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No dia 18 de Outubro, Cabo Verde celebra o Dia Nacional da Cultura e das Comunidades, efeméride instituída em homenagem a Eugénio Tavares, poeta da Brava. Este é também o momento certo para lembrar outro escritor bravense, Guilherme Dantas, precursor da ficção cabo-verdiana, cuja obra permaneceu esquecida durante décadas. Juntos, representam duas faces fundadoras da literatura.

 

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Guilherme da Cunha Dantas (Brava 1849 – 1888), jornalista, poeta lírico e romântico, foi o primeiro escritor cabo-verdiano e um dos fundadores da ficção cabo-verdiana, com Contos Singelos, publicado em Mafra, Portugal, em 1867, quando tinha apenas dezoito anos de idade. Curiosamente, 1867 é também o ano em que nasceu o poeta conterrâneo, Eugénio de Paula Tavares.

 

 

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Comemora-se em Junho próximo os 170 anos de Guilherme da Cunha Dantas (Brava, 25.Junho.1849 – 24.Março.1888), aquele que foi o primeiro escritor cabo-verdianao e um dos fundadores da ficção cabo-verdiana, com Contos Singelos, editado em Mafra, Portugal, em 1867, quando tinha apenas dezoito anos de idade, e do primeiro jornal de Cabo Verde, "Independente" (Praia, 1877-1889).

 

Em jeito de homenagem, no dia em que se assinala os 130 anos da sua morte, o Esquina do Tempo reedita um post de 2016 com a reprodução de um texto de José Augusto Martins, a ele dedicado, publicado em 1891, no livro Madeira, Cabo Verde e Guiné (Lisboa).

 

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Primeiro Escritor Cabo-verdiano

Brito-Semedo, 10 Jan 19

 

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“Estou a vê-lo, bem presente, tez alourada, cabelo castanho claro e anelado, olhos da côr de certos topázios, tristes e vagos, a inseparável luneta, o chapéu de côco e o também inseparável fraque, a bengala de cerejeira e as botas fortes...”

 

– José Lopes, "Guilherme Dantas", in Vida Contemporânea, Junho.1935

 

 

Guilherme da Cunha Dantas pode ser considerado o primeiro escritor cabo-verdiano. O facto de ter nascido e morado quase toda a vida em Cabo Verde (Brava, 1849 – Santiago, 1888), o período de produção literária, a quantidade, qualidade e diversidade da sua obra, que trazem como referência a sociedade e a cultura do arquipélago, são factores que assim o atestam (na época, no sentido regional).

 

É interessante mencionar dois autores mais antigos, mas que não se enquadram efectivamente na definição escritor(a) cabo-verdiano(a): Antónia Gertrudes Pusich (São Nicolau, 1806 – Lisboa, 1883), não apresenta as mesmas características de Guilherme Dantas. Embora nascida em Cabo Verde, cedo foi viver para Portugal tendo-se integrado na vida literária e social da metrópole, não fazendo das ilhas tema da sua obra; e José Evaristo d’Almeida (Portugal, sec.XIX – Guiné-Bissau, séc.XX), autor do romance de temática cabo-verdiana O Escravo, publicado em Lisboa em 1856, que viveu apenas alguns anos em Cabo Verde e a obra restringe-se a esse romance e mais dois poemas onde o arquipélago está presente.

 

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“Que o olvido, esse ingrato esquecimento, não apague a sua [Guilherme Dantas] memória”

 

– Hipólito da Costa Andrade, Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro, 1888

 

Guilherme Augusto da Cunha Dantas (Brava, 25.06.1849 – 24.03.1888), segundo José Lopes, foi um poeta lírico e romântico, mas como jornalista foi um temível polemista na linha de Augusto Barreto e Eugénio Tavares, além de escrever artigos de crítica literária. Assinava os seus escritos como Guilherme da Cunha ou usava as iniciais "A. C.". Colaborou no Boletim Official, nos jornais Independente (Praia, 1877-1889), de que terá sido um dos fundadores, A Imprensa (Praia, 1880-1881) e A Voz de Cabo Verde (Praia, 1911-1919), neste, postumamente, e no anuário Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro (Lisboa, 1851-1932).

 

Coube ao investigador Félix Monteiro (São Vicente, 1909 – 2002) ser o primeiro estudioso, no pós-independência, chamar a atenção, nas suas "Páginas Esquecidas" (Raízes, N.º 21, Praia, 1984), para os escritos de Guilherme Dantas, reproduzindo uma amostra significativa entre poesia e prosa desse jornalista e escritor multifacetado.

 

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Guilherme Dantas, Memórias e Contos

Brito-Semedo, 15 Mar 16

  

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Nhô José Pedro ou Cenas da Ilha Brava

  

“Cenas da Ilha Brava” e “Cenas de Mafra” constituem o livro Contos Singelos, editado em Mafra, Portugal, em 1867, quando Dantas tinha apenas dezoito anos de idade.

 

Tendo o romance O Escravo, de José Evaristo de Almeida, funcionário português radicado em Cabo Verde, publicado em Lisboa em 1856, sido a primeira obra relativa à sociedade das Ilhas[i], é, por isso, considerada obra fundadora da ficção cabo-verdiana; e tendo Contos Singelos, de Guilherme Dantas, sido a segunda obra, publicada em Mafra em 1867, considera-se o seu autor, pertencente a esse período da fundação da literatura cabo-verdiana de ficção.

 

Neste seu texto de iniciação, ou "conto singelo", como o próprio autor modestamente o classificou, Guilherme Dantas explica o leitmotiv da sua escrita – "levado das saudosas reminiscências da terra natal [...] procurar verter para o papel ideias que tanta impressão produzem em minha alma".

 

Este conto é de uma estrutura simples, de apenas duas partes, com várias secções ou planos de cenas. A primeira parte, "Mocidade de José Pedro" cujos acontecimentos se situam em 1827, está dividida em doze secções e ocupa-se da chegada e do estabelecimento do brasileiro António Pedro Sousa à povoação de Santana, do nascimento, da mocidade e da tríplice orfandade de José Pedro Sousa, a personagem-herói. A segunda parte, "Júlia", dividida em onze secções, sendo a última o epílogo, situa-se vinte anos mais tarde, isto é, em 1847, e centra-se em Júlia, a linda filha de José Pedro, motivo da cobiça e dos instintos malévolos de Ricardo Galvão. A história atinge o seu ponto alto na narração da noite de 13 de Junho, dia da Festa de Santo António, em 1860, com o rapto de Júlia e com o castigo e a morte do vilão, causador da maior parte das infelicidades da ilha.

 

As várias cenas do conto e da vivência da ilha, localizadas nas povoações do interior, de Pé-da-Rocha e de Santana, e nas do porto, da Furna e da Fajã de Água, são "pintadas" e descritas poeticamente, com destaque especial para a festa popular de Santo António nessa ilha.

 

 

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Vila de Nova Sintra, Brava

 

 

Embora uma obra de ficção se possa basear na história e em factos reais, o que a caracteriza enquanto tal é o facto de ser uma composição literária de invenção ou produto da imaginação[i]. Contudo, a não ficção é aceitável numa obra romanesca desde que seja em certa dose, pois de contrário pode cair no memorialismo que se define como um género literário que aparece nas primeiras manifestações de prosa em vernáculo, assimilado com a historiografia cronística, e em obras de recorte acentuadamente biográfico. É, contudo, nos séculos XVIII e XIX, sobretudo neste, que o livro de memórias ganha toda a diferenciação possível, cingindo-se à definição de ser "aquele cujo autor nele recorda progressivamente quanto num qualquer sector experimentou ou presenciou com interesse pessoal e convivente"[ii].

 

A prosa literária de Guilherme da Cunha Dantas (Brava, 25.Junho.1849 - 24.Março.1888), embora sendo ficção (contos e romance) pode ser enquadrada no género evocativo, memorialista, contendo muito do biográfico ou do autobiográfico. O título ou o conteúdo dos contos indexa para isso – "Nho José Pedro ou Cenas da Ilha Brava", memórias da ilha natal; "Bosquejos dum Passeio ao Interior da Ilha de Santiago", memórias de uma viagem realizada ao interior da ilha; "Amor! Ai! Quem Dera", memórias de um amor sublime; "A Morte de D. João", memórias do hospital; e "O Sonho", memórias de um doido – pois faz o registo da experiência, ainda que ficcionada, do autor, ao mesmo tempo que retrata para a posteridade factos e acontecimentos da sua época.

 

 

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 Imagem do Google, Autor Desconhecido

 

 

IV

 

 

E as asas molhem meus beijos

em tua boca vermelha,

como no orvalho das rosas

se molha a doirada abelha.

 

            (Camões, Flutuantes)

 

 

Joaninha era a minha décima terceira prima da Brava, exactissimamente aquela a quem nunca fui capaz de apanhar o mais insignificante e inocente beijinho primacial... nem mesmo capaz de lho pedir... valha a verdade!... Uma timidez, de que não sei dar conta... mas é tal e qual!

 

As borboletas voam para as flores, e a loira abelha não pede licença à rosa vermelha para molhar as asas no seu cálice perfumado...

 

E a Joaninha era um botão de rosa desabrochado num sorriso da aurora... como diria o Artiaga, o mais descambado poeta que eu conheço.

 

E eu, que não tenho asas, mas que sou tão guloso como qualquer abelha (e note o Sr. Abelha que não se trata de s. exª...) eu gostaria... gostaria também de molhar a minha sopa...

 

Mas via então como um espelho, em que se reflectem muitas coisas bonitas, o cristal da água, o azul do céu, o carmim das flores... mas que, se lhe bate de repente um raio de sol, obriga-nos a fechar os olhos.

 

Joaninha era assim... O seu olhar era o espelho, e o raio de sol a sua inocência.

 

Sorrindo, fascinava. Olhando, e olhando de certo modo... produzia um deslumbramento. Era duma graça infinita a surpresa cândida que se lhe retratava no olhar, quando o anjo tinha de defender-se de alguns indícios de adoração menos estática. A sensitiva retraía-se mas não tinha espinhos. Não havia indignação naquele olhar, nenhum bafo podia empanar o cristal daquele espelho, havia só o deslumbramento da pureza, que se impunha.

 

Enfim, não sei contar estas coisas!...

 

A verdade é que nunca fui capaz de afrontar a limpidez daquele olhar, de aspirar o perfume das rosas daquelas faces e, muito menos, de molhar os lábios no cristal puríssimo daquele sorriso.

 

O leitor que imagine uma Joaninha toda sua... sim, a sua, embora dando-lhe o nome que mais doce lhe seja... imagine, e deixe-me em paz quando eu lhe disser que D. João é que lhe deu a ela, o primeiro beijo...

 

E isto foi de repente... por surpresa... doido... numa noite de luar, em que eles estavam a olhar-se havia já três horas sem se fartarem... Nem sequer tinham tomado chá!... De repente, o atrevido do D. João agarrou naquela formosa cabecinha às mãos ambas, e imprimiu-lhe na boca um beijo louco...

 

Ela curvou-se toda, fremente e pálida, a destacar-lhe da cor do vestido escuro a alvura da tez, como uma rosa esmaecida pelo calor da lua...

 

E a lua sorria por entre as clareiras arrendilhadas dos bosques de bananeiras que põem manchas na aldeia de Pé da Rocha.

 

A tempo, a avó da Joaninha, que esbugalhava o seu rosário, à porta, a pouca distância dos dois, que estavam sentados no terreiro da casa, teve afinal a percepção de que o sereno da noite podia fazer mal à menina, e chamou-a para dentro.

 

E ela foi, sem se despedir do D. João, confusa, quase indignada, talvez mesmo com dor de cabeça por efeito do sereno...

 

Pobres e santas avós!...

 

Mas o bonito foi no dia seguinte, quando o D. João apareceu com cara de penitente, sem se atrever a erguer os olhos para ela... Joaninha, envolvida no seu alvo penteador, com os formosos cabelos castanhos esparsos em ondas opulentas pelas costas e eriçadas na frente como um diadema, sob o qual resplandeciam as esmeraldas de seus olhos límpidos e sorridentes, tomou entre as mãozinhas a cabeça do grande criminoso, obrigando-o a erguer os olhos para ela, que lhe dizia no olhar e no sorriso: "Eu sou a inocência! Eu sou o anjo! Mas, D. João, sou também a virgem animada pelos primeiros eflúvios do amor... D. João! Amo-te...".

 

E foi ela que, nas barbas da avó, lhe restituiu, purificado, o beijo roubado na véspera...

 

Parece que depois disto D. João partira à conquista de fortuna para a noiva, como fazem todos os filhos da Brava, mas que no caminho surgira-lhe o diabo, sob a forma de uma bonita pequena, que o recambiou direitinho para o hospital da Praia...

..................................................................................................

 

— Ó Sr. António Zé da Cunha! Onde é que está vm.?

 

— Aqui, tio Olifo! Debaixo das acácias... sub tegmine fagi...

 

— Lá está o Sr. com o seu latinório!... Ora venha para dentro, que são horas de lhe dar a sua tintura de iodo...

 

Já íamos no iodo, leitores! A inflamação do fígado saltara-me ao baço à força de cataplasmas, e destas passáramos ao iodo, que eu não consentia, contudo, senão em dose que mal chegava a colorir-me a pele: e à primeira vez que o senti morder, meia hora depois de aplicado agarrei num pau de vassoura e fiz finca pé atrás da porta resolvido a quebrar os ossos ao danado tio Olifo, que por fortuna sua adivinhou-me as caridosas intenções, e disparou-me na janela o seu mais pardo sorriso, acompanhado de uma casquinada maquiavélica.

 

Felizmente, ao cabo de oito dias pude apresentar-me à Junta e consegui engrolar toda a faculdade, menos o Dr. Bernardo, que sustentou teimosamente que eu não tinha coisa nenhuma, no que estive quase tentado a dar-lhe razão... Mas assim mesmo, sempre tive a fortuna de abichar quinze dias de licença, para convalescer em qualquer dos pontos mais saudáveis do arquipélago; e como a Brava passa pelo primeiro, ou um dos melhores...

 

PARTI!!!...

 

 

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Bosquejos dum Passeio ao Interior

Brito-Semedo, 27 Jul 10

 

 

Bosquejos é, como o próprio nome indica, uma reportagem-pintura, ou "as impressões de [uma] viagem caseira" que o autor [Guilherme Dantas] realiza a seguir a ter regressado a Cabo Verde, em 1869, depois de uma longa ausência em Mafra.

 

Na impossibilidade de reproduzir este texto aqui, por ser extenso, cerca de setenta páginas A4, apresento uma súmula desse precioso documento.

 

Embora publicado em primeira-mão em 1878, no Independente (Praia, 1877-1889), o jornal mais antigo a ser publicado em Cabo Verde, este texto foi escrito, segundo o próprio autor, Guilherme da Cunha Dantas, por volta de 1869, e retocado em 1886, que é o mesmo que dizer, dois anos antes da sua morte.

 

A data da escrita do texto, melhor, as datas, os nomes de alguns Governadores e de outras personalidades, e a referência a um "desmazelado Governo" indexam para uma época específica que importa conhecer, pois que serve de pano de fundo a toda a narração.

 

Cunha Dantas, ao criticar os governos da Província, criticava, em última instância, o governo monárquico da Regeneração, assumido em 1851 pelo Marechal Saldanha.

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O Sonho – Memórias dum Doido (4)

Brito-Semedo, 25 Jun 10

 

 Foto do Google, Autor Desconhecido

 

VII

 

Era mais bela! O seio palpitando.

Negros olhos, as pálpebras abrindo...

Formas nuas no leito resvalando...

(Castro Alves)

 

E prosseguia o sonho.

 

Era num pequeno camarim, que mais se diria o templo da Virgindade, tal era o encanto, o mimo, a casta sedução que tudo ali respirava, desde o riquíssimo leito de marfim destacando a sua alvura mate do fundo escuro das paredes forradas de cetim azul com flores e abelhas doiradas, até aos rendilhados cristais com faiscações de oiro, esmeraldas e rubis, e os mil nadas encantadores e deslumbrantes, ricos ou graciosos que ornam o toucador duma donzela formosa, rica e amimada.

 

Uma lâmpada de alabastro espalhava ténue claridade rósea pelo ambiente desse delicioso aposento, em que flutuava o perfume da violeta. A aurora dentro dum ninho! E essa misteriosa claridade tinha um não quê de mística pureza e velados deslumbramentos, que fariam cismar um ateu na possibilidade de se fabricar o céu na terra.

 

Era o aposento virginal da Branca, a princesa, a fada do meu sonho.

 

E ela estava ali, reclinada sobre o leito de marfim, semi-nua, bela, divina!... Parecia uma estátua ornamental do mesmo leito, e da mesma preciosa matéria, se a sua palidez marmórea se não destacasse mais vigorosamente sobre a deslumbrante alvura das roupagens, e o movimento dos seios arredondados, róseos, lisos, apenas velados por transparente gaze, a respiração ansiada e os ligeiros sobressaltos dum sonho misterioso, não acusassem a vida.

 

Ela dormia, na posição voluptuosa duma náiade estendida sobre um lago, de peito ao alto, velada pelos raios do luar.

 

Serviam-lhe de mimoso travesseiro os roliços e alvos braços entrelaçados por sobre o colo, e as formosas mãozinhas desapareciam enterradas nas ondas de oiro do farto cabelo. Banhava-lhe o rosto um pálido fulgor de opala, como se os lindos olhos entreabertos deixassem escoar uma luz misteriosa: e sob os ombros nus e opulentos, e na transparência das alvas roupas acusavam-se formas, pontuavam sombras de irritante voluptuosidade.

 

Sonhava, provavelmente, sorrindo, entreabertos os lábios húmidos e purpurinos como a pedirem uma chuva de beijos.

 

E eu vi-me, ajoelhado junto ao seu leito, ofegante, devorando a uma e uma com os olhos as perfeições daquele corpo gentilíssimo, até que meus lábios, como atraídos pela respiração e pelo eflúvio magnético do sorriso de Branca, se poisaram convulsos nos seus lábios virginais.

 

Ela acordou soltando um débil grito, em seguida estendeu os braços entrelaçando-me o colo, senti que me sufocava o calor perfumado do seu seio, e... tive deslumbramento, a que se seguiram trevas... E houve nova mutação no meu sonho, ou, para melhor dizer, paralisação.

 

VIII

 

E o teu sorrir me faz chorar, criança!...

(Costa Goodolhim)

 

Era outra vez noite, e eu vagava nas trevas.

 

Quanto tempo decorrera desde a cena precedente? Não sei, tudo pertence ao vago e caprichoso do sonho.

 

Só sei que andava como um sonâmbulo. Sons de orquestra distante me atraíam.

 

De repente, vejo-me subindo outra vez as escadarias do palácio de Branca, esplendidamente iluminadas, e apinhadas de camponeses de ambos os sexos, vestidos garridamente, os quais me entregavam ramos e saudavam na passagem como noivo da princesa; depois retiravam-se, e quando acabei de subir, como um burro carregado de flores, achei-me sozinho, no alto dum terraço que ainda distava uns cem passos da fachada principal do palácio, tal era a extensão e riqueza deste.

 

Coisa singular!... Eu, noivo duma princesa, trajava ainda a mesma sórdida libré da pobreza, e nem o luto mudara!

 

Haveria filosofia no meu sonho?...

 

Como disse, parei.

 

Então, como se fosse um sinal, apagaram-se todas as luzes exteriores, e só ficou o interior do palácio vivamente iluminado.

 

Lá dentro havia festa, música e risos, e nos enquadramentos luminosos projectados pelas janelas abertas, perpassavam sombras valsando.

 

Havia só três janelas escuras e contíguas. Eram os aposentos de Branca.

 

De repente vi, ou adivinhei, que assomava a uma delas o vulto da minha princesa, e julguei ouvir a sua voz adorada.

 

– Vem! dizia-me ela.

 

E não pôde mover-me!... Estava sozinho, no meio das trevas, como alheio a mim mesmo, cismando... se é que cismava, pois não me lembra sequer se vivia...

 

– Vem! repetiu a voz de Branca, desta vez como um queixume.

 

A mesma imobilidade!

 

A meus pés, banhando os alicerces do palácio e os últimos degraus da sua larga e soberba escadaria, o mar, se é que era mar, desenrolava as suas ondas murmurosas com um som de vago lamento. As estrelas, resvalando a luz trémula pelas fachadas do palácio recamadas de preciosas pedrarias, punham reverberações fantásticas no espelho escuro das águas, e ao longe passava uma barca, talvez uma gôndola veneziana, iluminada. A noite estava serena, e flutuavam vagas harmonias naquela atmosfera tranquila e maravilhosamente bela.

 

– Vem!... vem!... gemeu a voz de Branca.

 

E eu pensava, se é que isto era pensar...

 

"Pois quê?... A felicidade foi acaso feita para mim?... Ser amado... ser feliz... Que loucura!..."

 

O que é mais singular é que eu, ouvindo os gemidos de Branca, percebendo vagamente que ela estava perdida para mim, que uma fatalidade qualquer ma arrebatava, contudo não sofria senão como duma dor já passada, uma impressão igual à que se sente quando se carrega o dedo numa cicatriz antiga... Sofrer era meu destino, e eu tinha já sofrido tanto!...

 

A noite tornara-se cada vez mais densa e opaca. Trevas espessas toldavam o céu, e abaixo de mim o lago perdera as suas cintilações cambiantes e patenteava-se numa estagnação negra, com vagos reflexos plúmbeos. Emudecera a orquestra, apagaram-se as luzes do palácio, e o vulto encantador de Branca havia muito que se desvanecera da janela e quase da minha memória também.

 

E eu cismava nas trevas...

 

Decorreram as horas... e eu permanecia ali como petrificado, com os olhos estupidamente fitos, ora na fachada do sumptuoso palácio, onde não brilhava nenhuma luz, ora nos horizontes tenebrosos, onde já não fulgia nem uma estrela.

 

Depois veio a aurora e despontou sol, subindo radiante, numa hilaridade luminosa que enchia o espaço.

 

Então abriram-se de par em par as portas do palácio, e uma alegre comitiva irrompeu no terraço.

 

À frente vinha Branca, pálida como um lírio, dando braço a um galhardo oficial, não me lembra se de terra ou de mar.

 

E toda aquela gente passou por diante de mim, sorrindo, alegre, felicíssima, e sem me ver.

 

Branca, porém, vira-me; o seu véu de noiva roçou-me pela face, queimando-a, e, por um momento, parecera-me que seus olhos marejados de lágrimas me fitavam com expressão de indefinível compaixão, ao passo que dos lábios adorados julguei ouvir-lhe num gemido o meu nome:

 

– Júlio! adeus...

 

– Adeus, sonho da minha vida! Murmurei eu.

 

Adeus! – Que palavra tão maviosa e triste!... E que outra se pode compara com ela, senão a Saudade?!...

 

Adeus!... Que despedaçar de fibras sonoras na última vibração uníssona de dois corações que se partem!...

 

Oh! sim, eu fui amado por aquele anjo!...

 

Ai! se era o anjo... dum sonho!...

 

E passaram...

 

Somente ficou o meigo olhar de Branca, descendo-me dos olhos ao coração, e diluindo em ondas de infinita amargura o gelo que o sufocava.

 

E como eu volvesse os olhos para a janela de Branca, daquele quarto virginal onde eu tivera um deslumbramento, vi nela a mãe da princesa.

 

Aquela mulher sorria-me...

 

Então senti no peito alguma coisa que se me regelava de novo ao contacto do frio diabólico daquele riso, e...

 

Despertei.

 

Mais alguns minutos daquele horrível pesadelo, e creio que teria morrido!...

 

Oh! as mães que vendem as filhas!... Estas, sim! Odeio-as!...

 

Sim! Branca eras tu... porque se tu não fosses, teria perseguido a doce ilusão do meu sonho e eu seria feliz... ao menos uma vez na vida... sonhando!

 

Mas não te incrimino, pobre Cosette... Não...! não te quero mal... Pelo contrário, sinto imensa compaixão quando hoje, passando pela tua casa, te vejo à porta a frigir peixe, suja e rota, com os vestidos pingados de azeite, num decote desmazelado, sorrindo prazenteira e serviçal, deixando devassar o seio pelo olhar lascivo dos vadios...

 

E tens ainda a coragem de rir!?...

 

Como és feliz, ó infeliz!

FIM

 

 

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Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

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