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A Confissão e a Culpa GA.jpgUma, duas, três vezes, o nosso Camões ficcionista conta e reconta a história da triangulação amorosa Miguel Macieira, Matilde e Edmundo do Rosário. Essa é a história de Edmundo que ama Matilde, que ama Miguel Macieira, que ama… os livros. Miguel Macieira foi morto, Edmundo foi mandado para a Cadeia Civil da Ribeirinha, Matilde ficou viúva de marido vivo, os livros tornaram-se best-sellers promovidos pela Ilhéu Editora, que não entrou na história.

 

Esta obra segmentada em três partes, de narrativas conectadas entre si, como via de regra ocorre com as trilogias, também pode ser entendida como trabalho singular. Tem uma escrita e uma concepção em forma de prisma, onde o mesmo evento ganha facetas distintas, com diferentes lugares de fala e de olhares, masculino-feminino.

 

A ‘Trilogia do Mindelo’ proporciona momentos agradáveis de boa leitura, com histórias e mundividências da nossa Morada. Aliás, Germano Almeida vê-se – e certamente é visto neste nosso mundo lusógrafo, para além do Monte Cara – no espaço e nas histórias que conta da Cidade do Mindelo. Germano Almeida vem na linha de uma tradição de grandes cronistas da cidade do Mindelo como António Aurélio Gonçalves, Nhô Djunga e Sérgio Frusoni.

 

As histórias da trilogia são contadas e analisadas com nuances diferentes pelas personagens Miguel Lopes Macieira, o autor, e Brito-Macieira, o primo e apresentador da obra (O Fiel Defunto, 2018); por Mariza Silveira, a companheira do escritor (O Último Mugido, 2020) e por Edmundo do Rosário, o amigo homicida (A Confissão e a Culpa, 2021).

 

Reportemo-nos aos dois romances anteriores dessa trilogia, para depois nos centrarmos no último. Com Germano Almeida há sempre um voltar atrás:

 

O Fiel Defunto

 

Miguel Lopes Macieira, o mais conhecido e traduzido escritor das ilhas é assassinado momentos antes do início da cerimónia de apresentação do que acabou por ser a sua última obra.

 

Brito-Macieira, enquanto primo em primeiro grau e único familiar do escritor morto, assume a organização das exéquias fúnebres.

 

Mariza, a companheira do escritor, regressa dos Estados Unidos para assumir a direcção dos assuntos relativos ao marido e fica-se a saber que este tinha deixado um testamento onde expressava a vontade de ser cremado sob os acordes de uma das sinfonias do Maestro da Cidade.

 

O poder político dá indicações de que o escritor vai ter direito a funeral do Estado com as honrosas presenças do chefe de Estado e também do chefe do Governo, para além do ministro da Cultura que expressamente quer dirigir a cerimónia.

 

O Presidente da Câmara compra todos os exemplares do último livro do escritor para oferecer a todos os presentes no funeral.

 

O Último Mugido

 

Chegado aqui, socorro-me da prosa saborosa de Ana Cordeiro na apresentação da obra:

 

«Em O Último Mugido temos a luta da viúva do escritor para conseguir realizar a última e tonta vontade do defunto que queria ser incinerado em praça pública e a partir daqui o autor critica a inoperância, o oportunismo e as políticas governamentais, que entre os clusters do PAICV e os hubs do MpD não tiraram a ilha de S. Vicente do marasmo em que se encontra nem fizeram desaparecer o sentimento de abandono dos seus habitantes nem a vontade de reerguer a ilha que os parece animar.»

 

A Confissão e a Culpa

 

Lançamento do livro de Miguel Lopes. O engenheiro Edmundo Rosário é preso por assassinar, num acto tresloucado, aquele até então considerado seu melhor amigo: o escritor. Julgado, é condenado a uma pena de vinte anos.

 

Este é o mote que vai dar o tom do último livro da Trilogia de Mindelo – A confissão e a culpa. E que vai jogar os holofotes sobre Edmundo Rosário, uma personagem cinzenta e pouco interessante nos outros volumes.

 

Com estrutura narrativa de romance policial, cujo escopo é sempre a elucidação de algum mistério, o leitor é envolvido e convidado a entrar na trama através de uma perambulação pela Morada no carro do engenheiro, em que cada volta encerra uma curiosidade, insinuação, descoberta; está na condição de espectador no fatídico dia do homicídio; vê-se sentado no Tribunal, ouvindo a sentença ao lado de outras personagens; acompanha o réu até à prisão; e está presente nas visitas, das quais regista as conversas... para, finalmente, concluir que “Foi o meu doentio amor por ela [Matilde] que me levou a esse supremo sacrifício de enfrentar anos e anos de prisão para que ela possa continuar a viver a doce ilusão que criou com o seu escritor e da qual beneficiei durante anos em que fomos casados e fui feliz”.

 

A Trilogia do Mindelo

 

Uma curiosidade que o público sempre tem em relação às trilogias, sejam de livros ou de filmes, é se há a necessidade de serem lidos ou assistidos na ordem de publicação / exibição ou não.

 

Vejamos um outro caso na literatura cabo-verdiana, o da ‘Trilogia do Sobrado, Loja e Funco’ de Teixeira de Sousa – Ilhéu de Contenda (1978), Xaguate (1987) e Na Ribeira de Deus (1992) – que foram sendo lidos à medida que publicados mas, no fim, constactou-se que, para se seguir a ordem cronológica e o fio da história das famílias, melhor seria começar por ler Na Ribeira de Deus, seguindo-se Ilhéu de Contendae, por fim, Xaguate.

 

Se um leitor me perguntasse como ler as três obras de Germano Almeida, eu daria duas possibilidades: (i) a primeira, linear, seria seguir a ordem proposta pelo autor; (ii) a segunda, seria ler o primeiro volume, Fiel Defunto, sobre a vida e a morte do escritor; passar para o terceiro, A Confissão e a Culpa, em que fica esclarecida a causa do assassinato; e fechar com o segundo, O Último Mugido, que tratada implementação do testamento do escritor morto.

 

A leitura da trilogia, seja qual for a perspectiva, permite-nos esquadrinhar os traços de personalidade das personagens, entender as relações sociais vigentes na cidade, compreender questões históricas e sociopolíticas no período das ocorrências mas, também, provocarem nós um íntimo mergulho nos nossos temores, desejos, limitações e possibilidades.

 

Manuel Brito-Semedo

 

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