Recomendações de consulta
Assuntos culturais
Bibliotecas Virtuais
Blogues Parceiros
Documentários
Instituições Ensino Superior
Para mais consulta
Esquina do tempo por Brito-Semedo © 2010 - 2015 ♦ Design de Teresa Alves
Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Brito-Semedo, 27 Fev 26

Legenda: Entre a língua que se pensa e a língua que se escreve
Numa sala de aula qualquer do arquipélago, uma criança levanta o dedo, pensa em crioulo e responde em português. Nesse intervalo mínimo – quase invisível – cabe uma parte decisiva da história cultural de Cabo Verde. A UNESCO, em 1999, declara que a educação deve começar na língua materna, princípio justo e humanamente irrefutável. Mas quando essa verdade, pensada à escala do mundo, chega às ilhas, encontra uma realidade mais densa do que supõe.
Entre nós, a língua materna é o crioulo – plural nas suas variantes, íntimo na afectividade, absoluto na vida quotidiana. A língua da escola, da escrita e da projecção exterior continua a ser o português, herança histórica transformada em instrumento de mobilidade. Não é contradição: é uma arquitectura social própria, nascida da crioulização atlântica e consolidada por séculos de convivência funcional entre duas línguas. Aprende-se melhor na língua em que se pensa, dizem os estudos. Em Cabo Verde, pensa-se em crioulo e escreve-se em português, num bilinguismo assimétrico que é simultaneamente limite pedagógico e recurso civilizacional.
O universalismo raramente prevê o detalhe decisivo: o cabo-verdiano não é uma entidade uniforme, mas um arco de variantes insulares, cada uma enraizada numa história local. Integrá-lo plenamente no ensino implica escolhas normativas que são inevitavelmente políticas, porque tocam a sensibilidade das ilhas e a memória das comunidades. Nenhuma declaração internacional resolve essa equação por nós.
Talvez por isso a questão não seja aplicar ou rejeitar o princípio, mas traduzi-lo com inteligência histórica. A UNESCO oferece orientações; Cabo Verde precisa de soluções próprias, coerentes com a sua experiência crioula. Não temos de salvar a língua materna – ela nunca esteve ameaçada na vida real do país. O desafio é institucionalizar uma evidência sem empobrecer a complexidade que a tornou possível.
Porque, entre nós, até o universal chega com sotaque – e talvez seja precisamente esse sotaque que nos define.
Nota | Curtas – Apontamentos breves sobre lugares, gestos e episódios do quotidiano que o tempo tende a apagar.
– Manuel Brito-Semedo
Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...
Triste com a notícia de um bom amigo que nos deixo...
Gostei muito.Batcha.
Cara Amiga e Colega, obrigado pela leitura atenta ...
Gostei do seu texto. Assertivo, muito simbólico e ...
Cara Amiga, Os grupos de Carnaval de SonCent têm t...