia imaginária se tratasse.

 

De entre as figuras imponentes, que no fundo dão corpo a personagens presentes nos “tempo e espaços” do Brito e em outros tempos e espaços similares, sobressai do álbum a Mãi Liza que marcou de modo muito particular o autor, assumindo pela sua presença constante, carácter firme aliado a um afecto experimentado como incondicional e à função de “homem da casa”, o papel da grande referência para ele.

 

A avó materna, figura central do trabalho e grande homenageada, emerge como a mulher, esteio da família em gerações diferentes, que teve de assumir as irmãs aquando da morte dos pais, as consequências dos desaires amorosos da filha para além do seu próprio desaire, situação muito comum na nossa terra.

 

A mãe Xanda que viveu a dramática situação de uma gravidez tumultuada encontrou na Mãi Liza o porto de abrigo, o que seguramente contribuiu para ter um papel menos proeminente no percurso do Brito.

 

O autor, que teve “duas mães”, viveu a infância e a juventude em ambiente marcadamente feminino, capitaneado pela avó materna que provavelmente terá contribuído muito para o aguçar da sua sensibilidade artística.

 

Os homens estão presentes na obra, mas de forma muito discreta. Talvez a ausência (ou melhor a não presença) do pai e o facto da avó materna ter de alguma forma assumido também o papel de pai, expliquem essa realidade.

 

As referências ao tio Lalela, figura por quem nutre inegável simpatia, ao Pa Lela, de quem gostava muito, apesar de ter trocado a sua tia-avó por outra mulher, o esforço aparente que faz para não falar muito mal do pai, não alteram essa percepção. Contudo, Brito-Semedo não se coibiu de imortalizar uma das suas referências masculinas, Nho Viriss, numa linda… Fotografia oval.

 

Praia, Julho de 2009

 

 

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O Autor com o Dr. Manuel Faustino no acto de lançamento do "Na Esquina do Tempo - Crónicas de Diazá", Praia, 03.Agosto.2009. Foto Pingo D'Oro, 2009
 

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Boizin d'SonCent

Brito-Semedo, 1 Jul 10

Foto Luis Leonardo

  

Depois da minha ausência forçada na Praia, desembarquei em S. Vicente, aos treze anos, de fato e gravata e falando o crioulo de badio. Sentia-me todo rascon[1] na minha fatiota nova, mas, na primeira oportunidade, o meu tio Lalela arrasou comigo e acabou com o meu entusiasmo e basofaria, pondo-me no meu lugar de “mais pequeno”: – ... fato?!... onde já se viu fato de calções, de pernas curtas?!

 

Dou voltas à cabeça e não me recordo de, alguma vez mais, ter voltado a usar esse meu fato-de-ver-a-Deus! A minha Mãe invoca este episódio para justificar o que ela classifica de minha “mania, desde muito cedo, de usar gravata”. Antes como Pastor Evangélico e, agora, como Professor Universitário!

 

Nesse meu primeiro domingo em casa, quando deambulava pela cidade, os meus passos levaram-me à Igreja do Nazareno da Praça Nova, onde decidi assistir à Escola Dominical. Reuniram-nos por grupos de idade. Gostei da camaradagem e regressei na semana seguinte, bem como nas subsequentes.

 

Passou a ser com prazer que ansiava por cada domingo, para estar com os meus novos amigos. Montámos um esquema de troca das nossas revistas de quadradinhos, o que aumentou ainda mais a nossa cumplicidade. Andei, primeiro, na classe dos “Estafetas” e passei, depois, para a dos “Herdeiros da Coroa”, sendo por essa ocasião que conheci a menina com quem viria, mais tarde, a casar-me.

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Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

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Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

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